Cidades

'Até entrarmos num ciclo menos neoliberal, segregação urbana tende a aumentar'

Em entrevista, sociólogo francês Edmond Préteceille defende que o lucro do capital financeiro é o que mais segrega nas grandes cidades.

22/06/2015 00:00

sciencespo.fr

Créditos da foto: sciencespo.fr

Que Rio e São Paulo são cidades partidas, todo mundo sabe. Ou melhor, acha que sabe. É exatamente com o objetivo de desmistificar a segregação nas duas metrópoles brasileiras que Edmond Préteceille, sociólogo francês e diretor de pesquisa emérito do Observatoire Sociologique du Changement da Sciences Po, tem se debruçado sobre mapas e estatísticas, estudando e comparando as formas como as diferentes classes sociais estão distribuídas nessas cidades. E o estudo, que faz uma comparação com a metrópole de Paris, tem mostrado que Rio e São Paulo são cidades partidas sim, mas nem tão partidas assim.

A pesquisa, realizada em parceria com Adalberto Cardoso, do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Iesp-Uerj), ainda deve levar alguns meses para ser concluída, mas já produziu resultados preliminares.

Entre eles, o de que as duas cidades brasileiras têm uma segregação surpreendentemente considerada moderada, embora em maior grau que a da metrópole de Paris. São Paulo, na verdade, é a cidade mais segregada entre as três. Isso porque concentra o maior número de ricos do país e não conta, assim como o Rio, com políticas públicas para frear a segregação e a desigualdade urbana, como aconteceu historicamente em Paris.

Entre as categorias sociais, a mais segregada é a dos ricos: são eles que costumam se concentrar numa determinada parte da cidade e se misturar muito pouco com as outras classes. Outro resultado interessante é o papel importante das classes médias nas cidades brasileiras. É a consolidação delas que ajuda a evitar que Rio e São Paulo sejam metrópoles tão segregadas. E, ao contrário do que se pode pensar, as classes intermediárias são as menos segregadas entre todas elas. Ou seja, são as que mais se misturam com as outras categorias sociais.

Edmond Préteceille já esteve no Brasil diversas vezes. Em sua última semana no Brasil no mês junho, antes de retornar à França, conversou com Carta Maior sobre o tema da pesquisa. Confira a entrevista:

O que a pesquisa tem revelado sobre a segregação em Rio, São Paulo e Paris? Quais são as classes mais segregadas?
Sempre que se pensa em segregação, se pensa nos pobres. Mas a pesquisa que estamos realizando agora confirmou um resultado que sempre aparece em estudos sobre este tema: as classes mais segregadas são as ricas, não as pobres. Em geral, a curva do índice de segregação é uma curva em “U”. Os mais ricos são os mais segregados, as categorias intermediárias são menos e as classes populares são um pouco mais segregadas, porém menos que as mais ricas.

Na prática como se dá a segregação, para ricos e pobres?
A segregação é uma noção relativamente complexa, porque se refere à distribuição espacial desigual entre duas categorias. Na discussão tradicional, feita nos Estados Unidos, falava-se da segregação entre brancos e pretos. Mas nossa pesquisa fala de classes superiores e classes populares. Há vários instrumentos para analisá-la. Um deles é o índice de segregação e o outro é a tipologia, que permite descrever diversos tipos de espaços e mostrar quais são os que têm ricos mais concentrados, quais são os que têm pobres mais concentrados, e quais são espaços mais misturados. Toda cidade tem essas três grandes categorias de espaço. Comparando as três metrópoles, há mais espaços misturados e menos exclusivos em Paris que em Rio e São Paulo. São Paulo é a mais segregada das três, um pouco mais que o Rio.

Por que São Paulo é a metrópole mais segregada?
Porque tem mais ricos em São Paulo do que no Rio. Como São Paulo é a capital econômica do país, é lá que estão concentradas as sedes das maiores empresas e o polo financeiro do Brasil. Todos os estudos internacionais mostram que o lucro do capital financeiro é o que produz maior diferença de renda num país. E como no Brasil isto está concentrado em São Paulo, a diferença de renda e de patrimônio na cidade é maior que no Rio, com efeitos inevitáveis sobre a segregação.

E por que a segregação é menor em Paris?
A segregação é efeito de um processo de acumulação histórica de fatores. Recentemente, podemos citar o exemplo da adoção de políticas públicas pela prefeitura de Paris para tentar manter as categorias populares na cidade. O município de Paris teve dois mandatos do socialista Bertrand Delanoë como prefeito e agora está no primeiro ano da administração da também socialista Anne Hidalgo. Evitar a segregação é impossível. O município não tem tanto poder para isso. Mas a política socialista em Paris, desde o início, tentou manter as categorias populares na cidade e melhorar um pouco a situação delas, por exemplo, construindo mais habitação social e tendo certo nível de controle sobre os preços dos aluguéis. São medidas que estão freando a especulação imobiliária e têm se mostrado bastante eficientes. Não é suficiente para parar o processo, mas tem um efeito significativo.

Pode falar um pouco mais sobre como se dá a segregação racial em Rio e São Paulo?

Tem outra diferença que opõe as metrópoles brasileiras e Paris neste aspecto, que é a estrutura socioeconômica da segregação. Em Rio e São Paulo, a segregação racial é pouco significativa nas categorias populares. Para mostrar isso, calculamos o índice de segregação entre brancos e não brancos para cada categoria de ocupação usada na pesquisa. Nas ocupações populares, o índice é pouco significativo. As classes populares são uma mistura de brancos e não brancos, não tem segregação. Quando você passa para as categorias médias baixas, o índice sobe um pouco; quando vai para as categorias médias médias, aumenta  um pouco mais; médias altas, um pouco mais, até chegar às categorias superiores, cujo índice é enorme. Assim, a segregação racial pior é a segregação nas categorias superiores. Ela é muito forte. Os ricos são mais segregados racialmente no Brasil.

E a nova classe média? Onde ela se coloca neste espectro?
Ainda não comparamos nossos resultados com as análises do Marcelo Neri (que foi quem lançou o debate sobre a nova classe média), mas ele considera a classe média uma categoria tão ampla que integra 40% da população brasileira: um conjunto de pessoas que já não são pobres - mas que também não são classe média - e que inclui trabalhadores, operários, funcionários pouco qualificados que têm um emprego estável e um nível de vida razoável. Minha hipótese, que ainda não verificamos, é que a nova classe média do Neri mistura elementos dessa classe média média e elementos da classe popular, que não são classe média.

Projetos como o Minha Casa Minha Vida, que o governo brasileiro está implementando, podem aumentar a segregação urbana?
Isso melhora a situação imediata das pessoas em termos de acesso à habitação, mas, em termos de segregação e desigualdade urbana, pode ter um impacto enorme. Podemos comparar com a experiência na França. Durante o fim dos anos 1960 e início dos anos 1970, o governo realizou muitos programas de habitação social na periferia distante do centro, para dar habitação a pessoas que estavam morando em zonas centrais onde havia os chamados “programas de renovação urbana”, para construir prédios de outro padrão social. Com isso, produziu situações de péssima qualidade para categorias populares que chegavam a esses lugares e alguns deles hoje são conhecidos como focos de problemas sociais enormes.

E algo foi feito para amenizar esta situação?
Foi feito, mas 30 anos depois. Foi feito no dia em que houve motins urbanos, violência. Os políticos tiveram que dar uma resposta, que foi a chamada “política da cidade”, para tentar melhorar a situação desses bairros. O foco da política da cidade foi levar mais equipamentos urbanos, melhorar a infraestrutura, destruir e reconstruir os prédios em pior estado, melhorar as escolas e a política de policiamento local, enfim, adotar um conjunto de elementos cujo resultado não é muito positivo, mas que, se não tivessem sido implementados, a situação estaria muito pior.

A segregação urbana também pode aumentar como consequência do processo de gentrificação que as cidades brasileiras vivem hoje, especialmente o Rio?
No caso de São Paulo, o processo de gentrificação já começou há muito tempo. Quando você olha o mapa, os ricos estão no centro, com as classes médias médias no entorno e, as categorias populares na periferia. A gentrificação é sobre uma pequena parte do mapa, uma pressão sobre os poucos espaços populares que se mantiveram dentro das zonas mais ricas.

No Rio, é um pouco diferente. As grandes obras que estão sendo feitas se concentram em zonas como o Porto, que têm pouca população residente. Então, é mais uma mudança de uso econômico do espaço, com um possível uso futuro como residência de classes médias altas e claramente uma expulsão das poucas categorias populares que moram ali.

E a valorização dos imóveis no Rio?
O principal fator de produção da segregação nas grandes cidades do mundo capitalista é o encontro das desigualdades socioeconômicas com a lógica do mercado fundiário e imobiliário, que hierarquiza os espaços em relação à sua qualidade, através do preço. Se esse processo fosse puro e instantâneo, a cidade seria ainda mais segregada do que ela é agora. A cidade é menos segregada porque, na verdade, cada bairro não é o resultado da situação econômica presente no mercado, mas da acumulação histórica.

Um exemplo é o bairro do Leblon, na zona sul do Rio. Claramente, todos os prédios na orla são muito caros e exclusivos socialmente, mas quando você entra no bairro e observa as áreas um pouco mais longe da praia, tem muitos prédios que, só de olhar o tipo de arquitetura, você vê que devem ser de classe média média. Por quê? Porque, quando esses edifícios foram construídos, o bairro não era tão exclusivo como é hoje. Assim, essa acumulação histórica tem produzido uma mistura social ao longo do tempo que explica a situação recente de não tão extrema segregação.

Mas, se houver demanda forte para a parte superior do mercado imobiliário, ele vai progressivamente mudar os prédios para construir edifícios de padrão mais alto e mandar embora as categorias não tão ricas. Há três ou quatro anos, por causa da antecipação especulativa da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos, houve uma subida enorme dos preços. Agora o mercado está caindo um pouco, mas podemos imaginar que, nos próximos dois ou três anos, o Rio vai ter uma retomada econômica, por causa da economia do petróleo. Vai voltar a ser atraente para engenheiros estrangeiros e provavelmente vai ter uma nova subida do preço, talvez não tão forte como a anterior, mas que vai produzir de novo este processo de exclusão. Esta é a lógica básica e a única maneira de evitar este aumento da segregação é o poder público tomar uma série de medidas, como a regulação do mercado, dos preços dos aluguéis e de construção de habitação social em lugares mais ricos. Mas não se vê este tipo de esforço no momento.

O Brasil viveu, nos últimos doze anos, a experiência de um governo popular, com políticas de transferência de renda. Mas, ainda assim, temos metrópoles muito segregadas.  Que avaliação o senhor faria dessas políticas sobre o processo recente de constituição das nossas grandes cidades?
Acho que as políticas dos governos do PT tiveram efeitos positivos para as classes populares. Seja através da valorização do salário mínimo ou do Bolsa Família, com transferência de renda, seja através da política de crescimento econômico, que permitiram a criação de empregos novos e formais. O problema em relação à segregação é que os governos do PT não priorizaram uma produção de infraestrutura urbana básica, de habitação social e de oferta de serviços públicos que fugisse à lógica do mercado. Acho que o PT não aproveitou o momento histórico para fazer o que tinha que ser feito neste sentido.

O senhor já afirmou que devemos temer o aumento da segregação no Brasil e na Europa. Por quê?
Porque estamos num momento histórico onde a evolução geral das políticas públicas tem sido resultado de uma pressão crescente e, com sucesso, das orientações neoliberais, dando cada vez mais poder ao mercado financeiro, aos bancos, às grandes empresas, e enfraquecendo o poder do trabalho e as políticas públicas redistributivas diretas ou indiretas. Vivemos esta situação na Europa com níveis de neoliberalização mais ou menos forte, dependendo das orientações políticas dos governos. Mas, em geral, a orientação da Comissão Europeia é principalmente neoliberal. Então, essas forças são as predominantes. Até que entremos num novo ciclo menos neoliberal, com mais preocupação com redistribuição e políticas públicas, a segregação tende a aumentar.



Conteúdo Relacionado