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06/11/2010 02:48 - Copyleft

"Houve uma atomização do pensamento. Não existe mais um centro de gravidade".

por: Saul Leblon




Membro da Academia da França e diretor do departamento de Ciências Sociais da editora Gallimard, Pierre Nora contribuiu na publicação, dentre outros, dos livros de Raymond Aron, Michel Foucault, François Furet e Jacques Le Goff. Junto com o 30º número da revista, também deu à imprensa um número especial intitulado "De quoi l'avenir intellectuel sera-t-il fait?", a pergunta que havia inaugurado o lançamento da revista, fundada em 1980 junto com o filósofo Marcel Gauchet, reproposta a alguns dos autores da época e aos novos jovens pensadores dos anos 2000.

Eis sua entrevista.

Pierre Nora, o que será do nosso futuro intelectual?

Uma comparação histórica com 1980 seria impossível. No meio, está o fim da Guerra Fria, a desagregação do sistema soviético, a onda longa da globalização, o novo mundo que se assoma da Ásia. No nosso aniversário, isolamos cinco novos eixos do pensamento: o impulso ao individualismo, o retorno das religiões, o nascimento de uma consciência ecológica, a importância da pesquisa científica e a revolução das comunicações digitais. Mas é o próprio modo de refletir que hoje mudou. Nesse período, houve como que uma atomização do pensamento. Não existe mais um centro de gravidade. Os jovens intelectuais não se sentem mais parte de uma geração. Estão isolados no seu trabalho, têm dificuldade de emergir. Muitos autores do nosso primeiro número tinham menos de 30 anos. Hoje, confesso ter dificuldade para encontrar pensadores tão jovens. Eles existem, certamente. Mas poucos e bem escondidos.

Na Le Débat, o escritor Regis Debray diz que agora o verdadeiro poder intelectual é o Google.

É uma afirmação um pouco esquemática, mas Debray não está equivocado. A hegemonia da ideologia ou do pensamento foi substituída pela da tecnologia. Dentro da Internet, pode-se encontrar de tudo e o contrário de tudo. Nós somos chamados a ser intérpretes dessa democracia intelectual. Por sorte, não existem mais maître à penser e profetas. É preciso um papel de análise e de divulgação mais modesto, diria quase de serviço. Mas certamente não vou ser eu que vai lamentar o "grande intelectual" que, do seu púlpito, dizia a primeira coisa que passava pela cabeça.

O senhor fundou a Le Débat para romper com a militância do famoso intellectuel engagé.

A nossa ambição, naquele momento, era nos isentar do feudalismo político dos intelectuais que muitas vezes recobriam uma função servil, às vezes comprometedora e exclusivamente decorativa. Pelo contrário, queríamos afirmar a independência e a autonomia de uma atividade livre e igualmente necessária. Aqueles eram os anos de uma esquerda que chegava ao poder em um estado avançado de dissolução ideológica. E era também o momento dos nouveaux philosophes que levaram a figura do compromisso intelectual a se encerrar no campo político e midiático.

Essa tradição, para entender, está morta e sepultada.

Permaneceu aquilo que eu chamo de intelectual midiático. Uma dezena de nomes. O mais famoso deles é obviamente Bernard-Henri Levy. Com efeito, é o fim de uma grande histórica, que começou com Voltaire e Zola. Mas não devemos nos esquecer que o affaire Dreyfus, graças ao qual nasceu a figura do intelectual moderno que viveu até Sartre, foi também a época dos totalitarismos. Justamente a morte de Sartre, em 1980, abriu uma nova fase. Por um período, a vida cultural francesa beneficiou-se de um clima de abertura em todos os campos. Sectarismo e terrorismo, contra os quais alguns de nós se insurgiram, estavam em declínio. Infelizmente, são ameaças que voltaram com estreita atualidade.

Qual é então o papel do intelectual dos anos 2000?

Vivemos em uma sociedade sempre menos decifrável, na qual se dedica pouco tempo à reflexão e muito à comunicação. Um modo prisioneiro de um presente perpétuo, condenado ao zapping e à onipotência das mídias. É uma época, a nossa, na qual a vida política está fechada nos jogos de interpretação de personagens e tem poucas ideias. Falta a distância certa, a perspectiva. Nós, intelectuais, não devemos dizer aos políticos o que eles devem fazer, mas iluminar as suas ações. Não devemos fornecer aos cidadãos julgamentos pré-fabricados, mas torná-los verdadeiramente padrões das suas escolhas.

O fato de se ter um chefe de Estado alérgico aos intelectuais pode incidir sobre isso?

A vida política reflete a intelectual. Quando você ouve o presidente da França dizer que acha entediantes livros como "Princesse de Clèves" há com o que se preocupar, de fato. Até Jacques Chirac, talvez o menos intelectual dos nossos presidentes, tinha mais gosto pela vida cultural. Nicolas Sarkozy é a imagem de uma geração enérgica, sempre na ação. Não sei dizer que ele é o símbolo de um provincialismo nacional destinado a durar. Talvez dentro de dois anos a sua parábola estará concluída. O que é certo, ao contrário, é que hoje a figura que trabalha nas ciências sociais não tem mais a força civil e a credibilidade de tempos atrás. Nestes anos, completou-se a dissociação definitiva entre o intelectual como figura social e ator político, e aquele que produz ideias e conhecimento. O motivo é simples. Falharam os fios de transmissão entre esses dois mundos, ou seja, os partidos e a escola.

Essa não é uma boa razão para se comprometer ainda mais na vida pública?

É verdade. É preciso resistir à tentação de protestar abstendo-se do confronto. Ao mesmo tempo, não podemos nos reduzir a ser os histriões para atrair um pouco de público. Só procurando os instrumentos para entender um mundo sempre mais complexo é possível, verdadeiramente, tentar mudá-lo. Infelizmente, a nossa atividade de estudo e de análise ocorre em circuito fechado e quase sempre na indiferença geral. Mas também é verdade que ela age em profundidade, e os resultados são vistos em longo prazo. Não é preciso ter medo de ser minoria. Como dizia André Gide, o mundo será salvo por alguma pessoa.






- 07/11/2010
O retorno das religiões se dá preponderamente pelo viés mais autoritário e individualista, e não pela ênfase na solidariedade e na fraternidade. Bloqueia-se mais uma poderosa saída e reforçam-se as tiranias mais desumanas.


- 06/11/2010
Estaremos caminhando para um mundo onde não haverá pessoas que pensem por ele e para ele? Só teremos a ação acima de tudo? Sinto medo ao pensar nessa possibilidade.


- 06/11/2010
Sem dúvida, houve e há um notável crescimento da comunicação no nosso tempo e eu acho que se cria muita expectativa sobre qualquer assunto por parte dos meios de comunicação. A mídia já comunica o futuro mesmo antes dele ter acontecido. É como se vivêssemos num terreno falso de uma realidade possível de acontecer. Vivemos nesse vazio entre a previsão comunicada e o fato realmente acontecido. E quando ele realmente acontece é comunicado distorcido.O mais trágico é que aceitamos tudo isto com naturalidade. Acho que temos que voltar ao nosso caro filósofo Foucault e tentarmos aprender um pouco mais sobre discursos, suas ordens e origem.


- 06/11/2010
De fato, até mesmo entre nós que somos de uma geração que aprendeu a admirar e praticar o pensamento e o debate está dificil evoluir, são tantas variáveis estultas e debochadas que me sinto um bicho fora dágua..... nem sou mais peixe!


- 06/11/2010
Nossa, como o Pierre Nora é um cara de direita. Aliás essa entrevista deixa bem claro a ponte entre teorias pósmodernas e o pensamento conservador.

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