08/02/2012 - Copyleft

A França, da esquerda à direita

por Emir Sader em 08/02/2012 às 09:55



Engels chamou a França de ¿laboratório de experiências politicas¿. A França era o reino da política, assim como a Alemanha da filosofia e a Inglaterra da economia.

A Alemanha, segundo Marx, não conseguia livrar-se do velho regime, como a França havia feito. Canalizava, de forma compensatória, todas suas energias para a cultura e a filosofia, produzindo gênios como Goethe, Beethoven, Bach, Kant, Hegel, entre outros. Marx desenhava a Alemanha como uma pessoa com um corpo esquálido e uma cabeça enorme.

A Inglaterra era o reino da economia, porque a burguesia tinha conseguido abrir espaço para a acumulação de capital antes que nos outros países, transformando em mercadorias a terra e a força de trabalho ¿ elementos fundamentais para a reprodução do capitalismo emergente. Marx foi à Inglaterra para compreender ¿as leis gerais da acumulação capitalista¿, que lá haviam adquirido sua forma mais avançada no seu tempo.

Na França tudo se dava politicamente da forma mais exacerbada, a começar pela revolução de 1789, seguida pelos movimentos de 1830, de 1848, pela Comuna de Paris de 1871, pelo governo de Frente Popular de 1936, pelas barricadas de 1968. Ao mesmo tempo a França se constituía no bastião mais progressista e criativo do ponto de vista teórico.

Poucas décadas depois a França se tornou o bastião do pensamento conservador em toda a Europa. Houve uma grande virada à direita, atrás dessa passagem da hegemonia de esquerda à hegemonia da direita. Um momento fundamental foi a eleição de François Mitterrand, em 1971, o velho sonho da esquerda francesa do segundo pós-guerra finalmente realizado, com um governo socialista-comunista.

Depois de ter avançado em pontos essenciais do programa histórico da esquerda ¿ incluindo o fortalecimento do Estado, nacionalização de empresas estratégicas -, já no seu segundo ano Mitterrand promoveu uma virada, que implicava que a França deixava de representar politicamente uma referencia de esquerda, para somar-se, de forma subordinada ao eixo EUA-Inglaterra. A França ¿ e os outros países do continente em seguida ¿ preferiram ser aliados subordinados do eixo anglo-norteamericano a ser polo alternativo e manter sua relação de solidariedade com os países da periferia.

Essa virada se fez notar imediatamente na intelectualidade, na mídia, nas editoras, nas livrarias ¿ no pensamento predominante, em geral. Saiu de cena o intelectual comprometido e solidário como Sartre, para ser substituído por personagens midiáticos como Bernard Henri-Levy. O Le Monde, que havia sido o melhor jornal do mundo, piorou consideravelmente, na orientação e na qualidade das matérias, tornando-se um jornal entre vários outros. As livrarias sofreram um processo de vulgarização, são hoje as menos interessantes na Europa, quando antes haviam sido as mais interessantes.

Com a morte de Pierre Bourdieu, a França perdeu seu ultimo grande intelectual com grande capacidade de elaboração teórica, de intervenção nos maiores debates políticos e de mobilização concreta de jovens pesquisadores e de estudantes. Continuam a haver bons intelectuais na França, a maior parte de economistas marxistas, ou filósofos, alguns dentre eles sobreviventes do grupo de Althusser ¿ como Badiou, Ranciere, Balibar. A esquerda radical perdeu muito com a morte de Daniel Bensaid, sua melhor cabeça.

No essencial, a direita impôs sua hegemonia também no campo intelectual, refletida na tv, nos jornais, nos centros de estudo, nas livrarias, no cinema, no movimento cultural em geral. Terminaram varias revistas progressistas, o estilo de intelectual midiático se impõe na formação da opinião publica. O longo governo Mitterrand representou essa transição e os governos Chirac e Sarkozy sua consolidação à direita.

Tags: Internacional




3 Comentários Insira o seu Coméntario !

flavio - 28/02/2012
Márcia Eloy agradeço teu elogio e embora não concorde com muitas de tuas idéias adimiro tua postura não sectária na defeza de tuas verdades. Vou assistir o fime que voce me indicou.


Darcy Brasil Rodrigues da Silva - 25/02/2012
Um breve comentário sobre os "bons conselhos" do FLÁVIO destinados à MARIA ELOY. Flávio, para combater o socialismo, procede como sempre o faz a direita- ou os que por esta se deixam influenciar - mostra a árvore e esconde a floresta. Assim, se surge - admitindo ,por hipótese , que realmente tenha surgido- UM ou TRÊS casos de violação de direitos humanos em Cuba, a mídia amplifica esse s casos até se converteram em indignação junto a opinião pública. Porém, torturas de dezenas de prisioneiros em Guantánamo, soldados urinando em afegãos trucidados, queima desaforada de símbolos religiosos cultuados por mais de um bilhão de pessoas, assassinatos impiedosos de civis, crianças, mulheres e inocentes, por operações militares executados por drones comandas por controle remoto em confortáveis salas nos EUA , espoliação, pilhagem e roubo de riquezas naturais de povos autóctones indefesos, etc, etc, etc, tudo isso se busca esconder para que ,então, se possa falar da abstrata "liberdade" de que desfrutaria o homem em uma sociedade capitalista, esquecendo-se que esse homem em si, e de si para si, não passa de uma fantasia, sendo o homem um ser social, sendo a sua liberdade individual eternamente condicionada pelas liberdades coletivas,não havendo,ainda, nenhuma dessas duas liberdades, para a grande maioria, em uma sociedade divida em classe. Quanto a China e aos chineses, que se lhes perguntem se sonham voltar aos tempos das liberdades sufocadas pelos tacões imperiais. Se preferem ser a potência que avança altivamente para ocupar a condição de primeira potência mundial já na segunda década do século XXI, ou se gostariam de voltar a vegetar em tempos de humilhações e massacres coloniais. Estariam os chineses, como o afirmou James Sturat Mill , resvalando nostalgias dos tempos da liberdade de comprar ópio de amos ingleses gananciosos, genocidas inescrupulosos?


Marcia Eloy - 25/02/2012
Darcy

Acho seus comentários inteligentes e com muito cnteúdo. mas ninguém pensa igual a ninguém, nem os do mesmo partido. Eu antes de entrar para o PT, tinha um certo receio, pois a mídia o pintava como sendo um partido radical. E eu não queria me juntar a radicais,nem salvar a pátria, nem dar a minha vida por uma causa, nada disto. A mim bastava a experiência do meu pai.Tantas ilusões para ver a União Soviética desabar como um castelo de cartas.Mas depois que entrei para o PT, vi com muita surpresa, o número de tendências que o partido possuia. Incrivel! E ao estudar sua estória, vi que ele abrigava pessoas vindas de vários lugarescomo; ex-comunistas, ex-guerilheiros, operários, intelectuais, etc... Me senti em casa, pois o Brasil é um país miscigenado, com pessoas oriundas de vários países, culturas diferentes, religiões diferentes e estamos conseguindo caminhar juntos. Isto me fascina no Brasil.É um dos poucos países no mundo que consegue esta façanha. Aqui ninguém pode dizer com segurança que não tem um ascendente negro, índio, francês, portugues ou alemão. Logo com o passar do tempo nós nos tornamos mais condescendentes principalmente com os jovens. Eles tem todo direito de querer mudar o mundo. Agora se vão fazer é outra estória...Ninguém muda o meu pensamento, nem minha maneira de agir, pois cheguei a ele depois de uma estrada percorrida de experiências,trabalho e observação, mas se não concordam comigo sinto muito.Não que me considere a verdade e a luz, mas acho que o Brasil encontrou seu caminho, está bem economica e politicamente, com uma presidenta experiente, trabalhadora, inteligente. Há erros?Pode haver.. Mas em comparação com o passado melhoramos muito.