29/03/2007 - Copyleft

A Bolívia precisa fracassar

por Emir Sader em 29/03/2007 às 11:32



A Bolívia não pode dar certo. Um índio não pode ser um bom presidente da república. A economia do país não pode crescer sob a direção de um partido fundado nos movimentos sociais. Os recursos naturais não podem ser dirigidos por um governo composto por dirigentes indígenas e sindicais.

A Assembléia Constituinte tem que fracassar, não pode dar lugar à construção de uma Bolívia multicultural, multinacional e multiétnica, porque isto fere as teorias liberais. O governo de Evo Morales tem que fracassar na construção de uma imensa democracia social, econômica e cultural.

A Bolívia tem que fracassar, para que se comprove o lema fundamental do capitalismo: ¿Civilização ou barbárie¿, em que a civilização foi definitivamente assumida e identificada com a cultura branca, ocidental, cristã, anglo-saxã. O resto ¿ a África, a Ásia, os índios, os negros, os mestiços da América Latina, os negros dos EUA ¿ enfim, todos os não brancos.

Hollywood já nos ensinou: os ¿mocinhos¿ são os ¿cow-boys¿, que lutam contra os maus ¿ os índios os ¿peles vermelhas¿, traiçoeiros, expressão da barbárie em pleno solo yankee. Hollywood já criminalizou os japoneses, os chineses, os coreanos, os africanos, os árabes, os mexicanos ¿ e, através destes, todos os latino-americanos.

Já aprendemos quem é bom e quem é ruim, quem é feio e quem é bonito, quem (supostamente) ganha e quem perde.

De repente, um índio se torna presidente da república. É inaceitável. Bastou John Wayne ¿ o ¿americano indômito¿ ¿ descansar, para que os índios ataquem novamente. Ocupem o Palacio Quemado, dirijam ministérios, uma Assembléia Constituinte, falem em nome do povo boliviano, se apropriem das riquezas naturais ¿ da terra, da água, do gás, do petróleo.

Se o governo da Bolívia der certo, haveria que revisar tantas coisas, haveria que rediscutir o que é civilização e o que é barbarie, haveria que questionar a dominação capitalista do mundo, a hegemonia européia e norte-americana. A ditadura do dinheiro, das armas e da palavra estaria ameaçada.

Por tudo isso e por muito mais, a Bolívia de Evo Morales não deve e não pode dar certo. Mas está dando certo. Aí começam os problemas.

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