Quinta-Feira, 24 de Julho

31/01/2005 - Copyleft

Vítimas do Césio 137 vêm ao FSM atrás de justiça


Anaí Rodrigues

Porto Alegre - Em setembro de 1987, populares desavisados violaram uma cápsula que encontraram em um barracão no centro da cidade de Goiânia (GO) - na verdade uma antiga Clínica Radiológica. Não imaginavam que a pedra de um brilho azul deslumbrante tratava-se, na verdade, de Césio 137, uma substância radioativa. Era o início de um acidente radiológico.



17 anos após o acidente, apenas parcela muito pequena das vitimas foi oficialmente reconhecida pelo governo, recebendo uma assistência paliativa e inadequada, segundo Odesson Alves Ferreira, vítima do acidente e presidente da Associação das Vítimas do Césio 137. Isso porque só são reconhecidas como vítimas as pessoas que tiveram contato direto com o material, seus descendentes em 1º e 2º graus e servidores que atuaram na remoção e vigilância do lixo radiativo, o que equivale a pouco mais de 600 pessoas.



Vale lembrar que foi somente em 1999 que 186 dos 200 Policiais Militares que trabalharam no isolamento da área foram reconhecidos pelo Estado com vítimas do Césio 137. Mas seus familiares não. João Batista, um dos PMs nessa situação, tem dois filhos. Ambos têm problema de saúde. “No último mês, gastei 430 reais em medicamentos com meu filho”, conta, inconformado.



Ferreira afirma que não se põe na conta das vítimas as pessoas das redondezas dos quatro ferros-velhos por onde os resíduos passaram durante seu percurso, o que dá um total de cerca de 4 quilômetros quadrados de área diretamente afetada pelo Césio – muito mais do que os 300 metros reconhecidos oficialmente. Tampouco são contabilizadas as diversas vítimas indiretas, desde os familiares e pessoas próximas às vítimas diretas, até a população em geral, que entrou em contato com a substância em encontros ocasionais em ônibus, mercados, trabalho etc.



Conseqüências


Os casos são os mais escabrosos: o homem que trabalhava separando o metal e morreu sem o saco escrotal, que caiu por conta da doença; a enfermeira que trabalhou uma semana com os contaminados e morreu com mais de 20 tumores; a menina Leide, primeira vítima fatal, que ingeriu o material enquanto brincava com ele durante a refeição; o pai de família que só foi considerado vítima oficial do Césio uma semana antes da sua morte, de modo que não chegou a receber a pensão a que teria direito – nem tampouco sua família, já que a pensão é vitalícia (ou seja, não tem sucessores).



Isso sem falar nos diversos processos discriminatórios que essas pessoas sofreram na sociedade, como estabelecimentos comerciais de vítimas que faliram por falta de fregueses, e pais que tiraram filhos de escolas para não conviver com crianças que tiveram contato com o Césio.



Como se vê, não foi só a saúde física das vítimas que foi afetada pelo Césio, mas também a sua cidadania, sua moral. “As pessoas perderam, ao mesmo tempo, sua identidade geográfica (casas inteiras demolidas e aterradas), pessoal e física”, afirma o presidente do Fórum Permanente de Prevenção e Controle de Acidentes Radiológicos e Nucleares (FOCAR), o psicólogo Julio de Oliveira Nascimento. “E não receberam nenhum apoio psicológico do Estado”.




Acidente?


Enfim, foram, ou melhor, são, muitas as conseqüências do acidente de 87 - se é que se pode chamar de acidente. “Acidente foi para quem estava ali, na hora”, afirma o promotor Marcus Antonio Ferreira Alves, responsável pelo inquérito que investiga problemas relacionados ao caso. Porém, as coisas não pararam por aí. O Estado, sabendo do acidente, não tomou as medidas necessárias para proteção das pessoas, e ainda mandou servidores para lá – sem informar sobre os riscos que corriam ou oferecer os equipamentos de segurança necessários. Para Alves, isso não é acidente, mas sim fruto da inoperância do Estado.



Para Mario Rodrigues da Cunha, que foi coordenador da descontaminação de Goiânia, “o governador Henrique Santillo era médico e sabia muito bem o que estava fazendo”. Ele lembra que o Estado de Goiânia é pecuário e agrícola, ou seja, ninguém podia saber que tinha tido um acidente radiológico, ou o Estado enfrentaria sérios problemas econômicos. “O governador usou a matemática e resolveu o problema”, afirma Cunha, que considera os funcionários contratados como “soldados de guerra”.



Pesquisa


Uma das maiores inconformidades dos envolvidos no acidente, no entanto, é com a falta de interesse do governo em apurar a sua real abrangência, até hoje. Ferreira conta que, diante dessa inércia, Sueli Lina da Silva, uma moradora da região, tomou a iniciativa de fazer uma pesquisa para descobrir os efeitos do acidente entre os moradores da região. Por essa pesquisa, até agora, em 114 famílias foram encontrados 56 casos de câncer, o que por si só mostra que o estrago foi muito maior do que as estatísticas oficiais indicam.



Para o promotor, é necessário que o governo dê mais atenção a esse caso, especialmente na área da ciência. Afinal, mesmo dados tidos como certos já estão sendo contestados, como o prazo de 15 anos para a fase de latência (período que demora para aparecerem os piores sintomas) do câncer em radioacidentados – já existe gente falando em 30 anos. O mesmo com o fato de serem as conseqüências transmitidas até a segunda geração, já que, segundo o promotor, já existe instituição falando na possibilidade de se transmitir até a quinta. Ou seja, a questão precisa ser estuda com atenção.



Uma lição não aprendida


“Ninguém jamais pode esquecer o acidente de Goiânia. Afinal o material está por aí, espalhado pelo país inteiro, sem nenhum cuidado”, afirma Odesson Ferreira.



Essa também é uma das preocupações centrais do promotor Alves: o fato do Brasil não ter aprendido com a lição. Para ele, um dos maiores problemas à época foi a falta de estrutura da CNEN (Comissão Nacional de Energia Nuclear) para lidar com a situação. E, segundo ele, desde 1987 não houve nenhum treinamento para se aprender a lidar com situações como essas. Assim, “hoje, se acontece uma coisa dessas, é capaz de ser até pior”, afirma, já que se trabalha com muito mais substâncias, do que à época.



Demanda


“Nós fomos lá para resolver o problema do nosso Estado e resolvemos. O Estado criou um problema para os seus funcionários e não resolveu. Queremos justiça”, afirma Mario da Cunha. Segundo o promotor Alves, praticamente tudo está por fazer no caso dessas vítimas, e, como a via política é a melhor opção, a pressão popular é muito importante.



Nesse sentido, a participação do FOCAR no V Fórum Social Mundial tem justamente o objetivo de “trazer aos olhos do mundo a triste lição de Goiânia, denunciar a absurda inércia do governo durante esses 18 anos e conclamar a todos os cidadãos e instituições aqui representadas para que reforcem a luta em prol das vítimas, a fim de que elas sejam finalmente assumidas e tratadas com justiça e dignidade” (Carta de Goiânia pela Saúde e Cidadania).







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