22/01/2014 - Copyleft

A banalização da história

Há algum tempo passaram a proliferar livros de história no Brasil e telenovelas que esvaziam de conteúdo a história, transformando-a em episódios banais.

por Emir Sader em 22/01/2014 às 14:49



Emir Sader


Para Marx, a História é a única ciência social, não porque exclua as outras, mas porque as integra. A Historia não é historiografia, a visão redutiva dos fatos, das datas, dos personagens.

Historicizar um fenômeno é entender como ele foi gerado, em todos os seus aspectos - economico, social, politico, cultural -, como ele se reproduz – conforme suas dimensões objetivas e subjetivas -  e como ele foi ser transformado. Em suma, como se produz a historia humana e como os homens, que produziram, inconscientemente, suas condições de existência e sua própria consciência, podem transformá-la, transformando-se a si mesmos.

Historicizar é desnaturalizar, descontruir toda forma de fatalismo, de aceitação da realidade como ela é. É encontrar os fios que articulam a realidade, para poder influenciar na sua transformação, pela prática concreta e pela consciência humana que, transformada em força material, adquire capacidade de modificação, de humanização do mundo.

Há algum tempo passaram a proliferar livros de “história” no Brasil, num país tão “sem  história”, tão desacostumado a pensar a sua história, tão pouco convidativa que ela parece ser, como foi ensinada na escola.

Recontar, como se fosse telenovela, episódios como a chegada da monarquia portuguesa ao Brasil – fugindo das tropas napoleônicas – a própria proclamação do pacto de elite pelo qual a independência não introduzia a República no Brasil, mas uma monarquia, e outros episódios como esses. Querem passar a impressão que estão impregnados de história, na sua forma mais tradicional – estudo do passado.

Relatam, mas não explicam nada. Nenhum desses episódios permite entender o que foi o colonialismo no Brasil, como  a exploração do país se apoiou em trabalho escravo. Os dois pilares indispensáveis para entender a história do Brasil, segundo o seu maior historiador, Caio Prado Jr., estão ausentes: o colonialismo e a escravidão, que nos fundaram como país e se tornaram elementos indispensáveis para compreender o país, estão ausentes. Os personagens parecem representar a si mesmos e não a interesses históricos que os transcendem.

Desmoralizam ao invés de reivindicar a história. Vulgarizam ao invés de aprofundá-la. Servem para vender livros e a ilusão de que os incautos que os compram e os leem estão se ilustrando e adentrando na história do país.

Naturalizam ao invés de historicizar, esvaziam de conteúdo histórico os episódios, para transformá-los em banais episódios factuais, protagonizados por personagens de teatro e não por encarnações de relações sociais. Uma operação contra a história como método de desalienação, de compreensão do mundo, em nome da história.

Tags: História




9 Comentários Insira o seu Coméntario !

José Costa - 29/03/2014
Deveríamos muda a faixa(História como "ciência") e pensar na História,como prática social,humana,no tempo/espaço.Trata-se de uma construção social,humana,contraditória,que se projeta no tempo/espaço,sem aquela visão positivista de Conte,que afirmava,a linearidade temporal,evolutiva,o que deu origem ao Ordem e Progresso,de nossa bandeira ou,o dístico da ditadura militar,terrorista e assassina,que se referia ao Brasil como um país da Segurança e Desenvolvimento. Ou seja,pensar e fazer História,sem o pedigree "científico",não significa,por outro lado,abandonar as outras ciências humanas e sociais,como a sociologia,a antropologia,a filosofia,a geografia,pois,todos,cada uma à sua maneira,contribui para a produção do conhecimento histórico,mutável,sem uma suposta verdade absoluta.Zé.


Marcia Eloy - 25/01/2014
E qual o programa que ensina a história real nas escolas primárias? Que eu saiba o mundo inteiro foi colonizado e escravizado. O império romano dominou todas as terras em volta do mar Mediterrâneo e escravizou vários povos. Portugal e Espanha dividiram o mudo ao meio, colonizaram e escravizaram vários povos. Cada povo seguiu um caminho, conseguiu a sua libertação por diferentes maneiras, mas o que mais escraviza na minha opinião, na atualidade, é o capitalismo. Este não tem fronteiras e age livremente com todos os seus tentáculos. O senhor elegeu como filme do ano "A grande beleza", eu elegeria "O capital". O filme me levou a pensar nos gladiadores romanos que lutavam até morrer, mas eles lutavam para adquirir suas liberdades, hoje lutam para adquirir dinheiro. E vale tudo, tal como no passado.


álvaro marins - 24/01/2014
Muito pertinente a abordagem. Em minha opinião, falta-nos muito uma maior presença de Brecht em nossa ambiência dramatúrgica.


josé fonseca - 23/01/2014
A proibição da língua geral, o guarani, língua da terra, para os brancos imperiais pisarem na terra conquistada assim como a destruição das missões homônimas são esquecidas enquanto mostram o outro lado deste colonialismo. Tudo bem que a Revolução era contra a Escolástica mas os jesuítas fizeram muitas escolas aqui e de certa forma eram revolucionárias de um jeito tropical não europeu. O esquecimento tb das grandes culturas indígenas, guarani mesmo ( vide o casal Clastres ) , marajoara, é obra de branco que não quer ver o pele vermelha, atlante, na sua plenitude.


Ariadne Alencar Sousa - 23/01/2014
Faço minhas as suas palavras. A História tem sido tratada como circo, como instrumento de diversão e curiosidades, não como a ciência séria e fundamental para a compreensão do mundo que ela é.

Entre os responsáveis por essa desmoralização da História no Brasil estão a revista "Aventuras na História" (lida por adultos, embora pareça ter sido feita para adolescentes) e a Rede Globo com suas "novelas de época''.


Mário SF Alves - 22/01/2014
Obrigado.



Reflexão e crítica mais do que oportunas. Imprescindíveis ao desmonte do festival de falácias que assola o país.


Rodrigo Ricoy Dias - 22/01/2014
Texto primoroso, que vai direto ao ponto e lava a alma dos que como eu se incomodam com a miríade de produções romantizadas, que misturam enredos de romances com eventos reais, ou, ainda pior 'guias' escritos por quem, com nenhuma formação e parcos conhecimentos viram best sellers.


Mauricio Sampaio - 05/03/2014
Texto infeliz, que mostra que o clubinho fechado e esquerdista dos historiadores e suas "verdades absolutas" vem sendo ligeiramente destruido em prol de novas pespectivas. Felizmente temos o Leandro Narloch e seus guias e Laurentino Gomes e seus excelentes livros que nos abrem um leque de possibilidades unicas e que afrontam esta mesmice marxista/esquerdista que vem impregnando os meios academicos


Mtnos Calil - 03/02/2014
Exatamente Marcia Eloy



Até hoje os marxistas desprezam a verdadeira história da humanidade ao mesmo tempo que vangloriam a história como ciência. As raízes do ser humano estão na fase da história chamada "pré". Quiseram tirar a pré-história da história porque a nossa selvageria envergonha os historiadores que cultuam a superioridade do homem em relação aos outros animais. Olhando para os fatos históricos, cheguei a esta conclusão: morto o comunismo só resta à humanidade tentar civilizar o capitalismo.