Política

O medo de Magnoli e da Folha: a calúnia e a difamação do ofício de historiador

Demétrio Magnoli escreveu em sua coluna o artigo Formação de quadrilha, no qual, mais uma vez historiadoras e historiadores são atacados violentamente.

01/07/2016 00:00

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Após a organização voluntária e colaborativa de integrantes do grupo Historiadores pela Democracia, que busca explicar os últimos acontecimentos que levaram ao afastamento da presidenta Dilma Roussef e a atual crise política do país, o Jornal Estadão lançou um editorial atacando profissionais da História e a própria História com inverdades, tentando, de maneira vil, manipular ideias descontextualizadas para desmoralizar nossa categoria. Em resposta a esse ataque, nós, historiadoras e historiadores matriculados no Programa de Pós-graduação em História da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) 2016, lançamos o texto O medo do Estadão, pela Carta Maior. Dias depois, Demétrio Magnoli escreveu em sua coluna o artigo Formação de quadrilha, no qual, mais uma vez historiadoras e historiadores são atacados violentamente.
 
No texto, o autor tenta indicar alguns princípios do nosso ofício. Já que não é historiador de formação (nem vocação), nosso dever é ajudar Magnoli a entender que a tarefa do historiador não se resume a “reconstruir” o passado. Nossa tarefa é sobretudo interpretá-lo, explicá-lo, considerando as forças, os poderes e as tensões dos acontecimentos, sem perder de vista a ética e a busca da verdade. Além da literatura sobre o ofício do historiador, recomendamos vivamente a leitura do artigo-resposta da historiadora Silva Lara.  
 
Magnoli afirma que “todos tem o direito de se manifestar sobre a cena nacional”, contudo, recorre ao termo “bando” para se referir a diversos profissionais da História, cujas visões de política e metodologia histórica são muito diferentes e que não podem ser agrupados, senão pelo fato de serem historiadores e por defenderem a democracia. Ao criar essa unicidade, o autor apresenta seu texto como verdade absoluta, recurso extremamente fascista.
 
Assim como a verdade absoluta é inatingível, o partido que supostamente a detém não existe. Em história, como ressalta a professora Silva Lara, costumamos usar o plural em nossas narrativas. Ainda que cada um de nós tenha o direito constitucional de se filiar ou seguir partidos, com ou sem alinhamentos partidários costumamos ser críticos a todas as ações que vão contra a garantia da democracia, dos direitos humanos e dos interesses do povo. Com essa postura não somos reféns de perspectivas manipuladoras nem de um lado, nem de outro. Criar essa falsa sensação de que somos o “lulopetismo”, o “esquerdopata”, o “petralha”, a “feminazi”, revela a dificuldade que Magnoli tem de compreender a pluralidade e os valores que carregamos.
 
Para o autor, ainda, usar a expressão “presidenta da República” evidencia uma “natureza político-partidária”. O recurso a essa expressão indica muito mais: primeiramente, a correta flexão nominal de um substantivo que nunca antes tinha sido usado no gênero feminino e agora já consta em dicionários; em segundo, não é partidário, pois sim, a presidenta Dilma ainda é a presidenta eleita do país, apesar de temporariamente afastada.
 
Estamos em tempo de alertar Magnoli que a luta que travamos é pela garantia dos direitos da população mais pobre e dos trabalhadores: a luta de classes não é corporativista. Os grandes meios de comunicação, esses sim, uma corporação, partem de posições ideológicas totalitárias e viabilizam, como temos visto o “golpe branco em andamento, como reação conservadora às mudanças da sociedade brasileira”, como afirma Hebe Mattos em sua resposta ao texto depreciativo e violento de Demétrio Magnoli.
 
Nossa postura, na condição de historiadoras e historiadores matriculados no Programa de Pós-graduação em História da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) 2016 é o de denunciar o golpe, defender a democracia, os direitos recém-conquistados da população pobre e da classe trabalhadora (que integramos), defender os direitos humanos, exigindo a responsabilização judicial do autor e do jornal que vincularam o artigo Formação de Quadrilha. Como sabemos, “formação de quadrilha” é crime previsto no Código Penal de 1940, sendo que em 2013 a redação do artigo 288 do decreto-lei 2.848 daquele ano foi alterada para “associação criminosa”. Se referir à “formação de quadrilha”, portanto é evidenciar que existe algum tipo de “associação criminosa” com a finalidade de cometer crimes. Exigimos que Magnoli e a Folha de São Paulo sejam julgados e responsabilizados. Na tentativa de nos criminalizar sem apresentar qualquer indício que sustente a rasteira acusação, cometem calúnia e difamação.
 
Por fim, fazemos coro com Silva Lara:
 
Todos nós temos um lugar – e aqueles que lutaram pela pluralidade e pela diversidade poderão estar juntos, mesmo sendo diferentes.
 
O nome disso é democracia.
 
A história tem exemplos dolorosos desse tipo de comportamento – basta lembrar textos e atitudes de alguns jornalistas, militantes e intelectuais da Alemanha ou da Itália nos anos 1930.
 
O nome disso é fascismo.”
 
Fora Temer!



Guarulhos, 29 de junho de 2016.
Historiadoras e Historiadores matriculados no Programa de Pós-graduação em História da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) - 2016.






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