Política

A pesquisa que a mídia não mostra

Voltamos a uma estabilidade do quadro similar à que tínhamos antes da morte de Eduardo Campos, mas agora com índices diferentes para as candidaturas.

18/09/2014 00:00

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Créditos da foto: Arquivo


As manchetes dos jornalões do dia 17 de agosto estampam em letras garrafais interpretações dos resultados da última pesquisa do IBOPE. Adornada na capa por um enxoval de notícias desfavoráveis à candidata do PT, a manchete anuncia: “Dilma perde pontos nos dois turnos da eleição”. O subtítulo diz: “Vantagem da petista para Marina Silva diminui; Aécio sobe quatro”. O Estadão traz manchete similar: “Dilma Cai, Marina estaciona e Aécio sobe, aponta Ibope”.

Nos dois jornais, mas principalmente no Globo, a notícia é fonte de um sem número de comentários acerca da má performance da candidata do PT e das chances renovadas de Marina e Aécio. Mais uma vez, essas mídias prestam um desserviço aos cidadãos brasileiros ao darem publicidade a somente um tipo de interpretação dos dados, mais especificamente, ao tipo que distorce a realidade para acomodar suas expectativas. Outra interpretação é possível, e é isso que tento mostrar brevemente abaixo.

A tão alardeada queda de Dilma é na verdade uma flutuação de 3% que está dentro da margem de erro declarada pelo IBOPE, que é de mais ou menos 2%. Vejamos, Dilma tinha 39% na pesquisa passada, do dia 12 de setembro, ou seja, seu intervalo de confiança ia de 41% a 37%. Agora marcou 36%, isto é, seu intervalo é de 34% a 38%. Assim, como os intervalos se intersecionam, de 37% a 38% é possível que as intenções de voto na candidata tenham ficados rigorosamente estáveis e somente o instrumento de aferição, a pesquisa, tenha variado. Rigorosamente, a margem de erro estimada pelos institutos é um chute, pois a metodologia de cotas, usada por eles na coleta de dados, não propicia o cálculo preciso da margem de erros, por não trabalhar com uma distribuição aleatória de entrevistados. Em outras palavras, a margem pode ser ainda maior.
 
Mas deixemos essas tecnicalidades de lado.

Outra maneira de avaliarmos o resultado de Dilma nessa pesquisa é comparar com outras pesquisas, como a do Datafolha. Ao fazer isso notamos que o resultado do IBOPE para Dilma agora bateu com o da pesquisa do outro instituto, 36%, em pesquisa coletada há uma semana. Esse dado aponta na verdade para a estabilidade do índice de Dilma, e não para uma tendência de queda. Em outras palavras, os 39% de Dilma na pesquisa anterior do IBOPE talvez estivessem um pouco superestimados.

Por fim, há que se considerar o fato de Dilma ter permanecido estável depois de uma semana em que sua campanha encetou ataques pesados contra a candidata Marina Silva. A literatura de estudos eleitorais é unânime em apontar para os riscos de se assumir uma posição ofensiva na campanha, ainda que tal opção às vezes seja inevitável. 

Já no front da candidatura do PSB, a flutuação de 1% para baixo, totalmente dentro da margem de erro da pesquisa, não deve ser motivo de comemoração. Marina de fato parou de crescer já no começo de setembro e, desde então, parece estar perdendo um pouco a preferência do eleitor. O segundo turno aponta empate técnico com Dilma, resultado que repete a pesquisa passada e que é diferente das duas pesquisas anteriores, dos dias 26 de agosto e 3 de setembro, nas quais vencia Dilma por margem de 9% e 7% pontos, respectivamente.

Por fim vem Aécio Neves, que antes tinha 15% e agora 19%, crescendo, ainda que no limite da margem de erro. É difícil, contudo, não ver esse crescimento do candidato do PSDB como um voo de galinha, a duas semanas do abate. Lideranças importantes de seu partido já manifestam intenção de apoiar Marina no segundo turno e sua base de alianças regionais foi muito enfraquecida pelos índices medíocres de intenção de voto que o candidato tem conseguido até agora. Aécio precisa de um milagre para ir ao segundo turno e por um momento sua campanha pareceu crer que o depoimento de Paulo Roberto Costa, com o apoio luxuoso da grande mídia, poderia se transformar em instrumento para dinamitar Dilma e Marina. O primeiro round da campanha partidária-midiática já ocorreu, com lançamento do “escândalo” pela Revista Veja e reverberação nos jornalões por dias, a despeito da falta total de informações. Mas o resultado não é dos mais animadores.

A desconstrução de Marina Silva não ocorreu na intensidade sonhada pelas campanhas do PT e do PSDB. E os ataques diários à Dilma, nas páginas de todos os jornalões, parecem atingir um limiar a partir do qual não surtem mais efeito eleitoral. Voltamos a uma estabilidade do quadro similar à que tínhamos antes da morte de Eduardo Campos, mas agora com índices diferentes para as candidaturas. A grande diferença em relação ao quadro anterior não está nas intenções de Dilma, que permanecem muito estáveis, flutuando entre 36% e 39%, mas na troca do segundo lugar. Marina ultrapassou o PSDB e cresceu muito mais às custas de capturar o voto dos indecisos e daqueles que declaram vota nulo ou em branco do que propriamente de roubar votos de Aécio. Houve de fato uma migração da intenção em Aécio para Marina, mas ela não foi grande.

É razoável supor que as intenções de voto em Dilma são as mais resilientes. Isso porque a candidata, por ser presidente há quatro anos e ser de longe a personalidade mais noticiada pela mídia, ainda que de maneira predominantemente negativa, já é fartamente conhecida do eleitorado. Ou seja, quem diz que vai votar em Dilma teve tempo e informação suficiente para fazer sua opção.

O eleitorado de Aécio tem também um forte elemento de resiliência. Aécio é bem conhecido e concorre pelo segundo partido mais conhecido por parte dos eleitores.
 
É razoável arriscar que o núcleo duro de seu apoio eleitoral seja composto de pessoas com mais forte inclinação ideológica liberal, antipetistas convictos e elitistas de vários matizes.

A mesma resiliência não deve ser atribuída ao eleitor de Marina. Se como personagem Marina é talvez tão ou mais conhecida que Aécio, ela concorre por um partido que não tem identidade forte frente ao eleitorado. Sua plataforma, que combina posições liberais com outras típicas da esquerda, mais uma forte dose de antipolítica, é um smorgasbord onde se servem eleitores de gostos variados. Há os mais liberais, que desconfiam das bandeiras esquerdistas, há ex-simpatizantes do PT frustrados, que se fazem de mortos frente à agenda neoliberalizante do programa de Marina, há muita gente descrente da política em geral, seduzida pelo discurso do “novo”, ex-indecisos, ex-voto nulo, ex-voto em branco.

Se nada de catastrófico acontecer, e experiência nos mostra que essas coisas de fato acontecem, a estabilidade das intenções de voto vai nos conduzir para um segundo turno entre Dilma e Marina. Marina terá mais tempo de televisão, o que é bom para sua campanha, mas ao mesmo tempo arriscado, pois as contradições internas de sua candidatura e seu caráter conjectural (vender o que ainda não há) vão estar mais expostos. A seu favor, a candidata do PSB terá toda a grande mídia, que faz campanha sistemática contra o PT. Contra ela, agora tecnicamente empatada com Dilma, há também a resiliência do eleitorado filo-petista. Dilma, por seu turno, terá que sobreviver ao inferno da campanha midiática contrária, ainda que ela e seu partido já tenham desenvolvido uma casca grossa nesse quesito. A seu favor, tem um eleitorado mais cativo e a fluidez do eleitorado de Marina. Sua estratégia deve ser a de continuar a explorar as contradições do discurso da adversária, ao mesmo tempo tentando desconstruir parte da rejeição a seu nome e ao PT, implantado na cabeça de tantos, após tantos anos de campanha midiática antipetista. Em suma, não está fácil para ninguém.

(*) João Feres Junior é cientista político, professor do IESP/UERJ e da UNIRIO e coordenador do Manchetômetro, website de acompanhamento da cobertura midiática das eleições 2014 do Laboratório de Estudos de Mídia e Esfera Pública (LEMEP/IESP/UERJ).



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