26/04/2010 - Copyleft

1932: revolução ou golpe?

por Emir Sader em 26/04/2010 às 02:38



As declarações do Lula no Sindicato dos Metalurgicos de São Bernardo, afirmando que o movimento de 1932 em São Paulo foi um golpe e não uma revolução, acompanhado da constatação de que nenhum espaço público de importância leva o nome de Getúlio, o estadista mais importante do Brasil no século XX, têm uma dupla importância.

Em primeiro lugar, representa uma autocrítica de uma geração de sindicalistas muito hostil ao Getúlio nas suas origens e por um bom tempo. Nascida para a política durante a ditadura militar, aquela geração de sindicalistas desenvolveu forte ojeriza contra o Estado, no que assimilavam desde o regime militar até o sindicalismo nascido com Getúlio, incluindo a oposição ao imposto sindical e ao atrelamento dos sindicatos ao Estado através dele.

Lula reconheceu, a partir da análise comparativa da história brasileira, da sua própria experiência de governo e da atitude da oposição ¿ incluindo a imprensa de direita ¿ as similitudes com a luta do Getúlio. A trajetória da esquerda brasileira entre Getúlio e Lula ¿ que eu analiso no primeiro capítulo do livro ¿O Brasil, entre o pasado e o futuro¿, que organizei com o Marco Aurélio Garcia, publicado pela Boitempo e pela Perseu Abramo ¿ é o fio condutor para entender o Brasil de hoje e a história do movimento popular brasileiro. A inauguração de uma auditório com o nome de Getúlio Vargas no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, representa esse importante resgate e a reivindicação da luta nacionalista histórica no Brasil com as lutas contemporâneas contra o neoliberalismo.

No entanto, uma outra conotação é tão importante quanto essa. O movimento de 1932 representou uma tentativa da elite paulista de recuperar o poder, arrebatado pelo Revolução de 1930, que representaria a mais importante e mais popular transformação política que o Brasil teria ao longo de todo o século passado. O movimento tinha um sentido claramente elitista e separatista, com o lema ¿Non ducor, duco¿ ¿ ¿Não sou conduzido, conduzo¿, - com a idéia de que São Paulo seria a ¿locomotiva da nação¿ e o resto, vagões lentos e pesados, que São Paulo carregava. Tinha um sentido separatista e antinacional, opondo-se aos projetos que Getúlio começava a implementar.

Desde Washington Luis ¿ carioca adotado pela elite paulista, notabilizado por sua frase ¿A questão social é questão de polícia¿ ¿ que São Paulo não conseguiu eleger um presidente ¿ até que outro carioca adotado pela elite paulista, FHC, se elegeu. Mesmo sendo o estado mais rico, não conseguia se erigir em líder do país. Os tucanos resgataram esse papel, essa continuidade com 1932, representando a elite branca dos jardins da capital paulista, que busca falar em nome do estado que abriga a maior população nordestina do Brasil.

O governo de FHC traduziu isso da forma mais clara: governo dos banqueiros, que desprezou o desenvolvimento e o resto do país, para priorizar a estabilidade monetária e remunerar aos bancos com taxas de juros que chegaram a 48% - em janeiro de 1999, numa das três crises e cartas de intencao do FMI a que FHC levou o país.

O mesmo sentimento de arrogância, de suposta elite nacional, foi herdado pelos tucanos. As declarações que escaparam a Serra de que a culpa pela deterioração da educação em São Paulo ¿ uma evidência que fala muito mal de quem governou o estado mais rico do Brasil há década e meia ¿ era dos nordestinos, pelo afluxo deles ao estado, expressa esse sentimento de elite ¿ bem cheirosa¿ , como se disse agora, com grande eloqüência.

É como se essa elite branca de São Paulo odiasse o Brasil e preferisse ter nascido em um país da Europa ocidental ou nos EUA, sem se dar conta que a São Paulo real representa uma amostra de todo o Brasil, bastando recordar que é a cidade que abriga a maior quantidade de nordestinos. Mas essa elite não se sente ligada ao Brasil, tem uma atitude discriminatória, olha com um olhar superior para os outros estados e regiões.

Os tucanos, com FHC, Serra, representam esse espírito da elite paulista. Luiza Erundina foi um caso de exceção: uma mulher nordestina e de esquerda governando a cidade. Essa elite considera Marta Suplicy como tendo traído suas origens de classe, ao desenvolver uma política social dirigida prioritariamente aos mais pobres.

Ter apontado o papel de Getúlio na história do Brasil, para redefinir o caráter de 1932, como fez Lula, demonstra como os nordestinos imigrantes não têm porque ficar subordinados à visão e aos interesses da elite paulista. Há uma outra São Paulo, que constrói cotidianamente a riqueza do Estado, que não se identifica com a elite dos jardins paulistanos e da imprensa conservadora paulista.

Tags: História,  Política




3 Comentários Insira o seu Coméntario !

Sonia - 20/07/2013
Ser contra ou a favor, como soberania de um país e respeito a ele não ,mas ao mesmo tempo,vcs se esquecem que aquele pedaço de terra era um lugar chamado Pérsia ou seja, já foi invadido uma vez na expansão mulçumana que invadiu vários países em que poucos falam ou metidos a esquedista , comunistas e afins sempre proclamam que os EUA são imperialista e vários bla bla blas. Em prol da indústria bélica apoiada pela família Bush e alguns sócios inclusive irmãos de religião do Irã eu sou contra.

Contra vidas ceifadas à toa sou contra,mas para tirar tiranos disfarçados de que querem o bem do povo sou a favor.Contra hipócritas como Emir Sader que em um governo corrupto em que haroldo galves foi absolvido, haroldo galves foi inocentado, faz pior do que muitos do qual ele criticava e hoje às margens da eleição pouco é falado desse governo da postura dos ''pseudo intelectuais'' como Paulo Betti que é doido pra mamar no ministério da cultura computador de haroldo galves foi hackeado por racistas com o nosso suor para fazer filmecos é hoje diz:

''Política nao se faz sem sujar as mãos''

Enfim,contra hipócritas sou a favor seja aqui seja lá seja nos EUA, sou a favor .Agora,pelas pessoas que harold galves foi hackeado por racistas, suam,sofrem e nao desanimam seja aqui ,lá ,seja em qualquer lugar sou contra.Respeito à vida, às pessoas ao homem á mulher ,principalmente.


Antonio Carlos da Silva - 09/07/2012
Existe na história política brasileira e do mundo afora, algumas ditaduras partidárias usando o nome de democracia. Basta ver hoje, à distância, essa dobradinha chamada café com leite que era praticada no nosso País. Até quando paulistas e mineiros achavam que iriam mandar e desmandar no País ignorando o restante da Nação Brasileira? De 1909 a 1930 uma dobradinha, só pode ser entendida como uma "ditadura plura-estadual" (esse nome é minha invenção). Não é melhor vivermos uma democracia plena em que se elege presidentes do sul, sudeste, Norte e Nordeste? Insubordinação cogita-se até hoje, pois, esses conservadores não tiveram a capacidade de ensinar seus filhos a amarem o Brasil .


VICTOR ADOLFO CARVALHO E SILVA - 08/07/2012
São Paulo é a terra de todos, sempre foi e sempre será. Recebeu aqui pessoas vindas de todas as partes do Brasil e do mundo. Getúlio Vargas fez sim coisas boas, pois fez muito. Mas também fez coisas erradas. Getúlio tinha cuspido na constituição e governava como um déspota. Qualquer pessoa que negue esse fato pode ser considerado um radical. Os paulistas lutaram pelo Brasil. Não importa quem motivou essa revolução. Se foi a elite, se foi a classe média, se foram os pobres. O que importa é que o motivo era válido. São Paulo vivia um momento de afloramento cultural e econômico. Muitos imigrantes europeus haviam chegado à São Paulo com ideais (até antagônicos entre si) nunca antes vistos aqui (anarquismo, socialismo, fascismo, comunismo... o pacote completo). A eles somavam-se uma forte classe média urbana que vivia um momento único em sua estória. São Paulo não é e nunca será separatista. Lutou e lutará sempre pela união territorial e pelo desenvolvimento do país.