Quinta-Feira, 02 de Outubro

29/06/2004 - Copyleft

Marcel Proust e as inovações tecnológicas


João Grinspum Ferraz

Definir a modernidade é uma árdua tarefa. Para cada ciência, ou melhor, em cada corte epistemológico que realizamos, a modernidade significa uma transformação progressista nos métodos e na maneira de ver as coisas. Muitas vezes, trata-se de uma completa revolução no modo em que as ciências se reconhecem.

A modernidade não pode ser marcada em uma linha cronológica. Em cada campo do conhecimento humano a modernidade teve seu “tempo de acontecer”, sua época. Ela não é temporal nem territorial. A modernidade pode ser (e talvez assim seja uma forma melhor de colocar as coisas) tratada como a condensação de diversos “avanços” – ou inovações – que, em diversos campos do conhecimento humano, transformaram de maneira definitiva o habitus do indivíduo no Planeta Terra. Nos mais diversos lugares, pudemos observar mudanças significativas no modus vivendi dos seres humanos, mesmo que em escalas e graus diferentes. De fato, a modernidade seria então este nebuloso período que, de certa forma, transformou o homem feudal no indivíduo que hoje conhecemos.

Círculo das Tecnologias
“Os progressos da civilização permitem a cada qual manifestar qualidades insuspeitadas ou novos vícios que os tornam mais caros e mais insuportáveis a seus amigos.” (Marcel Proust in Sodoma e Gomorra)

Uma das mais marcantes características do nebuloso período a que chamamos modernidade é a intensificação do aparecimento de inovações tecnológicas. Ou seja, a grande quantidade de criações pela ciência de instrumentos extracorporais que, baseados em inovações teóricas no campo da tecnologia, vêm a facilitar as atividades humanas, substituindo métodos onde havia, outrora, a necessidade de uma maior esforço para atingir, com igual ou menor eficiência, um objetivo específico.

Ações como a comunicação, a movimentação, a realização da higiene pessoal e os tratamentos médicos, recebem novos instrumentos que possibilitam ao homem realizar mais complexas atividades. Não são, porém, uma contribuição àquilo que o indivíduo já realizava apenas; essas inovações transformam os métodos pelos quais eram realizadas tais tarefas outrora, impingindo no ser humano uma gradual mudança no seu habitus, alterando definitivamente os seus mais íntimos movimentos e métodos.

Essas mudanças ocorrem, também, numa forma espiral: a combinação de diferentes inovações proporciona mais, e mais novas, realizações. Talvez essa característica seja de crucial importância para entender a velocidade com que as inovações operaram as transformações nos indivíduos e no seu modo de vida.

Podemos observar isso claramente através do desenvolvimento da indústria da informação, da mídia. Se observarmos o relato de Benjamim sobre os jornais e a imprensa no Segundo Império:

“Era nos cafés, durante o aperitivo que se recheava a informação. ‘O habito do aperitivo... apareceu com o advento da imprensa do bulevar. Antes, quando só havia os grandes e sérios jornais, não se conhecia a hora do aperitivo, que é uma conseqüência lógica da crônica parisiense e dos mexericos urbanos’. A atividade dos cafés treinou os redatores no ritmo do serviço informativo antes mesmo que sua maquinaria estivesse desenvolvida. Quando, por volta do fim do Segundo Império, o telégrafo elétrico entrou em uso, o bulevar perdera seu monopólio. Doravante, os acidentes e os crimes podiam ser recebidos de todo o mundo.” (Walter Benjamin in O Flâneur).

E depois, observando a descrição de Proust à trivialidade em que se convertera a impressão de jornais na Paris do final do mesmo século XIX. Observamos ainda o modo como ele coloca dentro do habito íntimo de cada um a leitura de um Jornal.

“Depois, considerei o pão espiritual que é um jornal, ainda quente e úmido da prensa recente, sob o nevoeiro da manhã em que o distribuem, desde o alvorecer, às criadas que o levam a seus patrões com o café com leite, pão miraculoso, multiplicável, ao mesmo tempo um e dez mil, e que permanece o mesmo para cada um, penetrando, inumerável e de uma só vez, em todas as casas.” (Marcel Proust in A Fugitiva).

Vemos, ainda, como rapidamente o jornal se torna um meio de formação de opinião, não só entre as massas, mas em qualquer parte. No dizer do autor:

“A verdade é que todo mundo vê tudo através do seu jornal favorito, e nem poderia ser de outro modo, quando não se conhecem de ciência própria os homens e sucessos em causa.” (Marcel Proust in O Tempo Redescoberto).

“’O espantoso’, disse, ‘é o público, que só julga os homens e as coisas da guerra pelos jornais, estar convencido de que julga por si mesmo’” (Marcel Proust in O Tempo Redescoberto).

Proust conduz o leitor para uma revisão de cada uma de suas relações com objetos e instrumentos que, nos dias de hoje, não são mais do que simples instrumentos da vida cotidiana do homem ocidental. É espantosa a forma como ele revisita cada uma das experiências de modo significativo. Se, por um lado, ele apresenta ao leitor um novo modo de enxergar aquilo que é trivial no dia-a-dia, por outro, apresenta uma valiosa pintura da relação de estranhamento das pessoas do final do século XIX, na avançada Paris, com o que surgia de novo no campo da tecnologia. Desde o som repetitivo e constante de um simples relógio, perdido no quarto do narrador:

“Esse tique-taque mudava de lugar a todo momento, pois eu não via o relógio; parecia-me vir de trás de mim, da minha frente, da direita, da esquerda, às vezes extinguir-se com se estivesse muito longe. De repente descobri o relógio em cima da mesa. Então ouvi o tique-taque num lugar fixo, de onde não mais se moveu. Pelo menos julgava ouvi-lo naquele ponto; não o escutava ali, via-o, os sons não tem lugar.” (Marcel Proust in O Caminho de Guermantes).



Até o modo como o narrador apresenta a fotografia como uma possibilidade de se observar novas perspectivas de lugares e pessoas de quem até então se tinha uma determinada impressão. A fotografia que, por sua vez, começava sua primeira grande fase de desenvolvimento. Chegava às mãos do público, mesmo que de modo reservado, de forma pioneira. E na sociedade francesa daquele período, isso não ocorreu de maneira diferente:

“As últimas aplicações da fotografia – que deitam aos pés de uma catedral todas as casa que tantas vezes nos pareceram de perto quase tão altas como as torres, (...), que aproximam estreitamente as duas colunas da Piazzetta ainda há pouco tão distantes, que afastam a vizinha Salute e que, num fundo pálido e degradado, fazem caber um horizonte imenso debaixo do arco de uma ponte, no quadrado de uma janela, (...) – não vejo senão isto que possa, tanto como o beijo, fazer surgir do que julgávamos uma coisa de aspecto definido, as cem outras coisas que ela igualmente é, visto que cada uma está em relação com uma perspectiva não menos legítima.” (Marcel Proust in O Caminho de Guermantes).

A Fotografia passa a operar uma substituição naquilo que Benjamin vê como um caráter essencial da modernidade ainda no Segundo Império. A fotografia substituiria, aos poucos, a figura que Benjamim descreve quando trata de Daumier, e quando Baudelaire fala de Guys. Essa figura, conforme a descrição de Benjamin:

“(...) pois não havia nenhuma energia política comparada à de um Daumier. A reação é, portanto, a condição que ‘explica a colossal passagem em revista da vida burguesa que se estabeleceu na França... Tudo passava em desfile... Dias de festa e dias de luto, trabalho e lazer, costumes matrimoniais e hábitos celibatários, família, casa, filhos, escola, sociedade, teatro, tipos,profissões.” (Walter Benjamin in O Flâneur).

Não seria exagerado percorrer, na história, esse caminho, de que fala Benjamin, até as fotografias, por exemplo, de Henri Cartier-Bresson da libertação de Paris em 1944 e das manifestações de maio de 1968; Paris até hoje comporta essa possibilidade de registro de sua vida cotidiana. Muito embora, as raízes desse costume estejam no Segundo Império e, posteriormente, na entrada da fotografia na vida cotidiana da cidade.

O estranhamento de Proust diante das inovações tecnológicas não cessa, contudo, naquilo já citado nos parágrafos acima. Diante das ainda mais surpreendentes inovações tecnológicas, ao menos para um filho do século XIX, o narrador vai ainda mais longe nas descrições. Fica claro, diante das comparações por ele realizadas, que o transcendente não basta para explicar aquelas novas experiências, prevalece o estranhamento apenas. E com tal, o deslumbre inexplicável.



O telefone, de Thomas Edson, ganha a forma de uma magia, à qual – como Palas Atena na Odisséia – pode encurtar as distâncias, fazendo com que a informação vá e volte de modo sobrenatural.

“O telefone, naquela época, ainda não era de uso tão corrente como hoje. E, no entanto, o hábito leva tão pouco tempo para despojar de seu mistério as forças sagradas com que estamos em contato que, não tendo obtido imediatamente minha ligação, o único pensamento que tive foi que aquilo era muito demorado, muito incômodo, e quase tive a intenção de fazer uma queixa. Como nós todos agora, eu não achava suficientemente rápida nas suas bruscas mutações, a admirável magia pela qual bastam alguns instantes para que surja perto de nós , invisível mas presente, o ser a quem queríamos falar e que, permanecendo à sua mesa, na cidade onde mora sob um céu diferente do nosso, por um tempo que não é forçosamente o mesmo, no meio de circunstâncias e preocupações que ignoramos e que esse ser vai comunicar, se encontra de súbito transportado a centenas de léguas (ele e toda ambiência em que permanece mergulhado) junto de nosso ouvido, no momento em que nosso capricho ordenou. E somos como o personagem do conto a quem uma fada, ante o desejo que ele exprime, faz aparecer num clarão sobrenatural a sua avó ou a sua noiva, (...), bem perto do expectador e no entanto muito longe, no próprio lugar onde realmente se encontram. Para que esse milagre se realize só temos de aproximar os lábios da prancheta mágica e chamar – algumas vezes um pouco longamente, admito-o – as Virgens Vigilantes cuja voz ouvimos cada dia sem jamais lhes conhecer o rosto, e que são nossos Anjos da Guarda nas trevas vertiginosas a que vigiam ciumentamente as portas; as Todo-Poderosas por cuja intercessão os ausentes surgem ao nosso lado, sem que seja permitido vê-los: as Danaides urnas dos sons; as irônicas Fúrias que, no momento em que murmuramos uma confidência a uma amiga, na esperança de que ninguém nos escuta, gritam-nos cruelmente: “ Estou ouvindo”; as servas sempre irritadas do mistério, as impertinentes sacerdotisas do Invisível, as Senhoritas do Telefone!” (Marcel Proust in O Caminho de Guermantes).

É curioso, ainda, observar o caráter “combinatório” das inovações tecnológicas. É marca da Modernidade o dinamismo com que a informação é transmitida e repassada. No mundo contemporâneo, do fim do século XX, pode-se dizer que grande parte do globo conta com uma transmissão de informações quase instantânea. Essa possibilidade advém, fundamentalmente, da união – e da melhoria tecnológicas – da imprensa, com o telefone e com a fotografia.



Um processo semelhante ao descrito na experiência telefônica ocorre quando o narrador se coloca diante dos meios de transportes, que surgiam naquele momento. Se ao automóvel é “apenas” conferida a possibilidade de ser extraterritorial:

“(...) gozava de um especial privilégio de extraterritorialiedade. (...) o automóvel, que não respeita nenhum mistério.” (Marcel Proust in Sodoma e Gomorra).

O avião traz à mente do narrador a possibilidade de transitar a qualquer parte. O sonho de ida ao espaço, em direção aos astros de fora do planeta, pode encontrar, talvez, suas raízes em sentimentos análogos ao que experimenta o narrador na tentativa de descrever a emocionante experiência que é a possibilidade de ver o homem voar.

“De súbito, o meu cavalo empinou-se; ouvira um barulho insólito, e eu tive dificuldade em dominá-lo para não ser lançado por terra, depois ergui para o ponto de onde me parecia provir aquele ruído os meus olhos cheios de lágrimas, e vi, a uns cinqüenta metros acima de mim, em pleno sol, entre duas asas de aço fulgurante que o arrebatavam, um ser cuja figura indistinta me pareceu assemelhar-se à de um homem. Fiquei tão emocionado como o poderia ficar um grego que visse pela primeira vez a um semideus. Chorava também, pois estava prestes a chorar quando reconheci que o ruído se produzi acima de minha cabeça – os aeroplanos eram ainda muito raros naquela época –, ao pensamento de que aquilo que eu ia ver pela primeira vez era um aeroplano. Então, como quando se sente que vem no jornal uma frase emocionante, eu só esperava avistar o avião para romper em pranto. No entanto, o aviador pareceu hesitar em sua direção; eu sentia abertos diante dele – diante de mim se o hábito não me fizesse prisioneiro – todos os caminhos do espaço, da vida; avançou, pairou por um instante acima do mar, depois, tomando bruscamente o seu partido, parecendo ceder a alguma atração oposta à da gravidade, como que retornando à sua pátria, com um leve impulso de suas asas de ouro, ele se foi direto para o céu.” (Marcel Proust in Sodoma e Gomorra).

A possibilidade de observar a operação realizada na cabeça de uma personagem do século XIX através do advento, e da melhoria das condições de uso de cada um destes instrumentos, pode servir-nos como uma pequena amostra de como, aos poucos, o habitus do indivíduo encontra sua adaptação aos novos recursos tecnológicos. Seja através do estranhamento; seja através da apropriação imediata de tais inovações pelo indivíduo, essas mudanças – somadas a diversas outras, que aqui não foram relatadas, impingiram no ser humano uma profunda transformação na sua rotina e no seu cotidiano.

A reflexão a que Proust nos conduz é, de certa forma, análoga àquilo que ele coloca na frase abaixo.

“Ao lermos a obra-prima nova de um homem de gênio, é com prazer que encontramos nela todas aquelas nossas reflexões que tínhamos desprezado, alegrias, tristezas que havíamos reprimido, todo um mundo de sentimentos desdenhados por nós e cujo valor o livro onde o reconhecemos nos assinala subitamente.” (Marcel Proust in A Prisioneira).

É certo que entender as mudanças que se realizam no modo de vida de uma sociedade é interessante em absoluto; mas é muito mais rico um exemplo no qual a arte – a literatura neste caso – revela, sem nenhuma obviedade, as sensações e sentimentos de outrem em favor de nosso entendimento. Em que a linguagem, que transcende a comunicação escrita, pinta quadros com as mais belas e variadas cores, através de simples caracteres.




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