Quinta-Feira, 24 de Julho

 

20/06/2012 - Copyleft

Participantes da Rio+20 fazem ato por comunidade ameaçada de remoção no RJ


Igor Ojeda
Arquivo

Rio de Janeiro - Seu Lúcio tem 84 anos, 22 dos quais vividos na Vila Autódromo, comunidade da baixada de Jacarepaguá, zona oeste do Rio de Janeiro. Sua vida está toda ali. Amigos, família, trabalho. Ele é estufador: trabalha consertando poltronas e sofás. Atualmente, no entanto, ele se sente como vivendo “numa balança”.

Pois sua casa, assim como toda a comunidade, sofre a ameaça de ser removida pelo poder público. O motivo alegado é a necessidade da realização de obras viárias e o Parque Olímpico na região, de modo a adequar a infraestrutura local aos Jogos Olímpicos de 2016. Os moradores da Vila Autódromo, estudiosos e advogados que o apoiam, porém, dizem que o evento esportivo é apenas um pretexto; segundo eles, a verdadeira intenção é atender os interesses do setor imobiliário.

Como isso em mente, mais de mil integrantes de movimentos sociais e ONGs brasileiros e estrangeiros que participam da Cúpula dos Povos – evento paralelo à conferência oficial – foram até a comunidade e, juntamente com seus moradores, fizeram um ato em sua defesa nesta quarta-feira (20). O objetivo era denunciar a desterritorialização dos povos em todo o mundo. Aproveitaram para questionar as “falsas soluções” apresentadas pelo Rio+20 - Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável, que começou em 13 de junho e vai até dia 22.

Movimentos indígenas, camponeses, quilombolas, de mulheres, de luta por moradia, assim como entidades de defesa de direitos desses grupos chegaram em diversos ônibus, que saíram de vários pontos do centro carioca. Com muita música, cantos e batuques, os manifestantes se juntaram aos moradores da Vila Autódromo e caminharam pelas ruas de terra da comunidade. Em seguida, tentaram se dirigir rumo ao Rio Centro – local de convenções onde acontece a cúpula oficial –, mas foram impedidos de prosseguir por uma forte barreira policial.

Um grupo grande de indígenas de todo o país que insistia em entrar no Rio Centro conseguiu que o ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, comparecesse ao local para negociar. Após alguns minutos de conversas com o líder caiapó Raoni, ficou acordado que o ministro receberia na cúpula oficial 12 lideranças indígenas. O encontro estava previsto para acontecer às 15 horas desta quarta. Entre as reivindicações dos indígenas, estavam incluídas a interrupção das obras de Belo Monte, a demarcação de terras e questões relacionadas à saúde e educação.

Durante o ato, podia-se ouvir gritos de guerra e músicas contra o capitalismo e a chamada economia verde. “Capitalismo é um horror! Destrói a vida, a natureza e o amor!” e “O povo unido, organizado, não precisa de polícia nem Estado” eram algumas das palavras de ordem. Já os indígenas entoavam músicas contra a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte.

Sobre o asfalto foram colocadas quatro grandes faixas que formavam a frase: “Vila Autódromo resiste há 40 anos”. “Eu só quero é ser feliz, andar tranquilamente na favela onde eu nasci...” era uma das músicas entoadas pelos manifestantes. Outra faixa dizia: “Remoção não é sustentabilidade”.

Localizada ao lado do autódromo do Jacarepaguá, muito utilizado até os anos 1980 para a etapa brasileira do campeonato de Fórmula 1, a Vila Autódromo abriga cerca de 4 mil pessoas em casas simples de alvenaria e ruas sem pavimentação. Segundo Eliomar Coelho, vereador carioca pelo Psol, a remoção da comunidade não é tão simples de ser executada, pois seus moradores teriam o título de uso, o que daria a eles o direito real de uso do terreno por 99 anos. Assim mesmo, a pressão continua grande. “A prefeitura do Rio fez uma grande articulação entre os grandes interesses econômicos, os governos das três esferas [federal, estadual e municipal] e a mídia. Então, é um poder de fogo enorme. Mas a população da comunidade está devidamente mobilizada. Cada morador vem ganhando consciência sobre seus direitos”.

Um exemplo disso é Jane Nascimento, de 56 anos, diretora-social da Associação dos Moradores e Pescadores de Vila Autódromo (AMPVA), que atua organizando a população local para resistir à remoção. Ela afirma que, embora muitos moradores estejam criando coragem, a mobilização não é fácil. “A Secretaria de Habitação do município vive querendo seduzir o povo, oferecendo ajuda social. Mas, sutilmente, avisa que se a pessoa não sair por bem, terá que sair do mesmo jeito.” Como alternativa, diz, o poder público promete o cadastramento no Programa Minha Casa Minha Vida, “para o povo adquirir dívida”.

Para demonstrar que a Vila Autódromo é viável socialmente, ambientalmente e urbanisticamente, a AMPVA, juntamente com o Núcleo Experimental de Planejamento Conflitual (ETTERN/IPPUR/UFRJ), elaboraram o “Plano Popular da Vila Autódromo”, que propõe a urbanização da comunidade como alternativa mais barata do que a remoção. O projeto engloba planos para os setores habitacional, educacional, ambiental, cultural, de saneamento, economia local e transporte. “A implementação desse plano pode tornar a Vila Autódromo um modelo de integração urbanística e ambiental de uma comunidade, em consonância com o discurso de sustentabilidade que é o centro da Rio+20. Tecnicamente, não existe razão para a remoção, pois apresentamos soluções para todas as áreas”, explica Regina Bienenstein, coordenadora do Núcleo de Estudos e Projetos Habitacionais e Urbanos (Nephu) da Universidade Federal Fluminense (UFF) e uma das elaboradoras do plano.

É tudo que seu Lúcio quer: permanecer onde vive há mais de duas décadas. “Conheço todo mundo, gosto daqui. É muito bom aqui, nem ponto de bicho tem”. Observando com atenção a mobilização, ele comenta: “Espero que isso toque o coração desse pessoal que só pensa em dinheiro. As grandes empresas que querem fazer apartamentos. Não é por causa dos Jogos Olímpicos que querem tirar a gente daqui, é por causa da especulação imobiliária”.



Créditos da foto: Arquivo



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