Terça-Feira, 25 de Julho

11/08/2012 11:27 - Copyleft

Os sucateiros do Estado apoiam o funcionalismo?

por: Saul Leblon

Saul Leblon

A greve de setores do funcionalismo público tem sido canibalizada com voragem por esferas do dispositivo midiático demotucano. Veículos e gargantas que se notabilizaram pelo aplauso esférico ao ciclo de privatizações promovido nos governos do PSDB, servindo como lubrificante ideológico ao desmonte do Estado, agora se esponjam no conflito entre as reivindicações dos grevistas e as respostas, inábeis, em certos casos, do governo.

Nesta sexta-feira, (10-08), o jornal Folha de São Paulo conseguiu desengavetar a palavra 'caos' trazendo-a de volta às manchetes em letras garrafais: ' Greve trava estradas e gera caos em Cumbica'. Isso para descrever uma operação padrão que atrasou vôos e gerou filas de caminhões em alfândegas. A soma de todos os engarrafamentos por certo equivale a um farelo do colapso permanente do trânsito em São Paulo, onde a competência tucana conseguiu o colosso de construir a média anual de 1,5 km de metrô em 17 anos de poder.

No sábado (11-08), o mesmo jornal que se notabilizou como sirene da retroescavadeira neoliberal carregou no tom desaforado e provocativo da chamada: 'Dilma diz a grevistas que tem outras prioridades'.

Disse mesmo?

Nas páginas internas, o editor matreiro já se despede da responsabilidade calça o exagero com outro título: 'Em meio a protesto, presidente diz querer serviço público de qualidade'. Na letra miúda do texto, lê-se o seguinte relato dos fatos: 'sem citar diretamente as greves a Presidenta disse que tem de olhar o que é mais importante no país (...) assegurar empregos para aquela parte da população que é a mais frágil, que não tem direito à estabilidade, que sofre porque pode e esteve, muitas vezes, desempregada'.

A Presidenta foi vaiada por um grupo de docentes, alunos e servidores de instituições federais de ensino, diz a Folha.Em seguida informa: eram 35.

A recomposição das carreiras, salários e quadros do serviço público é uma prioridade da agenda progressista brasileira. Atacada por uma campanha implacável durante os dois primeiros governos do PT, o resgate do serviço público ganhou margem de manobra ideológica com a crise, que escancarou o risco de se entregar a sociedade aos desígnios dos mercados, sem o contrapeso de um contraponto estatal eficiente e transparente.

Reduzir a despesa rentista com os juros, como tem feito o governo, é um passo importante para gerar folga orçamentária, capaz de beneficiar a educação, a saúde e a infraestrutura pública. Nada disso será feito sem uma atenção gêmea com carreiras, salários e servidores qualificados, capazes de colocar planos e projetos de pé.

Não se trata de 'ideologismo estatizante'.

O país vive uma situação kafkiana:'sobram' recursos públicos em algumas áreas sem que planos de investimentos consigam migrar das intenções para os canteiros de obras.

Será difícil reordenar a macroeconomia do desenvolvimento brasileiro sem
novas empresas públicas que funcionem como espelho e alavanca. O exemplo vem dos bancos estatais.Em seus segmentos eles tem conseguido induzir o mercado a trabalhar pela sociedade, como evidencia a queda nos juros do financiamento imobiliário.

O governo Dilma, o PT e a CUT precisam estabelecer uma convergencia estratégica sobre esse ponto preliminar: a porta entreaberta pela desordem neoliberal exige ousadia para não ser desperdiçada. O mito da eficiência dos livres mercados trincou; sepultá-lo exige instituições, recursos, pactos e desassombro que subordinem os interesses a ele associados. Sem isso a porta se fechará; o passado continuará a asfixiar o futuro, como se comprova na agonia européia, sob tacão ortodoxo.

Faltam recursos? Sempre. Para isso existe a política, por definição uma disputa entre prioridades de classes divergentes. Ademais, recorde-se que a elite nativa que inaugura 'impostômetros' e enche a boca para denunciar a 'carga' ocupa o 4º lugar no pódium dos maiores sonegadores do planeta. Tem US$ 520 bilhões acantonados em paraísos fiscais. Como esse dinheiro chegou lá? Não chegaria sem a inestimável colaboração de bancos e instituições do mercado cujos chefes de departamento de 'análise econômica' inundam os jornais com alertas sobre o 'desequilíbrio fiscal' e oferecem o antídoto:'as reformas', cujo cerne é o escalpo de direitos, de serviços públicos e de folhas de servidores do Estado.

O jornalismo engajado no apoio à greve dos servidores é filho dessa mesma cepa. Tem sido um porta-voz militante contra 'a gastança', incluindo-se aí o custo da 'corrupção', 'inerente', como se sabe, à 'companheirada sindical-petista', conforme a mesma mídia tenta induzir o STF a sentenciar.
Demonização e desqualificação do servidor constituem uma das armas desse arsenal sistêmico anti-estatal e socialmente regressivo.

O conjunto carrega a inoxidável determinação de jogar a classe média contra tudo o que remeta ao interesse público, como se fosse possível pavimentar a convivência compartilhada sem solidariedade fiscal. Habilidosamente, alimenta-se a esquizofrenia que torna o imaginário social receptivo ao discurso dos Demóstenes de plantão: exige-se cortes de gastos nas páginas de economia; denuncia-se a insegurança pública na cobertura policial.

Foi assim também que se deformou o discernimento do país para legitimar o corte de R$ 40 bilhões no orçamento da saúde pública, com a extinção do CPMF, em 2007. Ato contínuo, a mídia 'isenta' discorria sobre o 'caos' nos corredores lotados de macas da rede pública de saúde.

Programas sociais nucleados em torno do Bolsa Família padecem de identico tratamento. Com apenas 0,47% do PIB eles fornecem um piso de renda a 25% da população, expandindo o mercado interno em plena crise mundial. Mas a atenção prioritária do dispositivo midiático é com os 'desvios' dos benefícios, pinçados com lupa para comprovar o 'descontrole da máquina pública'.

Governos e grevistas não podem menosprezar esse pano de fundo histórico sobre o qual se trava a atual campanha salarial. Sem um denomidador comum feito de compromissos políticos em relação ao país e ao futuro, o risco é se perderem numa dízima de porcentagens, oferecendo combustível desagregador a quem sempre esteve do outro lado da mesa.

As entidades dos servidores públicos e a CUT devem se perguntar, objetivamente: na atual relação de forças quem pode liderar o caminho (que não é curto) na construção de um serviço público suficiente, bem remunerado, digno e de qualidade? O governo Dilma , por sua vez, deve saber a essa alura da crise que não existe hipótese de atravessar o Rubicão para o desenvolvimento sustentável sem Estado indutor; isso não se faz com um funcionalismo descontente, professorado sem ânimo e base sindical estilhaçada.

O Instituto Teotônio Vilela, insuspeito think tank tucano, repõe em um texto recente a verdade dessa correlação de forças ao elencar os dados e a posição do conservadorismo sobre fatos hipocritamente dissimulados na cobertura da greve atual. Com a palavra, o PSDB:

"Em 2010, o gasto da União com pessoal atingiu R$ 183,3 bilhões. Isso equivale a mais de R$ 500 milhões por dia. Em 2002, havia sido de R$ 75 bilhões, em valores correntes. O salto registrado ao longo do governo petista foi astronômico", acusa o instituto tucano: "em termos nominais, isto é, sem considerar a inflação, as despesas cresceram 144%. Em valores reais, o ganho do funcionalismo foi de 56%, ou seja, muito acima da elevação do custo de vida no período. Não há quem seja contra um Estado que preste melhores serviços à população. Para tanto, é importante remunerar bem o servidor, motivá-lo e preservá-lo nas carreiras públicas. Mas a questão é saber se a sociedade está disposta a arcar com os custos desta política, uma vez que ao crescimento da folha sempre corresponde a cobrança de mais tributos".(ITV- nCARTAS DE CONJUNTURA ITV – Nº 74 – ABRIL/2011)



Hora a Hora

Siga-nos no Facebook

Cadastro

Os últimos Editoriais

Emir Sader

As últimas da Carta Maior

PARCERIAS