Quarta-Feira, 30 de Julho

 

10/05/2012 - Copyleft

Os encontros entre Policarpo, da Veja, e os homens de Cachoeira


Vinicius Mansur
Vinicius Mansur

Brasília - Um levantamento do inquérito 3430, resultado da Operação Monte Carlo, da Polícia Federal (PF), indica que o editor da revista Veja em Brasília, Policarpo Júnior, e a quadrilha do contraventor Carlinhos Cachoeira se encontraram presencialmente, pelo menos, 10 vezes. Só com Cachoeira foram 4 encontros.

O número pode ser maior, uma vez que a reportagem de Carta Maior teve acesso apenas ao apenso 1 do inquérito, com 7 volumes. Entretanto, existem mais dois apensos que, juntos, tem 8 volumes.

O primeiro destes encontros foi marcado para o dia 10 março de 2011. Em ligação telefônica no dia 9 daquele mês, às 22:59, Cachoeira diz ao senador Demóstenes Torres (então do DEM, hoje sem partido):

“É o seguinte: eu vou lá no Policarpo amanhã, que ele me ligou de novo, aí na hora que eu chegar eu te procuro.”

No dia 27 de abril, Cachoeira anunciou ao diretor da construtora Delta no Centro-Oeste, Cláudio Abreu, outro encontro com o jornalista. Sobre a ligação, interceptada às 07:19, o inquérito da PF relata:

“Carlinhos diz que vai almoçar com a prefeita de Valparaíso e com Policarpo da revista Veja”.

Às 09:02, o contraventor avisa a Demóstenes do almoço com Policarpo:

“Eu vou almoçar com o Policarpo aí. Se terminar o almoço e você estiver lá no apartamento eu passo lá.”

O senador respondeu:

“Ok... o Policarpo me ligou, tava procurando um trem aí. Queria que eu olhasse pra ele algumas coisas. Pediu até pra eu ligar para ele mais tarde, não quis falar pelo telefone”.

Nesta mesma conversa, Demóstenes pediu conselhos a Cachoeira sobre sua mudança de partido. Cachoeira afirmou que “esse DEM já naufragou” e disse:

“Tem que ir pro PMDB, até pra virar do STF né?”

O terceiro encontro: o alvo é Zé Dirceu, não a Delta

A partir do dia 7 de maio de 2011, aparecem conversas da quadrilha de Cachoeira sobre a reportagem “O segredo do sucesso”, assinada por Hugo Marques e publicada pela revista Veja na edição 2216, daquele mesmo fim de semana. A matéria relaciona o crescimento da empresa Delta com os serviços de consultoria de José Dirceu.

Em ligação do dia 8 de maio, às 19:58, Cachoeira diz a Cláudio Abreu que Demóstenes vai trabalhar nos bastidores do Senado para abafar a reportagem.

No dia 9, às 23:07, Cláudio pergunta ao bicheiro se ele irá “no almoço com aquele Policarpo” no dia seguinte. Cachoeira responde:

“Ah o Policarpo eu encontro com ele em vinte minutos lá no prédio, é rapidinho”.

No dia 10, às 14:43, Cachoeira conversa com Cláudio. O resumo da ligação feito pela PF diz: ”Carlinhos conta a Cláudio sobre a conversa que teve com Policarpo, da Veja, a respeito da reportagem que saiu na revista no último final de semana”.

Em outra ligação, no dia 11, às 09:59, Idalberto Matias de Araujo, o Dadá, tido pela PF como braço direito de Cachoeira, conta ao bicheiro que conversou com o repórter da Veja, Hugo Marques, que lhe revelou que o alvo de sua reportagem era “Zé Dirceu e não a Delta”.

O quarto encontro foi com Cláudio Abreu. No dia 29 de junho de 2011, às 19:43, Cláudio disse a Cachoeira que esteve com Policarpo e passou informações sobre licitação da BR 280. As informações foram parar na reportagem “O mensalão do PR
, publicada na edição 2224 da revista Veja, dando origem as demissões no Ministério dos Transportes.

No dia 7 de julho, às 09:12, Cláudio conta a Cachoeira que “o JR” quer falar com ele.

Cachoeira: “Que que é JR?”

Cláudio: “PJ, né amigo.”

Cachoeira: “PJ?”

Cláudio: “Pole.”

Cachoeira: “O que?”.

Cláudio: “Engraçado lá, Carlinhos. Policarpo, porra.”


No dia 26 de julho de 2011, Policarpo perguntou a Cachoeira, em telefonema às 19:07, como fazer para levantar umas ligações entre o deputado Jovair Arantes (PTB-GO) e “gente da Conab”.

No dia 28, às 17:19, uma ligação interceptada pela PF entre Jairo Martins, o araponga de Cachoeira, e uma pessoa identificada apenas como “Editora Abril” é sucintamente resumida pela palavra “encontro”.

No fim de semana seguinte a revista é publicada com a reportagem “Dinheiro por fora”, trazendo informações sobre o financiamento de campanha de Jovair e de outros políticos de Goiás por empresa favorecida pela Conab.

Invadindo o hotel Naoum
No dia 2 de agosto de 2011, às 10:46, Jairo Martins marca encontro por telefone “no Gibão do Parque da Cidade” com “Caneta”, identificado inicialmente pela PF como alguém da Editora Abril. Às 12:04, Jairo informa a Cachoeira que irá almoçar com “Caneta” às “15 pra uma” para tratar “daquela matéria lá (...) que ta pronta”.

Às 14:30, o araponga informa ao bicheiro que “Caneta” quer usar imagens do hotel “pra daqui a duas semanas, que naquele período que ele me pediu, o cara recebeu 25 pessoas lá, sendo que 5 pessoas assim importantíssimas” (sic). Ele também se mostra preocupado e diz que o combinado era não usar as imagens. Cachoeira diz:

“Põe ele pra pedir pra mim”.

Às 21:03, Cachoeira revela a identidade de “Caneta”. O contraventor conta a Demóstenes:

“...o Policarpo vai estourar aí, o Jairo arrumou uma fita pra ele lá do hotel lá, onde o Dirceu, Dirceu, é, recebia o pessoal na época do tombo do Palocci”.

Segundo Cachoeira, Policarpo pediu para “por a fita na Veja online”.

No dia 4, às 17:18, Cachoeira fala com Policarpo ao telefone e pede para ele ir encontrar Cláudio Abreu, da Delta, que está esperando. Às 17:31, Cachoeira diz para Claudio mandar Policarpo soltar nota de Carlos Costa.

Às 17:47, Cláudio pergunta onde a nota deve ser publicada. Cachoeira diz que no “on-line já ta bom”, mas “se for na revista melhor”. Às 18:37, o bicheiro informa ao diretor da Delta que Policarpo “está com um problema sério na revista”, pediu para desmarcar o encontro e receber a nota por email.

No dia 10 de agosto, às 19:11, Cláudio conta ao chefe da quadrilha que estará em Brasília no dia seguinte para falar com “PJ”. No mesmo dia, às 19:22, Jairo e Policarpo combinam por telefone um “encontro no churrasquinho”. Às 20:41, Jairo e Cachoeira falam sobre liberação das imagens.

No dia 11, às 08:58, Carlinhos fala a Demóstenes que almoçará com Policarpo. O resumo de uma ligação às 14:09, entre Cachoeira e Cláudio, afirma que “Carlinhos está no Churchill, possivelmente com Policarpo Júnior”. Às 20:05, em conversa com Demóstenes, Cachoeira conta que encontro com Policarpo foi para ele “pedir permissão para o trem lá do Zé”.

No dia 15, às 10:12, Cachoeira orienta Jairo para “matar a conversa com Policarpo”:

“Nós temos que pedir aquele assunto para ele.”

Às 19:04, Policarpo marca encontro com Jairo “em 10 minutos no espetinho”. O resumo de uma ligação entre os dois às 19:26 diz “encontro”.

O resumo de uma ligação às 12:45 do dia 16 descreve:

“Carlinhos diz que liberou, que só falta ele liberar. Jairo diz que falta pouca coisa. Acha que hoje ele libera.”

No fim de semana de 27 e 28 de agosto de 2011, a revista Veja deu uma capa com o título “O Poderoso Chefão”, em alusão à influência que o ex-ministro José Dirceu ainda tinha sobre o PT e o governo de Dilma Rousseff. A reportagem trouxe imagens de vários políticos visitando Dirceu dentro do Hotel Naoum, onde ele se hospedava em Brasília, afirmando que Dirceu articulou a queda do então ministro da Casa Civil, Antônio Palloci.

O repórter da Veja, Gustavo Ribeiro, foi acusado de tentar invadir o apartamento de Dirceu. A polícia também investiga como as imagens do circuito interno do hotel foram capturadas.





Miriam de Salles - 12/05/2012
Esse Policarpo,que não é quaresma,tb n/ é um patriota. Quem nasceu pra judas nunca chega a cristo.


EdiSilva - 12/05/2012
Carta Maior acabou com qualquer "dúvida" que as organizações "grobo" tenham. Vão precisar fazer outro editorial pedindo desculpas.


Antônio - 12/05/2012
É o seguinte: de tudo agora o que já se sabe é que houve uma conspiração por parte da Veja, de Demóstenes e do crime organizado. E esta conspiração é um crime capital de traição ao país. Este crime, nos EUA, por exemplo, seria punido com a pena máxima, ou perpétua. E teve a conivência e a concordância do dono da Editora Abril. Em lugar nenhum do mundo uma revista tenta dar um golpe, trair a vontade popular conseguida nas urnas. Por isso, a cassação de Demóstenes, possível condenação de Policarpo, Cachoeira etc. é muito pouco, dado a gravidade do caso. E acho tambem que Civita deveria responder processo e ser condenado por conspiração e atentado contra a democracia. E todos os que tentam acobertar, minimizar estes crimes são também coniventes. Cabe aqui, a Rede Globo, a Folha de S. Paulo etc. A única solução é a criação do marco regulatório da imprensa, coisa que a Argentina já fez...


Eugênio L da Costa - 12/05/2012
Eu diria que o Dr. Paulo Lacerda agora pode rir dos corruptos, dos ladrões, dos cafageste etc que inventaram o mensalão, que inventaram o grampo sem audio para prejudicar o governo do metalurgico e a ele própria. Agora, a justiça de Deus está sendo feita.


edson costa - 12/05/2012
A investigação revela a existência de uma quadrilha, no sentido do artigo 288 do Código Penal, com ânimo permanente de planeja e executar reiteradas atividades criminosas, das quais o Pole (Policarpio) era integrante ou, no mínimo, partícipe. Quando será decretada a prisão preventiva deste bandido? Com a palavra a Justiça Federal:


Rui Eloi Arend - 11/05/2012
Muito bom. Não vamos dar mole. Parabéns.


Marco Antunes - 11/05/2012
Perguntinhas para a Veja: Cadê o Policarpo Jr? A Veja o demitiu? Irá demiti-lo? Quem mais sabia das operações do "Poli" dentro da Veja? Quanto a Veja lucrou por conta de informações espúrias vindas de um contraventor? Irá devolver aos assinantes e compradores avulsos o valor pago por edições fundadas em material espúrio? Quanto a Veja feriu a democracia brasileira? Quanto a Veja feriu a princípios da ética jornalística? Ou não há ética no jornalismo? Se vale tudo, uma revista pode torturar alguém para obter informações? Pode usar como fonte costumeira um contraventor interessado em provocar o caos e a fragilidade institucional para se beneficiar? Pode a revista Veja alegar inocência e desconhecimento no caso? É válido o argumento de que usar como fonte um contraventor não a torna uma contraventora? Então, Veja fumou frequentemente mas não tragou???


Celso - 11/05/2012
"...eu não preciso ler jornais, mentir sozinho eu sou capaz..." Raul Seixas


Celso - 11/05/2012
"...eu não preciso ler jornais, mentir sozinho eu sou capaz..." Raul Seixas


Néia - 11/05/2012
Quanto à veiculação das imagens no Hotel Naoum, além de Cachoeira havia a necessidade "dele" liberar também. Ao que parece a negociação para a liberação não foi muito fácil e teve a intercessão do próprio Carlinhos junto a "ele". E quem é "ele"? Na época chegou a ser dito pelos donos do hotel que as imagens não eram as do circuito interno de segurança. Eram. Os donos do Hotel Naoum são de Goiás, ligados à família do Cachoeira. No final das contas os donos do hotel preferiram correr o risco com seus clientes (de todas as colorações partidárias) e ajudar a fazer a caveira do José Dirceu. É da natureza do escorpião aferroar mesmo que isto o prejudique. Esse empresariado...


Armando Clovis - 10/05/2012
Seria bom fazer uma investigação a razão daquele colunista chamado Diogo Mainarde ter saído do Brasil. Muitas mais coisas poderão vir atona.


PC - 10/05/2012
Boa matéria. É assim que tem que ser, coerência e racionalidade e descrição dos FATOS acima de tudo. Opiniões tedenciosas são insulto a inteligência do leitor.


Joca do Ipiranga - 10/05/2012
Excelente texto!!! Algum dia ainda vão aparecer também as relações da Editora Abril (e Globo, FSP, Estadão) com a CIA. Pena que seja tão difícil isso aparecer na imprensa. Será que é muito perigoso tratar desse assunto?


José da Mota - 07/07/2012
Suponhamos que Policarpo em algum momento, se necessário, será o boi de piranha do escândalo cachoeira da veja. Baseado nos dados divulgados pela maioria da imprensa e na realidade de todo empregado brasileiro em cargos de confiança. Civita talvez dê uma volta turística de carro em volta do palácio e ministérios, acompanhado de alguns ministros e quem sabe até a presidente de República. Continuando a suposição, caso policarpo o boi de piranha com certeza irá como a maioria dos trabalhadores brasileiros viveu, de bolso vázio e atendendo o patrão em tudo. Já Civita de bolso cheio, talvez mude o destino do seu passeio turístico. Como em tudo neste país, para todos, que ou são, ou foram, ou serão laranja. Para não perderem seus empregos. ALguns com gordos salários, outros magros, mas únicos empregos. Todos sem excessão em que o brasileiro se torna depndente, e ou, mal acostumado à algum benfício. Fruto de seu esforço e anos dedicados à função. Mesmo assim se sujeita à todo tipo de submissão para sustentá-lo, como por exempolo manterem-se de bico calado e até aceitarem serem ludibriados por presidentes de sindicatos. Quer um laranja? Vá à alguma praça pública e pregue uma placa daquelas no peito. com esta oferta de "oportunidade". Que em segundos formará uma fila gigantesca. Mas que no fim, laranjas, sairão pobres, talvez presos ou constrangidos e humilhados, uns bagaços. E os seus patrões, livres e cada vez mais ricos. José da Mota Leite Neto.

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