Segunda-Feira, 26 de Junho

 

19/06/2017 11:17 - Copyleft

Organizar base social fragmentada é desafio de socialistas no século XXI

Último de seis encontros que debateram o legado da Revolução Russa em Porto Alegre apontou necessidades para retomar projeto de justiça e igualdade social


Naira Hofmeister
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O avanço tecnológico e as mudanças impostas pela lógica contemporânea nas relações de trabalho reduziram a centralidade e a importância da classe operária a ponto de ela ter se tornado residual e “incapaz de propor uma pauta agregadora ao conjunto da sociedade” – fato que dificulta a tarefa de reorganizar as bases para uma reação categórica anticapitalista.
 
As aspas são do ex-ministro (da Educação, Relações Institucionais e da Justiça) Tarso Genro, mas o diagnóstico foi compartilhado pelo também ex-ministro (esse da Ciência e Tecnologia) Roberto Amaral e pelo presidente da Fundação Mauricio, palestrantes no último dos seis encontros que debateram o legado da Revolução Russa no ano de seu centenário, em Porto Alegre.
 
O tema proposto à mesa foi “A luta pelo socialismo no século XXI” e, assim como nas reuniões anteriores, permitiu uma elucidativa combinação entre análise teórica e crítica histórica para traçar cenários de retomada de um projeto social justo e igualitário.
 
De um lado, fracassos e êxitos da experiência soviética; de outro, a própria realidade contemporânea – brasileira e internacional – tudo colocado sob a luz de Marx, Trotski, Lênin e Gramsci, que foi o mais citado da noite.
 
Seu conceito de “hegemonia” foi trazido ao debate para demonstrar a necessidade de rearticular a base social desagregada pelo mercado moderno. Embora todos tenham mencionado o pensador, coube à mediadora da noite – a cientista política Céli Pinto – explicar seu significado: “É a adesão voluntária à uma ideia, ideologia ou proposta política, que só pode acontecer no nível da sociedade – não no de estado, que tem o monopólio da violência física e não precisa de adesão voluntária”.
 
Tarso Genro expôs de maneira didática a dificuldade de construção dessa hegemonia: “Uma fábrica onde 50 mil empregados estavam reunidos foi substituída por um conjunto de empresas terceirizadas. O mundo assalariado deixou se ser a praça pública e a nova forma de identidade social se dá pelo consumo. Os oprimidos vivem no mundo da fragmentação total e o capital pauta os novos hábitos e modos de vida”, exemplificou Tarso Genro.
 
Essa nova hegemonia, além de ser capaz de se “espraiar” independentemente da organização do trabalho e da inevitável substituição da mão-de-obra humana pela máquina, precisa ser construída com bases democráticas e valores liberais-burgueses, na opinião de Roberto Amaral: “Um socialismo do século XXI seria radicalmente democrático, incorporaria valores liberais-burgueses, invariavelmente ambientalista, pluralista e multipartidário”.
 
Esquerda deve abraçar nacionalismo
 
Outro fator importante na construção do socialismo do século XXI, na opinião dos palestrantes, é que a esquerda deve voltar sua atenção para a defesa do “nacional”, absorvendo essa pauta que tem sido apresentada à sociedade unicamente pela direita ultraconservadora – e tem sido vitoriosa, como demonstram a recente eleição de Donald Trump nos Estados Unidos e a decisão de saída da Inglaterra da União Europeia no Brexit.
 
“A direita se dirige hoje aos trabalhadores tradicionais, antes ignorados pelo liberalismo. Por outro lado, o capitalismo assume sua contradição ao dividir-se entre os ultraliberais que pregam a desregulamentação dos mercados e os ultranacionalistas xenófobos, criticados mesmo entre a direita”, observou Renato Rabelo.
 
Esse fenômeno é especialmente impactante na Europa, onde, após o colapso da União Soviética, pouco a pouco os partidos comunistas europeus foram “sumindo”, enquanto as siglas de orientação socialista aderiram ao pragmatismo, segundo Roberto Amaral: “O eleitorado popular se afasta da esquerda, que deixa de ser identificada como uma saída libertária, e namora com o populismo de direita, que toma a bandeira da nação para si”, lamentou.
 
O dado de que nos bairros operários de Paris, mencionou Rabelo, a candidata ultraconservadora da Frente Nacional Marine Le Pen fez 74% dos votos na eleição presidencial parece corroborar essa tese.
 
A França também é exemplo de um fenômeno definido por Tarso Genro como “a internacionalização do comando do grande capital, que tornou supérfluos seus partidos internos”: o presidente recém-empossado, Emannuel Macron, seria um produto desse experimento ao vencer a eleição francesa com uma sigla fundada apenas um ano antes e cuja coligação conquistou maioria absoluta no parlamento.
 
“Os think thanks, a mídia e as agências de risco de capital formam hoje um grande partido orgânico de cooperação internacional. Isso aponta para a necessidade da luta internacional e da solidariedade regional entre as esquerdas”, concluiu Tarso.
 
No Brasil e na América Latina, onde o principal expoente dessa corrente nacionalista de direita é o presidente argentino Mauricio Macri, a bandeira do nacionalismo deve trazer consigo as ideias de soberania e combate à desigualdade, contrapondo-se à oligarquia financeira interna e ao domínio do grande capital financeiro, qualificado por Rabelo como “neocolonialismo”:
 
“Não podemos nos perder em particularismos. Os valores das minorias são importantes e compõe, mas há uma questão maior, que é o nacional, que deve se sobrepor”, concluiu.



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