Terça-Feira, 25 de Julho

 

09/05/2006 00:00 - Copyleft

“SP tem que voltar a ser a locomotiva do país”, diz Mercadante


Bia Barbosa – Carta Maior

SÃO PAULO – Se os tucanos esperavam um clima delicado em função das prévias do Partido dos Trabalhadores para a escolha da candidatura do partido ao governo de São Paulo, se decepcionaram. O clima que tomou conta da sala Lisboa do Hotel Paulista, no Paraíso, na tarde desta segunda-feira (8), era de unidade pra derrotar o maior adversário pela frente: o PSDB. De deputados federais como Professor Luizinho e Luiz Eduardo Greenhalgh a prefeitos e vereadores que vieram do interior, o PT de São Paulo aplaudiu de pé Marta Suplicy e Aloísio Mercadante durante o anúncio do resultado das eleições internas do partido. Dos 67.496 filiados que votaram (pouco mais de 35% dos aptos) no processo, 52,8% escolheram o senador para liderar a disputa que terá como desafio quebrar 12 anos de tucanato no estado mais rico da federação.

“Conseguimos passar por essas prévias com uma tranqüilidade muito diferente da que a oposição desejava. E terminamos este processo mais unidos do que nunca, sem fissuras ou rachaduras. Espero que a militância que confia em mim agora passe a confiar em você, Aloísio”, disse Marta ao ex-concorrente. “Temos condições de vencer Serra e o que acumulamos de bagagem na prefeitura de São Paulo, nossos quadros e nossa política, todos estão à disposição para ingressar nas fileiras da campanha do Mercadante, porque ela passa a ser nossa a partir de agora. Esperamos que o bilhete metropolitano e os CEUs, que são marca da bandeira petista exitosa na capital, e que Serra abandonou, possam continuar a ser defendidas”, declarou a ex-prefeita.

A gentileza de Marta foi respondida com elogios por Mercadante: “Com o resultado dessas prévias, fica transparente a qualidade do governo que você dirigiu, Marta. Em cada bairro está a presença e a marca deste governo. Bilhete único deixa saudade, o Renda Mínima, os CEUs... Afirmo que defenderei com garra essas conquistas todas. Não só pela capital, mas porque este é um caminho sólido e consistente de política pública para o Estado”, disse o senador, introduzindo seu discurso, em que adiantou os principais pontos do programa da sua candidatura para o governo do estado.

Segundo Mercadante, São Paulo deve voltar a ser a locomotiva do país. Ele culpou o PSDB pelo fato de, mesmo com um terço do PIB do país e com uma importante base industrial, São Paulo ter crescido somente 18% entre 1996 e 2003, enquanto os outros estados cresceram 67%. Tal resultado prejudicaria o emprego e o desenvolvimento não somente o estado, mas também de todo o país.

“Temos que desenvolver uma política de crescimento sustentável para São Paulo. Uma política de fomento e estímulo ao desenvolvimento econômico. Recuperar o dinamismo na indústria e na agricultura e liderar investimentos nos serviços, articulando as diferentes cadeias produtivas”, desenhou Mercadante.

Outro caminho proposto pelo senador é articular políticas públicas consistentes. A primeira delas, na área de educação. O PT propõe um “choque de qualidade na educação pública”, para reverter um quadro descrito como de deteorização do ensino, de mau pagamento do professores e de falência do programa de educação continuada. Lembrando os dados do SAEB (Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica), divulgados pelo MEC, Mercadante disse que “há escolas com cinco turnos sem nenhuma segurança de que vão formar alunos com qualidade para o futuro. Não é possível que 30% dos alunos do ensino fundamental terminem o curso sem saber ler”. E já assumiu um compromisso: “como disse Michael Bloomberg, quando assumiu a prefeitura de Nova York, quero terminar meu governo sendo avaliado a partir da avaliação dos meus alunos”.

Para a saúde, o compromisso foi com as políticas de prevenção e de fortalecimento do Programa Saúde da Família e com a concretização em definitivo da implantação do Sistema Único de Saúde (SUS). “Não podemos comprometer 40% do orçamento com 16 hospitais, que são os mais novos, de boa qualidade, mas que na verdade são OSs (organizações sociais), que escolhem o perfil de quem atendem, enquanto o restante da rede permanece sem condições e a população continua totalmente abandonada, para o governo ter vitrines para mostrar”, disparou.

O candidato petista também declarou que a cultura não será subproduto das políticas de governo, prometendo uma descentralização dos recursos – na linha do programa Pontos de Cultura, tocado pelo ministro Gilberto Gil em âmbito nacional – e investimentos na música popular da periferia – leia-se o hip hop, o pagode e o samba.

Mercadante afirmou ainda que não vai permitir a privatização da Ceterp e que, em seu governo, a Nossa Caixa será “mais pública do que nunca”. “Além disso, precisamos de um novo regime previdenciário para os profissionais de São Paulo. Temos R$ 12 bilhões de despesas e R$ 2 bilhões de receita; um déficit de R$ 10 bilhões que nos impede de investir em projetos estruturantes. Temos que fazer isso para concluir o trecho sul do Rodoanel, que não sabemos porque ainda não está pronto, pra investir no Ferroanel, na duplicação da Imigrantes... Isso é essencial para sustentar o crescimento econômico que queremos para o estado”.

SOCIEDADE DO MEDO
Calcanhar de Aquiles da gestão tucana – apesar dos pesados investimentos na construção de penitenciárias –, a política de segurança pública será fortemente explorada pelos petistas. Imagens e números do avanço do crime organizado e da baixa eficiência da linha repressora intensificada no anos de governo Alckmin devem ocupar grande espaço na campanha de Mercadante. Uma das soluções para o que ele descreveu como a “sociedade do medo” é fazer “como foi feito no governo Lula”.

“No último ano do governo Fernando Henrique, a Polícia Federal prendeu 54 pessoas. Nos três anos de governo Lula foram 2960 pessoas. Fizemos isso no Brasil e vamos fazer isso em São Paulo, investindo numa polícia mais eficiente, com estímulo e capacitação e investimento na inteligência”, disse. “Não é possível que um estado que tem 35 mil homens na Polícia Civil e 96 mil na Polícia Militar pague o segundo pior salário para os delegados da polícia civil”, criticou.

O senador também foi duro com os tucanos no caso Febem. Anunciou que, em seu governo, a instituição deixará de existir como tal, seguindo o exemplo corajoso do Rio Grande do Sul, que encontrou outra forma de lidar com os adolescentes em conflito com a lei. A aposta será nos programa de ressocialização e liberdade assistida, construídos em parceria com os municípios.

“A Febem não pode e não vai continuar sendo o que sempre foi no governo do PSDB. Com um gasto de meio bilhão de reais, 22 mil por jovem, não podemos continuar vendo o PCC controlando as unidades e as rebeliões constantes. É só andar nas ruas pra ver que todas as mães têm o coração apertado por verem seus filhos entregues à Febem pela Justiça. Acredito que nossos adolescentes podem e devem ser ressocializados”, discursou.

E lembrou da época em que era companheiro de congresso do também então deputado federal Geraldo Alckmin. “Eu apresentei um projeto de lei que previa a responsabilização dos adultos no caso de quadrilhas que envolvessem jovens. Já o Alckmin propôs a redução da maioridade penal. É esse o caminho? Não é fazendo a demagogia do PSDB, terminando com o Carandiru, mas transferindo o problema pro complexo de Hortolândia, que é o “Carandiru caipira”, onde estão 7600 presos, que vamos resolver o problema. Interiorizamos o crime organizado mas não interiorizamos as políticas de segurança”, alfinetou.

Aos prefeitos que vieram de longe para acompanhar o anúncio da sua candidatura e para aqueles que reclamaram durante as prévias do “abandono da gestão Alckmin”, Mercadante prometeu regionalizar o programa de governo, pra que o interior não receba “só pedágio e presídios e sim políticas de desenvolvimento”.

CAMPANHA FEDERALIZADA
Uma das estratégias do PT para as eleições do Palácio dos Bandeirantes será colar a campanha de Aloísio Mercadante à de Lula. Além da política ampla de alianças já aprovada nacionalmente pelo partido em seu último encontro nacional, o PT paulista tentará “casar” o programa estadual com a pauta federal, esperando, com isso, colher os louros do governo Lula.

“A ausência de rejeição ao Aloísio dá chance para sua candidatura crescer rápido. Além disso, ele é alguém identificado profundamente com o governo Lula, uma credencial que, neste momento, nenhum outro candidato teria”, analisa o deputado federal José Eduardo Cardozo. “Dificilmente escaparemos da federalização das eleições em São Paulo. Afinal, Serra disputou com Lula e Mercadante era líder do governo. Se a disputa fosse com a Marta, poderia haver um "terceiro turno" das eleições municipais, com algum caráter mais regional. Mas a candidatura do Aloísio joga a eleição de São Paulo para um âmbito mais nacional”, acredita.

O presidente do diretório estadual do PT, Paulo Frateschi, aposta no confronto de números para mostrar o que o governo Lula fez. “Em pouco tempo vamos ganhar o eleitorado que vota em Lula e começar a dialogar com um outro campo, com um perfil de eleitor mais propenso a votar no Serra, mas que pode votar no Mercadante. Em comparação com a candidatura de Marta, isso é vantajoso pra nós. Além disso, o Aloísio está mais solto, então tem que jogar pra crescer. Se formos pra disputa, quem sai ganhando é ele”, disse. “Sabemos que o cenário é difícil, temos uma luta dura pela frente. Serra tem uma base forte aqui, é um grande adversário. Será uma campanha de igual pra igual, mas temos condições de ganhar”, confia Frateschi.




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