Mídia

A nova fase da Sociedade do Espetáculo

O espetáculo é a fase extrema do processo de alienação, impondo uma redução da vida humana e social à simples aparência mediada pelas novas mídias.

25/03/2015 00:00

Jeff Carson / Flickr

Créditos da foto: Jeff Carson / Flickr

Primeira definição: quem são os “coisa”. O poeta Carlos Drumond de Andrade diz o seguinte no poema Eu Etiqueta: com que inocência demito-me de ser / eu que antes era e não sabia / agora sou anúncio / ora vulgar ora bizarro / peço que meu nome retifiquem / já não me convém o título de homem / meu novo nome é coisa / eu sou a coisa, coisamente.
 
Este é um texto sobre a sociedade do espetáculo, a sociedade do consumo e das influências dos meios eletrônicos – televisão, internet, redes sociais – na mente das pessoas, escrito e inspirado na domingueira do ódio explícito do dia 15 de março, na semana que a Organização Mundial da Saúde realizou uma conferência na Suíça onde anunciou a existência de 47 milhões de idosos afetados por demência mental, número que poderá triplicar nos próximos anos – sempre é bom lembrar que 5% da população humana atualmente, ou seja, 350 milhões sofrem de depressão.
 
A influência da era digital no cotidiano do mundo globalizado não é uma questão de comunicação, é algo muito mais complexo. Várias pesquisas já apontam a dependência de jovens e adultos do ciberespaço. Nos Estados Unidos o índice varia de 13 a 18%, entre jovens na faixa dos 20 anos. No Brasil uma pesquisa de Jefferson Cabra Azevedo, da Universidade do Norte Fluminense realizada com 7.500 jovens do ensino secundário de Macaé apontou o índice de 13,08%. Porém, o problema envolve realmente mudanças nas articulações do cérebro provocadas pelo uso intensivo dos meios digitais. Como explica o pesquisador Jefferson Azevedo:
 
“-Vive-se na era da informação, de rápidas mudanças nas estruturas sociais e em suas relações, tornou-se evidente que as atuais tecnologias e suas aplicações possibilitam novos arranjos sociais e psíquicos, mudando paulatinamente o comportamento individual e coletivo. Esta nova tecnologia se entranha e se ramifica nas mais variadas concepções, tornando-nos dependentes, não apenas no sentido patalógico, mas, principalmente por permear nossas manifestações culturais, econômicas, sociais e psicológicas”.
 
Cérebro não é binário
 
O pesquisador norte-americano Nicholas Carr, autor do livro “A geração Superficial” explica que ao usarmos uma nova tecnologia não trocamos imediatamente de um modo mental para outro, porque o nosso cérebro não funciona como um sistema binário. Uma tecnologia intelectual, escreve, exerce sua influência deslocando a ênfase do nosso pensamento, padrões de atenção, cognição, memória. À medida que o cérebro se adapta à nova mídia, também desenvolve respostas que serão conhecidas somente em longo prazo. Deveríamos perguntar: o que ocorrerá com a forma como estamos lendo, escrevendo, pensando?  Desde que os sumérios inventaram a escrita cuneiforme, possibilitando um maior controle sobre a economia, a humanidade deu vários saltos tecnológicos, criando novos símbolos e também novas concepções mentais. A linguagem e a fala são instrumentos que participaram do processo de cognição da espécie, entendida na forma de elaborar o conhecimento. Como explica Jefferson Azevedo, a história da linguagem é uma história da mente.
 
“- A internet e as redes sociais digitais utilizam-se de mecanismos que estimulam nosso aparato sensorial e cognitivo e, também, o sistema límbico, parte mais primitiva do cérebro, onde se originam sentimentos primários e instintivos, responsáveis pela autopreservação, como lutar ou fugir”.
 
Nova maneira de ler: pulando
 
Nicholas Carr argumenta que a internet descarrega o tipo de estímulo sensorial e cognitivo –repetitivos, intensivos, interativos e aditivos (viciantes) - que já foi demonstrado como provocadores de fortes e rápidas alterações dos circuitos e funções cerebrais. Por exemplo: como os usuários de internet leem? Simples, eles não leem. Eles permanecem 10 segundos numa página e já trocam. Carr cita uma pesquisa de uma empresa israelense que vende software para empresas interessadas em perfis de consumidores, realizada com um milhão de usuários em vários países. A maioria deles permanecia entre 19 e 27 segundo antes de trocar de página, e quando liam um artigo, no máximo duas páginas, e novamente trocavam. Trata-se de uma nova maneira de ler “por cima” e pulando. “estamos evoluindo de seres cultivadores de conhecimento pessoal para seres caçadores e coletores de dados eletrônicos”, define Nicholas Carr.
 
Tudo isso é muito interessante, mas na verdade é somente uma nova faceta do capitalismo, e como tal sempre tem os proprietários da tecnologia. No caso do Google, por exemplo, o criador Larry Page considera que o cérebro humano e o computador funcionam da mesma maneira. Não custa lembrar, como esclarece Fritjof Capra em A Teia da Vida que nós pensamos com emoções, baseados na experiência de vida e conectado com o ambiente. Porém, o gigante transnacional Google fatura os anúncios que os internautas ajudam a vender – quanto mais cliques, maior o faturamento. Segundo Carr na Googleplex, a sede da empresa no Vale do Silício, está sempre atrás de algoritmos perfeitos que conduzam os movimentos mentais dos usuários para determinado objetivo.
 
Cibernética inventada pelos militares
 
Também não custa recordar que a cibernética foi inventada pelos militares norte-americanos durante a segunda guerra mundial e toda a concepção de linguagem e de comandos está relacionada com a tecnologia de guerra. Última citação de Nicholas Carr:
 
“- Podemos supor que os circuitos neurais dedicados a vasculhar, passar os olhos e executar multitarefas estão se expandindo e fortalecendo, enquanto aqueles usados para a leitura e pensamentos profundos, com concentração continuada, estão enfraquecendo e se desgastando”.
 
O professor Valdemar Setzer, da Escola de Matemática e Estatística da USP é um dos maiores críticos da televisão, como veículo de comunicação, principalmente em relação às crianças e adolescentes, inclui também os jogos eletrônicos. Tem um extenso trabalho de pesquisa e divulgação sobre a influência maléfica desses meios nas mentes dos jovens. Ele insiste em uma questão fundamental: todos os meios eletrônicos, incluindo a internet, tem um efeito absolutamente garantido – aceleram o desenvolvimento, especialmente, o intelectual e o emotivo.
 
Aceleração de todo tipo de sentimento
 
O imediatismo das redes sociais, a troca de mensagens em massa, os grupos formadores de opinião se transformaram em uma nova forma de socialização, se é que podemos definir desta maneira. O que é evidente é que há uma aceleração de todo tipo de sentimento e de emoção, além é claro, da ansiedade, da raiva e do ódio. É o pacote completo do espetáculo e da sociedade de consumo, as duas outras pontas do texto. O escritor francês Guy Debord escreveu “A Sociedade do Espetáculo” em 1967, como uma crítica direta contra a nova fórmula do capitalismo se expandir e alterar o comportamento das populações mundo afora. Selecionei algumas frases para ilustrar:
 
“- O espetáculo, compreendido, na sua totalidade é o resultado e o projeto do modo de produção existente. É o coração da irrealidade da sociedade atual. Sob todas as suas formas particulares de informação ou propaganda ou consumo direto do entretenimento, o espetáculo constitui o modelo presente da vida socialmente dominante. A forma e o conteúdo do espetáculo são a justificação das condições e dos fins do sistema existente. O espetáculo é a afirmação da aparência e a afirmação de toda a vida humana, socialmente falando, como simples aparência. O espetáculo é o mau sonho da sociedade moderna acorrentada, que ao cabo não exprime senão o seu desejo de dormir”.
 
Uma falsa realidade
 
O pesquisador Weligton Rodrigues da Paz, da Universidade de Goiás fez a sua tese de doutorado sobre a sociedade do espetáculo, a formação humana, mercado, tecnologia e cultura. O argumento central é o mesmo de Guy Debord: a forma contemporânea de organização capitalista da sociedade:
 
“- Sua concepção, além de reafirmar a natureza excludente e alienada da vida sob essa sociedade revela ainda como essa formação social produz e acentua a sujeição dos homens pelas coisas, mercadorias e imagens, reduzindo os indivíduos à condição de expectadores passivos, limitados a contemplação da sociedade, da história, da economia e do movimento geral do mundo por eles mesmos criados. São manifestações específicas de uma maneira de produzir, consumir e viver na qual a dominância pertence às coisas, ao valor abstrato da troca, às representações que a legitimam.”
 
Enfim: o espetáculo é a fase extrema do processo de alienação, presente na totalidade do mundo capitalista, na produção e no consumo, na política, na cultura e no lazer, mas antes nas relações sociais e na relação do indivíduo consigo mesmo e com sua vida. O espetáculo impõe uma falsa realidade, uma redução da vida humana e social à simples aparência, com a mediação dos meios de comunicação, servem como mediadores indispensáveis à ordem social, fundada no afastamento e na separação. O que transmitem são ‘ordens’, que serão analisadas e defendidas pelos mesmos que as produzem.
 
Ainda citando Weligton Rodrigues da Paz :
 
“- Liquidaram com a inquietante concepção, que predominara por mais de 200 anos, segundo a qual uma sociedade pode ser criticada e transformada, reformada e revolucionada. Os especialistas a serviço do espetáculo substituíram os espaços ainda autônomos, comunidades em geral, associações ou instituições em que ainda havia algum espaço para o debate, a dúvida, a contestação”.
 
O planeta tem ‘americanos’ demais
 
Quem executou nos últimos anos este modelo de sociedade do espetáculo e do consumo, como um estilo de vida. Claro, os Estados Unidos, tendo a cidade de New York como a Meca da mercadoria, e como objetivo principal na vida dos “coisa”. Em 2014, este cidade recebeu 56,4 milhões de turistas e faturou 62 bilhões de dólares. Os brasileiros contribuíram com 965 mil turistas. O Brasil, no entanto, é o país que mais manda turistas para Miami – 755 mil no ano passado, que deixaram lá quase dois bilhões de dólares – atualmente moram 250 mil brasileiros na cidade. O centro do espetáculo recebe mais de 12 milhões de turistas anualmente. Somente este fato, já serviria como impulso para a divulgação do tal estilo de vida. Ocorre, como escreve o jornalista e crítico do The New York Times, Thomas Friedman em “Quente, Plano e Lotado”, o planeta já suporta um contingente acima de um bilhão de “americanos”, contando a Europa, Japão, Oriente Médio, e agora partes da China, Índia, Brasil, que reproduzem os mesmos valores:
 
“-Lembre-se o que deve ser observado não é o número total de pessoas no planeta, e sim o número de ‘americanos’. Este é o número chave e vem crescendo de forma consistente. Eu não censuro os cidadãos de Doha (capital do Catar), ou de Dalian (cidade do nordeste da China, considerada o Vale do Silício local) por aspirarem a um estilo de vida americano, ou por optarem erguê-lo sobre fundações de combustíveis fósseis baratos assim como nós fizemos. Nós inventamos esse sistema. Nós o exportamos. Americanos brotam em toda a parte nos dias de hoje, de Doha, Dalian, de Calcutá a Casablanca, passando pelo Cairo, mudando-se para bairros em estilo americano, comprando carros em estilo americano, comendo fast food no estilo americano e produzindo lixo em níveis americanos. O planeta nunca viu tantos americanos”.
 
A piração dos coisa
 
Friedman também se arrepende de ter acreditado, como a geração que nasceu depois da segunda guerra mundial, que “seria uma coisa boa se todos pudessem viver como nós. Nós queríamos que todos se convertessem ao estilo americano, embora na realidade nunca pensássemos sobre as implicações disso. Bem, agora sabemos”.
 
A competição exacerbada, as novas gerações dispostas a fazer qualquer coisa para manter o estilo, incluindo roubar e matar, para ter o tênis da moda, e condenando milhares de jovens à morte como ocorre no Brasil. A transformação dos seres humanos em “coisas”, também é abordada pelo escrito Istvám Mészáros autor de “A Teoria da Alienação em Marx”:
 
“- A alienação caracteriza-se, portanto, pela extensão universal de ‘vendabilidade’, a transformação de tudo em mercadoria, pela conversão dos seres humanos em ‘coisas’, para que eles possam aparecer como mercadorias no mercado...e pela fragmentação do corpo social em indivíduos isolados, que perseguem seus próprios objetivos limitados, particularistas, em servidão à necessidade egoísta, fazendo de seu egoísmo uma virtude em seu culto da privacidade”.
 
O problema maior é que uma parcela abastada dos “coisa” está liberando o sistema límbico cerebral no Brasil e está prestes a executar o ódio que tanto promete e divulga. Por isso, a piração dos “coisa” acabará se convertendo em tragédia.   
 





Conteúdo Relacionado