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Política

2017, o ano que não deveria ter existido

O Brasil termina o ano com a cara no chão. Desolado, fraturado, repleto de ressentimentos e sem nenhuma perspectiva. Confira entrevista com Ricardo Antunes

29/12/2017 16:42

 

 
O Brasil termina o ano com a cara no chão. Desolado, fraturado, repleto de ressentimentos e sem nenhuma perspectiva para o próximo período. Na entrevista que encerra o ano, o Correio da Cidadania conversou com o sociólogo do trabalho Ricardo Antunes, professor e pesquisador da Unicamp. Para definir o momento, ele atualiza o conceito da “contrarrevolução preventiva”, alusão ao golpe militar de 1964 e que ocorre em escala global, ainda que não vivamos uma era revolucionária.

“Uma derrota profunda dos movimentos populares, sociais, dos partidos de esquerda, dos trabalhadores e até da luta democrática. Vivemos no Brasil de hoje um ‘Estado de Direito de Exceção’. E isso significa que a justiça burguesa é conivente com tal estado e o aparato repressivo usado violentamente”, resumiu.

Ainda que não haja mal que dure pra sempre, não será fácil criar as articulações necessárias contra o referido “estado de exceção permanente” que se desenha, onde se reforçam, no caso brasileiro, a “politização do judiciário e a judicialização da política”. 

Mesmo porque, nas fileiras que poderiam liderar as pautas favoráveis à população que vive do trabalho, o peleguismo das centrais sindicais atinge patamares inacreditáveis, como novamente se viu na greve que não houve neste começo de dezembro.  

“Lula insiste que para governar o Brasil deve-se aliar a deus e ao diabo na terra do sal. Obviamente, isso deslegitimou o PT. Perguntam: ‘mas por que o Lula tem tanta intenção de voto?’ Porque a população sabe que entre os equívocos cometidos pelo PT e a devastação social do Temer há alguma diferença. Há uma diferença na desmontagem mais ‘suave’ e a brutalidade da devastação de Temer”, explicou. 

O quadro é duríssimo e as marcadas divisões sociais voltaram com força total, como demonstraram os conservadores e sua considerável má fé em relação à ideia de corrupção. 

“Caminhamos celeremente para uma ‘indianização’ do país. Vamos nos tornar um país com a miséria do tamanho da Índia, que é brutal e combina um sistema perverso de castas e classes, exploração, superexploração, espoliação, naturalizando a miséria de centenas de milhões de pessoas, tratadas de forma inferior... Vemos coisas assim e o que dizem as classes médias conservadoras? ‘Tirem os pobres do meu portão’”, afirmou.

A entrevista completa com Ricardo Antunes pode ser lida a seguir.

Correio da Cidadania: Como resumir o Brasil de 2017 em suas principais esferas?    

Ricardo Antunes: Foi o ano que talvez não deveria ter existido. Vivemos uma regressão de tal intensidade que não é absurdo fazer paralelo com a ditadura e o golpe de 1964. Claro que o contexto e o capitalismo são diferentes, assim como as lutas sociais, a história e conjuntura, mas é possível lembrar, como dizia Florestan Fernandes, e tenho usado muito tal ideia, da “contrarrevolução preventiva” no Brasil, mesmo sem haver risco de revolução.

2017 consolidou a contrarrevolução preventiva dada pelos conjuntos dos capitais, suas ramificações financeira, bancária, comercial, de serviços, agroindústria, pelas corporações em geral. Encontraram na contrarrevolução com Temer a possibilidade de extinguir o ciclo de conciliação de classes, positivo aos capitais por longo período, em especial nos dois primeiros governos Lula e parte do primeiro governo Dilma.

Mas a partir de 2013-14 e o avanço da crise econômica nos países da periferia, mesmo que os intermediários como Rússia, Índia, África do Sul, México, Brasil, sofremos as consequências mais profundas da crise econômica que havia avassalado o centro do sistema capitalista. O resultado foi decisivo para tais frações das classes dominantes, primeiro, definirem que, como sempre, o ônus seria jogado em cima dos ombros da classe trabalhadora. De modo que agora lidamos com a contenção de gastos em saúde, educação, previdência, flexibilização e corrosão da legislação do trabalho, com a terceirização total e a nova legislação trabalhista que não fez outra coisa senão legalizar todas as burlas que o empresariado tentava emplacar sobre a CLT. Basta ler nos textos da nova lei como se tenta, parágrafo por parágrafo, desmantelar o que está escrito na CLT. Assim, num contexto de crise profunda, interessava primeiro impor o negociado sobre o legislado, perdendo o patamar mínimo de direito trabalhista. Com isso, a porteira ficou aberta e animais de todo tipo vão passar, como disse um juiz do trabalho.

Em segundo lugar, o decreto que desvertebra a CLT introduz o elemento mais nefasto do capitalismo de hoje, o incentivo ao trabalho intermitente. Passaremos a ter uma classe trabalhadora disponível para o trabalho o tempo todo, a receber quando trabalhar e perecer quando não o fizer. A experiência do zero hour contract na Inglaterra já demonstra isso. O empregador não é obrigado a chamar o empregado, e este não é obrigado a atender a eventual chamada. Uma vez que atendeu, recebe apenas por aquele trabalho específico. O exemplo do Uber, em expansão, é a tendência em ampliação. 

Como estou trabalhando no meu próximo livro, que tem como título “O Privilégio da Servidão”, isso é o que está se criando em escala global: se os trabalhadores jovens tiverem sorte, no futuro imediato, serão servos. Intermitentes, informais, precarizados, numa miríade de trabalhos que assumem a forma de “autônomos” e “independentes” para, na verdade, mascarar os trabalhadores assalariados que de fato são. 

E o decreto do Temer ainda tem embutida a desestruturação e, no limite, a eliminação da Justiça do Trabalho no Brasil. É de assustar, porque a Justiça do Trabalho foi criada por Vargas no Brasil para incentivar a conciliação de classes, e a contrarrevolução preventiva do governo Temer está em sintonia com a agenda de imposição dos grandes capitais (afinal, é um governo terceirizado, um gendarme, fantoche obediente aos grandes capitais que movem seus fios) para acabar com a política de conciliação de classes. 

Correio da Cidadania: O que o governo Temer e o Congresso que o acompanha em ideias e práticas representam, de fato, em termos estruturais?

Ricardo Antunes: É preciso reconhecer a qualidade política que Temer demonstra. Ele conseguiu consolidar uma maioria parlamentar, na expressão mais pantanosa da história deste parlamento, de onde o próprio é cria e, portanto, nada muito bem nas águas deste pântano. Mais que isso: conseguiu alterar a seu favor peças importantes no Supremo, fundamental para dar-lhe margem de manobra jurídica no plano máximo possível. E conseguiu inclusive alterar o comando da Polícia Federal, o que mostra capacidade política. “faço o que vocês (os capitais) mandam, mas preciso de apoio do legislativo e do judiciário, além do aparato repressivo”. E conseguiu, como vimos ao se livrar de dois processos de impeachment, a ponto de seu atual ministro tentar denunciar criminalmente o Janot. Vejam a que ponto se chegou. 

Portanto, 2017 é o ano que não deveria ter existido. Uma derrota profunda dos movimentos populares, sociais, dos partidos de esquerda, dos trabalhadores e até da luta democrática. Vivemos no Brasil de hoje um “Estado de Direito de Exceção”. E isso significa que a justiça burguesa é conivente com tal estado e o aparato repressivo usado violentamente. 

Nesses dias vimos na Argentina uma violenta repressão do aparato repressivo argentino, contra movimentos sindicais, operários etc. que lutam contra as “reformas” similares às do governo Temer.

Correio da Cidadania: Por que o discurso e os protestos contra a corrupção desapareceram, a seu ver?

Ricardo Antunes: Aquilo foi fundamentalmente um álibi para, digamos, destituir o governo do PT. As classes médias conservadoras, as dominantes e em particular os aparatos midiáticos que jogaram todo seu peso no golpe que levou à deposição da Dilma sabiam que o PT tinha cometido um erro que, ao nascer, dizia que iria combater. Com todas as suas limitações que sabemos, sua proposta visava a combater a corrupção e esse era um dos traços distintivos que o PT dizia ter em relação aos chamados partidos da ordem.

Com o mensalão e a consolidação de afinidades eletivas e perigosas com o grande empresariado, em especial da construção civil, se evidenciou que o PT caíra na vala comum, onde o PMDB domina e o PSDB, DEM e outros deste terreno pantanoso sempre dominaram. De 2003 a 2015-16, em linhas gerais, ao longo dos governos Lula e Dilma, era o PT quem tinha o controle do butim. Era quem fazia a distribuição aos partidos da base aliada, imaginando que poderia comandar e ter hegemonia no processo de distribuição das verbas públicas para garantir seu projeto político. O PT foi fagocitado porque, primeiro, não tem ou tinha ideia da força dos partidos de direita que há décadas praticam a corrupção. O PMDB mostrou: em meio à Lava Jato simplesmente turbinou e aumentou o ritmo da corrupção, como vimos no processo da JBS e da aparição do Rodrigo Rocha Loures e suas malas de dinheiro.

O segundo ponto: as classes médias conservadoras foram impulsionadas pela mídia. Não tem como não lembrar da Globo elogiando as manifestações e convidando as pessoas a irem em massa. A grande imprensa jogou pesado nas manifestações. E as classes médias têm uma duplicidade: de um lado, a ignorância dos que acham que a corrupção começou outro dia com o PT e que ao acabar com o governo deste partido estaria tudo bem. De outro lado, a má fé de quem tem a percepção da corrupção ser marcante na história brasileira e, mais que isso, deve ser exclusividade e território das direitas e “centrões”. 

Assim, era o momento de dizer “a corrupção é nossa, das direitas, o PT é estranho no ninho e deve pagar por isso”. Quem ingenuamente acreditou que o fim do PT era o fim da corrupção, está boquiaberto. As classes médias conservadoras e ideologicamente agressivas falam numa boa: “melhor o Temer fazer a devastação dos direitos coletivos e sociais do que o PT”. Porque pelo menos a corrupção se mantém entre os de sempre, mas os direitos sociais estão sendo devastados e é isso que para estes setores conservadores efetivamente importa.

E chegamos ao terceiro ponto: falta agora o desmonte e corrosão da previdência pública. Pasmem, o Brasil faz o caminho do Chile, que já privatizou sua previdência e de fato extinguiu uma previdência social segura e pública. E agora precisa republicizá-la. Porque previdência privada é sinal de calote. A população pobre, diga-se, porque os ricos são muito “previdentes”, têm investimentos, casas, grandes ações, recursos patrimoniais e fora do país incalculáveis, enfim, não têm nem mais onde guardar dinheiro, não precisam de previdência. 

O que aconteceu no Chile? Os pobres pouparam por 30 ou 40 anos na previdência privada e quando foram recorrer a ela estava falida, deixando-os sem nada. Sem falar no roubo da Petrobras, da Eletrobras, a privatização de tudo da Res-publica, tanto ao capitalismo ocidental como oriental. A China compra tudo que pode, daqui a pouco isso aqui vai ser uma colônia chinesa, de tanto que este capital entra aqui e disputa todo o butim com os demais grandes capitais estrangeiros.

Correio da Cidadania: Do lado daqueles que foram apeados do poder e se dizem de esquerda, o que você comenta?

Ricardo Antunes: Vou tentar responder por meio de dois pontos. Primeiro, a cúpula do PT e depois as ações de resistência. 

No primeiro caso, não deixando de reconhecer que há uma dissensão grande no interior do PT, como lideranças importantes no RS, a exemplo de Tarso Genro e Olívio Dutra, dentre muitos outros, ainda que com diferenças. Eles já manifestaram claramente a necessidade de a direção do partido pagar pelos erros cometidos. Disseram até na TV que não era para aquilo que tantos milhares de militantes criaram o PT. Tarso chegou a sugerir que faltava legitimidade à direção do PT. 

De todo modo, o mais assustador é Lula não fazer uma autocrítica. Em momento algum reconhece que se tentou conciliar o inconciliável, que deveria ser muito mais duro com os capitais... Pelo contrário, faz o mesmo! Até vimos recentemente a ideia de se convidar o filho do José de Alencar para reeditar a aliança policlassista que, de mais a mais, pode levar o próprio Lula ao cárcere. A ideia não deu certo aparentemente, mas depois apareceu como possibilidade o nome do Luís Carlos Trabuco, cujo nome já seria suficiente pra explicar o que viria. E só não tenta o Meirelles porque este agora está no outro bloco. Se pudesse, Lula reinventaria o “trabuco do Meirelles”. 

Qual o mínimo, só o mínimo, de autocrítica? Nada. Lula insiste que para governar o Brasil deve-se aliar a deus e ao diabo na terra do sal. Obviamente, isso deslegitimou o PT. Perguntam: “mas por que o Lula tem tanta intenção de voto?” Porque a população sabe que entre os equívocos cometidos pelo PT e a devastação social do Temer há alguma diferença. Só um tosco diria que não há diferença alguma. Aliás, foi por isso que a Dilma caiu. Tomou uma série de medidas duras de ajuste, mas seria impossível ela levar adiante a terceirização total, arrebentar a CLT, matar a previdência e congelar a correção mínima de investimentos públicos por 20 anos. A educação e a saúde já estavam na UTI, mas agora estão a caminho do inferno. As bases petistas e sindicais não permitiriam essa devastação comandada por um governo do PT. Há uma diferença na desmontagem mais “suave” e a brutalidade da devastação de Temer. 

Uma destruição é lenta, outra tem a máxima intensidade. Mas é importante recordar que a primeira tentativa de implantar o negociado pelo legislado foi proposta pelo Sindicato dos Metalúrgicos no governo Lula. Muitos criticaram, a ponto de se abortar a medida. Imaginava-se uma ilha sindical avançada num país socialmente destroçado. 

É complicado entender por que não há reação agora. Há uma taxa altíssima de desemprego. Se pegarmos a massa real de desemprego (incluindo o subemprego e o desemprego por desalento) temos praticamente 30 milhões de pessoas que vivenciam tais condições. Os assalariados percebem o risco que correm se fizerem greves, tornam-se candidato número 1 ao desemprego. 

Há toda uma manipulação da mídia comercial de que o país cresce 1%, o que na verdade é pífio e provavelmente tem muito mais conexões com o recebimento do FGTS meses atrás, permitindo a uma parte da população pagar dívidas, consumir um pouco mais, voltar a comprar um frango por semana, do que com a retomada da economia. Não se retoma economia com juros altos, retração do Estado e devastação generalizada. Não passa de mito pervertido dizer que acabar com a legislação do trabalho gera empregos. O que cria emprego não é a flexibilidade do trabalho, senão nem haveria desemprego nos EUA e Inglaterra, já que lá a flexibilidade é ampla. O que cria emprego é o movimento da economia, e isso tem a ver com cenário internacional, com a impulsão maior ou menor do Estado nos setores que puxam a produção. 

Correio da Cidadania: Como grande estudioso do mundo do trabalho e sindical, o que você comenta das centrais sindicais brasileiras e suas decisões, inclusive de cancelar a greve recente?

Ricardo Antunes: Para os trabalhadores, o movimento de greve tem de ter uma ação forte dos sindicatos, dos movimentos sociais (como o MTST, que é nosso movimento mais organizado e importante, como vemos no importante acampamento com cerca de 8000 famílias em São Bernardo e cuja vitória é importantíssima para a ampliação deste movimento e das lutas sociais e políticas no Brasil hoje). Em relação à greve, se não há engajamento das centrais sindicais fica difícil fazer uma paralisação forte. 

A paralisação deveria ter sido confirmada, como uma ação inicial para ir preparando uma paralisação mais forte ainda. Com as áreas mais organizadas sindicalmente fazendo uma ação de paralisação, criam-se espaços de debate para mostrar porque mesmo uma paralisação parcial é importante para derrubar medidas devastadoras. Poderia se explicar que sob a capa da diminuição de privilégios estão na verdade perpetuando-os, na medida em que um alto nível de calote do empresariado não é cobrado. Que a dívida pública real decorre dos juros pagos aos bancos. Que, uma vez aprovada a reforma de previdência privatista e pró-bancos e fundos privados de pensão, com a reforma trabalhista incentivando trabalhos intermitentes, onde a arrecadação do trabalho assalariado vai diminuir muito e, tudo isso tornará a previdência menos volumosa em termo de recursos, e sobre a sua privatização, que é profundamente nefasta em todos os sentidos. 

Hoje, a arrecadação sobre os assalariados é grande, o que falta é arrecadar dos altos e mais ricos estratos sociais, além de tributar os grandes capitais e lucros, a herança, os ganhos dos bancos etc. Algo sequer tratado nos governos do PT. Não houve tributação do capital financeiro, das heranças, longe disso, em muitas ocasiões foram diminuídos os impostos do grande empresariado pra gerar mais emprego. Mas fazer isso, por exemplo, em relação à indústria automobilística existe contrapartida: ao mesmo tempo em que (positivamente) se gera emprego, polui-se mais, incentiva-se a indústria de transporte e reduzem-se recursos extraídos da tributação para saúde, previdência e educação públicas. 

A população olha e diz: se eu lutar, sem apoio efetivo dos sindicatos e centrais que têm presença coloco minha cabeça a prêmio e ela será cortada. A pergunta é: por que as grandes centrais não querem fazer isso? Algumas centrais são diretamente apelegadas, negociam com Temer desde o começo. Outras são hesitantes. Veem suas bases diminuir, perdem espaço... E outras têm as dificuldades naturais por serem minoritárias. 

É preciso dizer ainda que a Reforma Trabalhista contempla o fim do imposto sindical. Em tese, eu sempre fui a favor disso. Mas não se pode acabar com tal imposto no momento em que os sindicatos vivem um desmoronamento, dado que suas bases assalariadas diminuem há tempos. Portanto, para garantir o imposto sindical, ou um novo mecanismo de arrecadação, tais centrais que convivem historicamente com o peleguismo usam a greve como pretexto. Aí aparece o Temer com suas mãos pululantes, acena com esse agrado e as greves sobem no telhado...

Há sindicatos e movimentos sindicais importantes, centrais que não entram na conciliação, há até sindicatos ligados à CUT insatisfeitos com a devastação e convivem com muito descontentamento das bases (quanto mais a CUT perde base, mais a Força Sindical e outras avançam neste espaço). Tudo isso cria uma disputa e a população sabe discernir qual central luta de fato e quais usam a luta para garantir o peleguismo. A CONLUTAS e a Intersindical têm dificuldades, pois ainda atuam parcialmente em setores da classe trabalhadora e sem força para ações de maior envergadura. A sua aproximação com os movimentos sociais politicamente mais organizados torna-se vital. 

Mas o cenário é difícil, ainda que não seja eterno. Estive na Argentina um mês atrás, a população discutia a reforma do Macri e seus riscos – esse paladino da devastação no país vizinho. E haveremos de ter situações como a desses últimos dias na Argentina em mais lugares. 

Aqui no Brasil a classe trabalhadora e as classes populares vivem risco iminente, muitos estão desempregados, famílias inteiras estão desempregadas. Notamos o número de famílias e crianças que morando nas ruas da cidade... Crianças!

Caminhamos celeremente para uma “indianização” do país. Vamos nos tornar um país com a miséria do tamanho da Índia, que é brutal e combina um sistema perverso de castas e classes, exploração, superexploração, espoliação, naturalizando a miséria de centenas de milhões de pessoas, tratadas de forma inferior... Vemos coisas assim e o que dizem as classes médias conservadoras? “Tirem os pobres do meu portão”.
 
Correio da Cidadania: O que pensa do lulismo a essa altura dos acontecimentos, considerando que Lula tenha possibilidades de participar da eleição de 2018?

Ricardo Antunes: Talvez seja um ponto que a contrarrevolução do Temer não tenha como evitar. Quanto mais ela avança, mais aquela população, mesmo aquela enfurecida com o fim dos governos Lula e Dilma, vai olhar pra trás e dizer: “olha, aquilo era ruim, mas o de hoje é muito pior”. É o calcanhar de Aquiles do governo Temer: quanto mais se aprovam suas contrarreformas, maior será o descontentamento, o que por certo favorece em alguma medida a Lula.

A reforma trabalhista, assim como as outras, foi aprovada sem debate. Pra desmontar a legislação protetora do trabalho o Temer fez discurso de que estava modernizando, melhorando, assim como na Previdência agora, com toda a desfaçatez possível. As pessoas não vão conseguir trabalhar por 25, 30, 40 anos, pois muitos terão trabalhos intermitentes, e vão ter de chegar aos 120 anos pra conseguir se aposentar pela fórmula do Temer. Isso é muito brutal, criminoso mesmo e por certo fortalece o Lula. 

Outra coisa: a população se dá conta do tratamento diferenciado que a Lava Jato concede a Lula e aos demais. Por exemplo: não há nenhuma dúvida de que o Aécio Neves praticou lobby com o empresariado, corrupto escolado e pós-graduado e que recebia dinheiro de forma direta. Se fossem as mesmas evidências com o Lula, ele já estaria na cadeia há muito tempo. Aécio está soltinho da silva, como dizia minha mãe. Agora começam a andar processos contra Alckmin e outros, o PMDB também, mas ainda de modo muito, muito lento em comparação ao PT. Qualquer trabalhador, que nem precisa de TV em casa, sabe que o tal Rocha Loures não era chefe de quadrilha, apenas executor.

Como diria Vicente Matheus, a operação Lava Jato é uma “faca de dois legumes”. Com o PSDB, é lenta e gradual. Com o PT, é ágil, lépida e esbaforida, como se vê na antecipação inédita do julgamento do Lula, em ato claramente político. Vemos, portanto, um processo esdrúxulo e nefasto: a judicialização da política e uma clara e incontestável politização do judiciário, como deixa inequívoco “aquele” ministro que recebe dinheiro público pra sua faculdade privada e toma as decisões que seus amigos requerem na hora que bem entende. 

Estamos num nível de degradação... O que aconteceu no jogo da final da Copa Sul-Americana entre Flamengo x Independiente é a fotografia do Brasil. Vivemos a devastação e corrosão total. Outra notícia impressionante é aquela que mostra que o PCC pretende aumentar em 40 mil o número de adeptos da sua organização. 

Tudo isso torna o país muito, mas muito imprevisível.

Correio da Cidadania: E, dentro dessa imprevisibilidade, o que é possível vislumbrar para 2018 e, a seguir nesta toada, nos próximos tempos?

Ricardo Antunes: É o seguinte: a eleição de fato ainda não começou. Raras eleições tiveram nomes que apareciam no topo das intenções de voto muito antes e terminaram eleitos. Tem muita coisa, muita pedra no meio do caminho. Já indicamos que Lula se beneficia muito do nível de elevação do pauperismo que o governo Temer promove. No entanto, Lula já mostrou até onde é capaz de levar sua conciliação. E também já mostrou até onde dá pra chegar mesmo quando as coisas parecem dar certo. Repetir isso parece um pouco tragédia, tem algo de farsa, salpicada com comédia. As direitas intensificarão a devastação, de Alckmin a Meirelles, para não falar da aberração Bolsonaro. E, é bom lembrar, Trump também parecia somente aberração... 

Existe ainda uma grande dificuldade das esquerdas em buscar alternativas junto aos movimentos populares, a suas militâncias. Talvez o exemplo mais forte hoje das lutas sociais seja o MTST. Há uma importante liderança que se consolida, com respaldo social e político. Mas há uma enorme dificuldade das esquerdas (para além do PT) em constituir possibilidades próprias. Falo do PSOL, PCB, PSTU e de pequenos grupos em seu entorno. 

Não há dúvidas de que, dentre estes, o PSOL é o mais forte eleitoralmente e possui mais presença social. Mas aquela disposição de pensar o conjunto de forças sociais do trabalho, sindicatos, periferias, que pudesse desembocar num polo alternativo, ainda parece inexistir. É compreensível, mas uma pena. Porque se as esquerdas pensam demais na luta parlamentar, não conseguem pensar numa ação política radical cujo eixo não seja o parlamento ou a institucionalidade, mas as lutas sociais extraparlamentares e extrainstitucionais. Não adianta ganhar as eleições, como Lula, e se deixar fagocitar pelo esquema dominante, pelos interesses que de fato dominam. 

Portanto, não adianta falar em “união das esquerdas” e impor seus nomes escolhidos a partir dos grupos majoritários de cada um destes partidos. O movimento deveria ser outro: buscar densidade nas lutas sociais, sindicais e políticas a partir das bases. E, a partir destes movimentos de massa, criar os canais necessários para que eles adquiram organicidade, estruturação e, aí sim, apresentá-los política e eleitoralmente, porém, com uma formulação de outro tipo, conquistada a partir das lutas populares, sindicais, das comunidades indígenas, dos negros, movimentos feministas, ambientalistas, LGBT, pela base e não pelas cúpulas. É positivo, dentro deste quadro difícil, o exercício iniciado pelo MTST e pelo Vamos. 

O desafio é enorme, até porque a contrarrevolução preventiva é global, brasileira, latino-americana, como vimos na Argentina, em Honduras, na recente vitória eleitoral da direita ultraconservadora do Chile. Tem o Trump nos EUA, tem a direita na Áustria, a eleição da França onde um neoliberal perigoso apareceu como freio à ultradireita... E não preciso ir a Itália, Hungria, Polônia... Essa onda vai passar, mas está aí hoje e é forte. 

Em 2010, 2012, estávamos numa era de rebeliões que não conseguiu se converter em era de revoluções. Agora vivemos a era de contrarrevoluções. Ela vai passar, mas as placas tectônicas estão batendo. E não sabemos que tipo de coisa sairá daí. É evidente que cresce a oposição nos EUA, o Bernie Sanders era um bom exemplo, cresce a oposição na Inglaterra através do Jeremy Corbyn, no Chile a esquerda próxima ao Partido Comunista e aliados atingiu 20% dos votos... Na própria França, Jean Luc Melenchon se mostrou eleitoralmente como uma alternativa à esquerda.

Vivemos uma nova fase, mais destrutiva, do ideário regressivo neoliberal, de completa hegemonia do capital financeiro. Nisto, a naturalização da miséria global é o empreendimento enfeixado pelas classes dominantes globais. Esta é o quadro, o cenário que os capitais querem construir. 

Por isso hoje há um movimento pesadíssimo, como mostra com muita competência a Virgínia Fontes, de grupos empresariais que vão fazer “trabalho voluntário” em escolas públicas pra introjetar o vírus da ânsia por acumular desde a mais tenra idade. Lembrando um artigo genial do jovem Gramsci, “as escolas não podem ser incubadoras de pequenos monstros”. O voluntarismo empresarial nas escolas públicas é pra fazer das crianças “pequenos monstros”. E até na TV vemos gente mostrando como crianças devem aprender a poupar e a acumular desde cedo. É o que estamos vivendo, ainda que não será eterno. Logo entraremos novamente num período muito tenso e de muita confrontação. 

Correio da Cidadania: Ainda sobre a esquerda e sua incapacidade de aglutinar um projeto de massas, há muita gente afinada a suas ideias fora desses partidos e grupos mais tradicionais, mas que não se aproxima, e não são apenas anarquistas. Não estaríamos diante de um momento onde elas estão um pouco atrasadas em alguns debates, aparecendo apenas reativamente e, em muitos casos, não se mostrando tão antissistêmica? 

Ricardo Antunes: Passa também por isso, diretamente. Se a maior parte do oxigênio das “esquerdas de esquerda” é, em última instância, destinado para ganhar o processo parlamentar e eleitoral, elas jogam no campo que Mészàros já considerava a “linha de menor resistência”. O boxeador mais forte chama o boxeador mais fraco pra lutar no campo dele. Os capitais chamam as oposições, inclusive de esquerda, a lutarem no campo onde o capital domina, isto é, o parlamento, as instituições burguesas. 

A institucionalidade brasileira está em decomposição, nas três esferas. Mas há também, e é muito importante enfatizar, um mosaico de movimentos sociais, sindicais, das periferias, das comunidades indígenas, negros, LGBTs, feministas, ambientalistas... Mas essa miríade de descontentamentos deve se esforçar ao máximo para buscar as interconexões fortes entre gênero e classe; entre etnia/raça e exploração do capital; entre a juventude desempregada e sua condição de classe, entre a questão ambiental e as lutas anticapitalistas, entre tantas outras. 

Um outro modo de vida torna-se um imperativo societal da classe trabalhadora ampliada e do conjunto dos movimentos sociais. O MTST, por exemplo, vem mostrando que a arquitetura das cidades brasileiras é de destruição social. O MST há décadas luta pela terra, pela produção sem transgênicos e sem agrotóxicos e as comunidades indígenas combatem pela preservação de suas terras, contra as tentativas de Temer para liberar a exploração dos garimpos. Estas são as lutas vitais, ponto de partida para uma política radical de outro tipo. 

Em síntese: não se criam alternativas orgânicas de um dia para outro. Vivemos uma fase de transição dentro do capitalismo, para uma fase ainda mais destrutiva. Vivemos uma fase de radicalização e aguçamento da destruição neoliberal e do saque financeiro. É por isso que o chamado “estado de direito” que hoje vigora é também um “estado de exceção”, só pode sobreviver exercitando os mecanismos de exceção. E faço o parêntese para lembrar que o “estado de direito” aqui mencionado nem de longe me parece o suprassumo societal. 

Num quadro com essa moldura não posso pegar minhas ferramentas fragilizadas e jogá-las fora. Porque aí fico sem nada, de vez. Reparem que o capital não joga nenhuma de suas ferramentas, mesmo as piores, na lata do lixo. Aparelhos midiáticos, religiosos, repressores, estatais, parlamentares... Ele não joga nenhum desses aparelhos fora. Eles configuram o lócus da dominação burguesa. E as lutas sociais, operárias e populares têm fundamentalmente três ferramentas: seus sindicatos, seus partidos e seus movimentos sociais. 

Os sindicatos têm um mérito: quando são de classe e defendem de forma intransigente suas categorias representadas. Essa é sua força, mas é também o seu limite. Os sindicatos dos professores, dos metalúrgicos, dos bancários, podem lutar pela defesa dos direitos de seus trabalhadores. Mas nem sempre conseguem pensar a categoria que representam como parte de um todo, da totalidade da classe trabalhadora. E frequentemente resvalam para uma defesa excessiva da categoria. A defesa da redução dos impostos da indústria automobilística é exemplo de sindicalismo com componentes corporativos, que defende a sua categoria, tem dificuldade de visualizar o conjunto. 

Os partidos: qual sua força? Se formos ver PSOL, PCB, PSTU, todos dirão que são socialistas, anticapitalistas e desejam uma mudança profunda. Será difícil encontrar alguém que veja no capitalismo algo humano, social. Qual a força deles? Eles sabem, em linhas gerais, a direção da estrada que deve ser tomada. Qual o limite deles? Serem muito voltados à institucionalidade, calendários eleitorais, tempo de televisão, como ter mais voto, e se começam a ser criticados por radicalizarem, logo começam a fazer concessões, amolecer e por fim se enfraquecem. Isso não vale para todos, mas ninguém está imune a estes riscos. Basta crescer para ver como eles aparecem. A sua força é o projeto de futuro, a fraqueza a vida cotidiana, o dia a dia.

Os movimentos sociais: mostram muita força na vida cotidiana. O MST faz ações importantes, luta pela reforma agrária, faz ocupações, luta contra os transgênicos, pesticidas, consegue imaginar uma produção não destrutiva. O MTST, com uma pujante atuação hoje, tem uma questão muito concreta: a arquitetura da destruição joga os pobres para a vida na lata de lixo nas cidades. Só há um jeito de sair das “habitações” onde a população periférica é atirada: ocupar. E há outros movimentos, do passe livre, de juventude periférica que estuda, contra barragens, comunidades indígenas que lutam pela preservação da água, do solo, da natureza... É a força dos movimentos sociais. Não podemos esperar que, entretanto, ofereçam um desenho de sociedade do futuro, anticapitalista e socialista, salvo aqueles que têm uma escola, uma formação para tal, como o MST tem. 

Essas forças todas não são excludentes e, sim, complementares. Buscar a organicidade entre elas, o que elas apresentam de decisivo, que é o sentimento que os assalariados pobres têm da vida cotidiana: quais as questões vitais do nosso tempo, que tocam na consciência da população trabalhadora. Você acha que a população está preocupada com a próxima eleição de vereador? Por favor. Se o voto não fosse obrigatório ninguém ligava. Não que eu seja contra, mas digo que é uma piada os partidos gastarem tanta energia disputando eleições e fazendo campanhas pra vereador, deputado etc. sem um programa anticapitalista que toque nas questões vitais. 

Não adianta falar do socialismo em termos abstratos. É preciso falar das questões vitais de hoje, dando concretude à proposta socialista. Se não formos capazes de fazer isso, os movimentos sociais e lutas populares farão, mas num tempo maior. É o desafio, talvez, mais crucial.

Por fim, tratamos muito das dificuldades das esquerdas. Mas tem o lado de lá. Quem imagina que o capitalismo vai bem, obrigado, sem tensões, tampouco tem ideia do que fala. Porque a inconstância se tornou traço dominante do nosso tempo. Tudo que parece sólido pode derreter. Significa que não temos previsibilidade e certezas históricas. A única certeza é que “a história é a realização cotidiana de embates fundamentais entre classes sociais que se antagonizam”. 

A ideia de que a classe trabalhadora acabou é risível. Não há nenhum burguês que não saiba que é burguês. O Lukács diria que é empiricamente constatável pela burguesia a existência do ser burguês e da condição burguesa de classe. O que não temos conseguido entender é que a contradição do nosso tempo é, por um lado, a contradição entre o capital social total versus a totalidade do trabalho social. É o desafio crucial. A totalidade do trabalho social é a luta dos assalariados, da classe trabalhadora no sentido mais preciso, a luta das classes trabalhadoras, também daqueles que trabalham, mas não propriamente assalariados, como camponeses, indígenas, ribeirinhos, e as lutas sociais dos movimentos dos negros, mulheres, ambientalistas, LGBT... Mas é preciso conectá-las com um olhar para além do capital.

O desafio está aí. Se não tivemos, no conjunto de ações, este olhar e estes pontos de conexão tudo ficará mais difícil. 


Gabriel Brito é jornalista e editor do Correio da Cidadania.



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