Segunda-Feira, 01 de Setembro

 

27/02/2011 - Copyleft

A Folha e o neocolonialismo petroleiro


Beto Almeida
Beto Almeida

Com o título de “TV Companheira”, o jornal Folha de São Paulo – que tem o nome marcado por ter defendido e colaborado com operações da ditadura em torturas e mortes de prisioneiros políticos - publicou artigo de Eliane Cantanhede tentando atingir, sem o lograr, a credibilidade jornalística da Telesur, "La nueva televisión del sur", em seu esforço de cobrir a crise na Líbia.

Há muitas lições a partir da precária nota da jornalista. Primeiramente, está escancarado que a grande mídia comercial brasileira, seguindo orientações dos conglomerados internacionais midiáticos, editorialmente controlados pelas indústrias bélicas, petroleiras e a ditadura financeira, sempre protegeram os ditadores do Oriente Médio que serviram e ainda servem a estes interesses. A Folha de São Paulo está dentro deste leque de proteção aos “ditadores amigos”. Assim é que durante mais de 30 anos protegeu Mubarak, tratando-o como o árabe moderado, porque transformou o Egito em cúmplice do massacre do povo palestino por Israel, com o apoio de Washington.

Durante 30 anos a Folha de São Paulo jamais cobrou eleições diretas ou democracia no Egito, mas, revelando a imensa hipocrisia da sua linha editorial de dois pesos, duas medidas, engajou-se na campanha dos oligopólios midiáticos mundiais contra o governo da Venezuela que, em 12 anos, eleito pelo voto, realizou mais de 15 eleições, plebiscitos e referendos livres, vencendo 14 deles e respeitando democraticamente o único resultado eleitoral adverso registrado.

“Ditaduras amigas” foram protegidas
A reportagem de Telesur está sim na Líbia, como esteve no Egito e na Tunísia, para oferecer uma cobertura com linha editorial diferenciada, sem qualquer influência do poder petroleiro comandado pelos países imperialistas. Telesur não descobriu somente agora que Mubarak era um ditador e que saqueou recursos do povo egípcio, bem como seu comparsa Ben Ali, tunisino, sempre protegidos pelos grandes países imperiais como EUA, França, Inglaterra etc., por se transformarem em peões da política que facilita a intervenção militar imperialista no mundo árabe, com o óbvio objetivo de rapina sobre suas imensas riquezas energéticas, da qual são tão dependentes.

A linha editorial que protegia Mubarak, era a mesma que sempre condenou Kadafi. Não supreende. Kadafi nacionalizou a riqueza petroleira da Líbia e usou esta extraordinária receita para transformar o país , hoje possuidor do mais elevado IDH da África e dos mais elevados no mundo árabe. Este exemplo se chocava com os interesses imperialistas. Preferiam que Kadafi fosse como a oligarquia que reina sobre a Arábia Saudita, a mais maquiavélica das ditaduras da região, sob a proteção da mídia comercial internacional, inclusive a Folha de São Paulo. E sem uma linha sequer da articulista que esboce qualquer reivindicação democrática para este país, cujo petróleo é rigorosamente controlado por empresas dos EUA. Portanto, rigorosamente diferente da Líbia, onde o petróleo foi estatizado permitindo uma elevação do padrão de vida do povo, com progressos reconhecidos internacionalmente nos serviços públicos e gratuitos de educação e saúde, com uma renda per capta e um salário mínimo que superam em muito os registrados no Brasil e na Argentina. Estas informações nunca circularam nem no fluxo internacional da mídia comandada pelos poderes do petróleo, das armas ou do dinheiro, muito menos aqui na submissa Folha de São Paulo.

Ao contrário desta linha editorial complacente com os crimes que se comentem contra os povos árabes, em particular contra o povo palestino, Telesur , em sua curta existência, pouco mais de 5 anos de vida, procura revelar, com critérios jornalísticos, a falsidade e hipocrisia dos discursos “democráticos” que servem sempre de parâmetros para as coberturas que tentam esconder sob o palavreado democrático, o objetivo fundamental que esta mídia cumpre: dar suporte e favorecer o controle total das riquezas energéticas do Oriente Médio pelos trustes imperialistas.

É por esta razão que a Folha de São Paulo tenta, inutilmente, atacar a Telesur, porque questiona e se diferencia do jornalismo obediente ao poder bélico-petroleiro que tantas vidas ceifa na região, inclusive na própria Líbia, tantas vezes bombardeada, agredida e boicotada pelos países membros da Otan. É a subserviência a esta política imperial que leva a Folha e sua articulista a afrontarem as políticas externas soberanas que os países do eixo sul-sul estão desenhando, com o objetivo de libertarem-se das algemas da OTAN, inclusive postulando a criação de uma Organização do Tratado do Atlântico Sul, proposta defendida por vários países sistematicamente enfrentados pela linha editorial da Folha, inclusive por Kadafi, certamente, uma das tantas razões que o leva a ter sido sempre condenado pelos imperialistas, pela ONU, pela OTAN. Vale lembrar que Kadafi teve sua residência destruída por um bombardeio ordenado por Bill Clinton, no qual morreu sua filha recém-nascida. A articulista escreveu algum protesto na época? Ou lamentou que a pontaria poderia ter sido mais certeira?

Hipocrisia editorial
Mubarai foi protegido e elogiado por este jornalismo tipo Folha de São Paulo - que, aliás, não chamava Pinochet de ditador, mas de presidente - porque comandou o retrocesso das conquistas socioeconômicas que o Egito havia alcançado durante a Era Nasser. Tal como aqui a Folha serve aos interesses estrangeiros e de seus prepostos internos que operaram para demolir as conquistas da Era Vargas; o elogio e a tolerância para com a ditadura de Mubarak deve-se ao fato dele desconstruir o nacionalismo revolucionário de Nasser, aliado da Líbia e da Síria, colocando o Egito na posição de ser um vergonhoso coadjuvante da macabra política israelense na região, a serviço da indústria petroleira imperial. Mas, os milhões de egípcios nas praças estão escrevendo outra história para aquele país!

Telesur conta esta história. Faz jornalismo para revelar o direito histórico da luta dos povos árabes por sua independência, por sua soberania. É por isso que incomoda tanto. É por isso que agressão da Folha não surpreende, faz parte da blitz midiática internacional que sustenta o intervencionismo militar dos grandes países imperialistas. Esta mídia atua como os clarins que anunciam e clamam pela guerra!

Independente do desfecho que esta crise na Líbia produzirá, a esta altura imprevisível, não há como não perceber a imensa hipocrisia jornalística dos que se calam diante dos sanguinários bombardeios que estão caindo agora mesmo sobre a população civil no Afeganistão, ilegalmente ocupado pelos EUA, ou no Iraque, onde mais de um milhão de vidas foram dizimadas a partir de uma guerra iniciada por meio de grosseiras falsificações de notícias sobre a existência de armas químicas naquele país, fraude jornalística que a Folha de São Paulo endossou, o que lhe retira qualquer moral, juntamente à assessoria que prestou à ditadura militar no Brasil, para reivindicar democracia ou clamar por direitos humanos.

Colônia petroleira
Provavelmente, a crise atual na Líbia tenha também explicação pelos erros cometidos pelo seu governo, entre eles, provavelmente o mais grave, o de ter realizado inesperados e improdutivos acordos com os EUA, com a Inglaterra, com o FMI, inclusive dando início a medidas de privatização injustificáveis e abrindo mão, unilateralmente, do programa de energia nuclear, bobagem que o Irã e o Brasil, mesmo sob pressão, indicam não estarem dispostos a cometer. As concessões de Kadafi aos patrocinadores da morte e de opressão contra os povos iraquiano, afegão, palestino, entre eles Bush e Blair, aprofundou, certamente, os conflitos internos, agravando as disputas tribais, facilitando a infiltração dos que nunca aceitaram a nacionalização do petróleo líbio. Agora, a Folha de São Paulo, que se crê tão moderna, apresenta-se aliada aos que levantam novamente a bandeira da Líbia do Rei Idris, demonstrando preferir operar para o retrocesso histórico da república à monarquia, o que faria da Líbia uma colônia petroleira controlada pelos conglomerados anglo-saxões.

Enquanto as grandes redes oligopólicas de tvs comerciais operam para justificar, auxiliar e assessorar a pilhagem dos recursos energéticos dos povos, - por isso assumiram editorialmente as mentiras que justificaram a guerra de rapina contra o Iraque - Telesur coloca seu jornalismo a serviço do direito dos povos de conhecerem na íntegra a versão objetiva dos fatos, inclusive dando voz aos povos que lutam, que buscam construir modelos de sociedade em que a soberania sobre seus recursos e o seu uso em benefício da população sejam sagrados. Telesur tem consciência de quão árdua é a meta de fazer um jornalismo não controlado pelos oligopólios da guerra, do dinheiro e do petróleo. Mas, desta meta não se afastará, pois foi como expressão dos povos que se rebelam na América Latina contra a dominação imperial que nasceu e que assumiu como bandeira o princípio “ O nosso Norte, é o Sul”

(*) Beto Almeida é membro da Junta Diretiva da Telesur





luiz pinheiro - 28/02/2011
Bom, se a Eliane Cantanhede batiza a Telesur de "TV Companheira", então, por lógica similar, podemos intitular seu espaço na Folha de "Coluna da Madame". Quanto à crise na Líbia, recomendo a leitura do artigo "Do mundo árabe à América Latina", de Santiago Alba Rico e Alma Allende, publicado no Rebelión, e que acabo de ler na revistaforum.com.br. Seleciono e enxugo alguns trechos: "A América Latina progressista, esperança do antiimperialismo mundial, deveria apoiar o mundo árabe, se adiantando às potências ocidentais, às quais Kadafi está dando a oportunidade de um retorno.... Se a AL se alinhar com o tirano, os contagiantes avanços populares estarão detidos, produzirá uma nova fratura no campo antiimperialista que os EUA, relojoeiros do mundo, aproveitarão... Os povos árabes, que voltam à cena da história, necessitam o apoio de seus irmãos latino-americanos, mas é a revolução mundial que não pode se permitir uma vacilação por parte de Cuba e Venezuela... Podemos alegar que pouco sabemos sobre o que ocorre na Líbia e suspeitar das sentenças ocidentais, midiáticas e institucionais, dos últimos dias. Os imperialistas são mais inteligentes, defenderam seus ditadores até o fim, mas quando compreenderam que eram insustentáveis, os deixaram cair e escolheram outra estratégia: apoiar processos democráticos controlados, cientes de que a memória é curta e os reflexos da esquerda bastante imediatos... Devemos nos opor a qualquer intervenção ocidental, mas não creio que a OTAN vai invadir a Líbia: esta ameaça, apenas apontada, tem efeito de pulverizar e espalhar o campo antiimperialista, até um ponto em que nos façam esquecer quem é Kadafi, o que pode produzir três efeitos terríveis: romper os laços com os movimentos populares árabes, legitimar as acusações contra Venezuela e Cuba e ¿represtigiar¿ o discurso democrático imperialista... Kadafi tem sido, durante os últimos dez anos, um grande amigo da UE e dos EUA e seus ditadores aliados na região. Basta recordar as incendiárias declarações de apoio do ¿Calígula¿ líbio ao deposto Ben Ali, às milícias do qual Kadafi muito provavelmente proporcionou armas e dinheiro nos dias posteriores a 14 de janeiro. Basta recordar a colaboração de Kadafi com os EUA no âmbito da chamada ¿guerra antiterrorista¿, os estreitos vínculos econômicos com a UE, a entrada das grandes companhias ocidentais na Líbia (a espanhola Repsol, a britânica British Petroleum, a francesa Total, a italiana ENI ou a austríaca OM)... A França e os EUA não deixaram de proporcionar armas à Líbia para que agora mate até em ataques aéreos seu próprio povo. Em 2008 a ex-Secretária de Estado, Condoleeza Rice, deixou isto muito claro: ¿Líbia e Estados Unidos partilham interesses permanentes: a cooperação na luta contra o terrorismo, o comércio, a proliferação nuclear, África, os direitos humanos e a democracia¿.


luiz pinheiro - 28/02/2011
Desculpem, esqueci de incluir a importante conclusão do artigo do Rebelion: "É um criminoso, além de ser um estorvo. Por favor, companheiros revolucionários da América Latina, os companheiros revolucionários do mundo árabe estão pedindo para que não o apóiem".


beto - 28/02/2011
Prezado Henrique, agradecendo pela leitura, informo que caso voce more em Brasília ou no Rio de Janeiro, as TVs Comunitárias das respectivas cidades exibem programação ao Telesur em determinados horários. Em Brasília, principalmente após às 21 horas, no Canal 8 da Net, TV Cidade Livre. Pel internet, a forma de sintonia é www.telesurtv.net Muito grato, beto


Adriano - 28/02/2011
Concordo em parte, ninguém é santo quando se trata de estratégia geopolítica, (nem esquerda nem direita). É justa a indignação contra os abusos cometidos contra a população palestina, mas se é para falar de direitos humanos a oprEssão exercida contra as minorias dentro do irã não pode ser ignorada. Afinal, ainda que o irã esteja sob alegado ataque impiperialista, é muito constrangedor insistir em apoiar um chefe de estado que afirmou nunca ter existido o holocausto. advogo que para que o sionismo dentro do estado de israel seja colocado em xeque e deixe de existir é fundamental que as lideranças iranianas que pregam a destruição total de Israel sejam destituidas do poder. Se isso acontecer os conservadores israelenses perderão a principal desculpa para legitimar sua influência na população israelense. E a principal consequência será a diminuição da pressão sobre os palestinos que é oprimida por israel e sofre a tentativa de manipulação por parte do regime de Ahmadinejad.


Henrique - 28/02/2011
Não é comentario sobre o texto, apeas uma pergunta. Se alguem puder esponder agradeco. Como faço para sintonizar a Telesur?


Eduardo Oliveira - 27/02/2011
O Kadhafi está assassinando seu próprio povo.


@waasantista - 27/02/2011
Foi na veia, Beto Almeida. Isso aí! http://macucoblog.blogspot.com


Luis Diego de C. Gutiérrez - 27/02/2011
Com admirável clareza e lucidez mais uma vez traz ao público brasileiro uma brilhante análise. Parabéns Beto Almeida. A Telesur é uma luz no reino da comunicação. Hasta siempre!


Ruy Mauricio de Lima e Silva Neto - 27/02/2011
Prezado Beto, você disse tudo. A gênese deste peculiar comportamento desta sub-imprensa dos Kamelos, Mervans e Catanhedes, como se integra neste esquema de desinformação e comportamentos oscilantes ao sabor do posicionamento do povo, para a rapinagem petro-financeira prosseguir pelo "Ocidente" e de preferência pelo "Oriente" também. Só gostaria de relembrar, no caso desta notória jornalista de olfato,como sabemos, ultra-seletivo que, no caso dela, o problema deve ser de DNA.Se você consultar o brilhante livro de Gondim da Fonseca ("O que sabe você sobre Petróleo"), que acredito ainda está muito atual, você vai ver referência a um certo Álvaro Catanhede, figura muito em evidência nos tempos de Juscelino (sendo o primeiro "um operoso entreguista", segundo o autor) que tem toda a pinta de ser um de seus gloriosos ascendentes. E si non è vero, è bene trovato.(Mas deve ser vero)


Francisco Hollanda - 27/02/2011
Quero me solidarizar com a Telesur diante ataque da folha(a defensora da ditabranda no Brasil). Beto parabéns pelo texto. "Um outro mundo começa surgir no oriente médio e na África", para desespero dos EUA e do PIG. Um abraço Francisco Hollanda


matinta - 27/02/2011
Sem dúvida a hipocrisia é gritante. E Eliane Castanhede, já conhecemos, é impossível levar a sério: é claramente irresponsável e vendida. É só lembrar-nos do caso gravíssimo da Febre Amarela. Porém, acho que o bombardeio que atingiu a casa de Kadafi, matou sim uma filha sua, adotiva, foi ordenado por Ronald Reagan, em 1986, a Tripoli e Bengasi, matando vários civis.


Walter - 27/02/2011
Caro Sr. Almeida Até que enfim alguém mostra o tamanho da hipocrisia da nosa (sera?) "grande" mídia (com g minúsculo mesmo). Brilhante. Parabéns para a Telesur e para jornalistas como Beto Almeida. Longa vida e crescimento para a Telesur.


Beto Almeida - 23/03/2011
Prezado Werner, primeiramente, grato pela leitura. Realmente, temos barreiras ainda a transpor para permitir que a programação da Telesur chegue ao grande público brasileiro. São, sobretudo, barreiras políticas. Durante anos a TV Paraná Educativa, sob o governo Requião, transmitiu o noticiário da Telesur em português, diariamente. Mas, com a chegada ao governo de forças conservadoras, o programa foi retirado do ar. Agora, apenas as tvs comunitárias de Brasília, Rio de Janeiro, Recife e Florianópolis , transmitem determinados horários da programação da Telesur. Creio que uma campanha pública ajudaria muitíssimo para encorajar a TV Brasil - que possui convênio de cooperação com a Telesur - aproveitasse parte de nossa programação, até para uma mais ampla informação sobre o processo de integração da América Latina e para que se conheça um novo modo de fazer televisão, tendo com ângulo, as causas históricas dos povos do Sul.


Marcelo Ramos - 02/03/2011
Parabéns pelo artigo. De vez em quando vejo a Telesur.


Darcio Argento - 02/03/2011
Com relação a cobertura da Folha e da Telesur nenhuma palavra, perfeito, é isso mesmo. Mas tratar Kadafi desta forma é muiot romântico. O problema é que o povo líbio terá q escolher entre o rui e o pior. O ruim é Kadafi, o pior é a entrada das tropas imperialistas o saque do petróleo tipo Iraque e o genocídio que as tropas da OTAN vão, inevitavelmente, cometer


Rogelio Nogueira Salgado - 02/03/2011
Defender alguem neste embate é defender a podridão. Afolhs é velha conhecida nossa pelas suas conspirações, agora contrapor com defesa de Ditador, facínora e corrupto é defesa de quinhão. Este artigo é defesa de território midiático e chega a ser audacioso. Kadafi assumidamente derrubou um avião cheio de civis, trata o povo na ponta do chicote e não ha espaço na Libia para o contraditório. É isso que vc está defendendo?


Werner Piana - 02/03/2011
Excelente artigo, Beto. Agora, como fazer para assistir à TELESUR nas operadoras de tv a cabo e satelite? Só pela internet é muito limitado... abs


Henrique - 01/03/2011
Opa, obrigado pela resposta. No meu caso só pela Internet então. grato

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