27/07/2012 - Copyleft

A crise de credibilidade da velha mídia

por Emir Sader em 27/07/2012 às 13:41



Emir Sader

Jornais e revistas da velha mídia brasileira fazem reformas gráficas, cobram páginas na internet, dão brindes, mas ficam longe dos principais problemas que os têm levado a essa crise irreversível.

O problema central da decadência da velha mídia é a falta de credibilidade. Não apenas porque tem sistematicamente apostado editorialmente nos candidatos derrotados, como se fossem órgãos dos partidos opositores, mas também porque nem sequer tem, nas suas páginas, o mínimo de pluralismo, que permita aos leitores confrontar pontos de vista distintos.

São os mesmos colunistas, com pontos de vista muito similares, que povoam as chatíssimas páginas da mídia brasileira. (O mesmo acontece no rádio e na tv privados.) A impressão que dão é que seus pontos de vista – nos editorais e nos artigos, muito similares entre si – é que seus argumentos são tão frágeis, que tem medo de se ver confrontados com perspectivas diferentes. Escudam-se então no monopólio dos seus argumentos, como se ainda estivéssemos nos tempos em que ocupavam totalmente o espectro da formação de opinião publica e contavam com governos que concordavam em tudo com eles.

Não haverá recuperação dessa velha mídia, que caminha inexoravelmente para a intranscendência, até porque os jovens não leem mais jornais, usam a internet. A velha mídia oscila entre tentar desqualificar as mídia virtuais ou concorrer com elas.

Nenhum dos dois caminhos dá certo. Com que moral essa velha mídia – que apoiou o golpe militar, com esteve com a ditadura, com o Sarney, com o Collor e com o FHC – vem falar da falta de credibilidade das mídias alternativas? Como querem concorrer, se nas mídias alternativas estão justamente os analistas e as interpretações que eles excluem dos seus espaços?

É uma perda que jornais que já tiveram um papel progressista no passado, tenham se transformado em órgãos de direção politica e ideológica de uma oposição conservadora, sem rumo e sem apoio popular. Que tenham se partidarizado tão fortemente, que editorializem toda a publicação, que percam qualquer interesse para o debate democrático e pluralista.

Mas na verdade a decadência vem de antes, do momento do golpe de 1964. No momento mais significativo da história brasileira, eles ficaram do lado da ditadura e contra a democracia. E nunca fizeram autocrítica. Seu comportamento hoje – e a decadência irreversível em que estão – é, no fundo resultado da opção que fizeram naquele momento. Aquela opção os colocou do lado das elites, contra o povo, sem condições portanto de se identificar com o mais importante processo de democratização econômica e social que o Brasil vive há uma década.

Tags: Política




16 Comentários Insira o seu Coméntario !

Ruy Mauricio de Lima e Silva Neto - 30/07/2012
Sem dúvida alguma, Emir Sader mais uma vez faz uma descrição perfeita de mais esta aberração da vida nacional. E tomara que ele acerte em cheio quando diz que esta crise de credibilidade é irreversível. Realmente é qualquer coisa de patético a gente levar um dia de trabalho e de desgstes os mais diversos, chegar em casa à noite e ainda ter que ouvir aquelas manipulações e interpretações profundamente classistas e partidárias, sem praticamente nunca ouvir alguém que pense remotamente como nós. E é um tal de demonização do MST, da Comisssão da Verdade, da nossa política externa, da Venezuela, da Bolívia...simplesmente ninguém aguenta mais este monopólio desta Paulistada reacionária.Mas na falta de movimentação suficiente de jornalistas que funde uma rede equivalente de rádio e TV, talvez isso só vai acabar mesmo como no caso da velha Nacional do Rio de Janeiro em que o governo financiou toda aquela brilhante máquina que vigorou por três décadas, proporcionando a todo o povo brasileiro entretenimento da melhor qualidade e um jornalismo bastante próximo do equidistante (Repórter Nacional, Repórter Esso,etc).


Márcio - 30/07/2012
Mas Emir, quando o lula foi eleito pela primeira vez, ele escolheu a Globo para dar a primeira entrevista (exclusiva).

O primeiro aniversário de governo, foi coberto pelo Fantástico (Glória Maria).

Como vcs. lulistas sectários justificam isto?


mariis capela - 29/07/2012
Parabéns Emir, muito rico este blog!!


sergio a b - 28/07/2012
Vejo este assunto por um outro ângulo. A velha midia fez uma opção partidária o que é aceitavel em qualquer país. Erra, entretanto, quando posa de isenta. Isto pega mal por que todos percebem. O segundo erro foi ter feito a opção errada e não admitir. Passaram a mão por cima de todos os erros do DEM/PSDB/PPS. Fomentaram com isto o crescimento dos desatinos destes partidos. Geraram, de erro em erro, um monstro de corrupção,autoritarismo e incompetencia. É dificil agora esconder.Na verdade isto foi feito com convicção.Não há ingenuidade. A velha midia é o PSDB/DEM/PPS.


miguel - 28/07/2012
Na verdade parodiando Noam Chomsky , não é verdade que os donos dos jornais "se colocaram ao lado da elite e contra o povo", os donos dos jornais são da elite!! Seria muito estranho que alguém de uma classe social se pusesse contra sua própria classe. Equivocado está quem acha que é função dos proprietários dos meios de comunicação defender ideias progressistas.


edi - 28/07/2012
O que tenho visto é que os assinantes desses tais veículos saem reproduzindo tudo...deveriam ser céticos, procurar a verdade ouvindo várias fontes até formular a sua própria opinião. Os blogs são uma alternativa saudável...Quando do episódio promovido pelos tucanos contra Haddad em São Paulo (os jovens são do PSDB, fotos mostram isso) o PiG anunciou que os militantes tucanos enfrentaram Haddad, parece brincadeira, "Militantes tucanos"...eles não têm militantes, tem sim, meia dúzia de jovens venais a promover algo do qual nem acreditam.


Luiz Antonio - 28/07/2012
Caro Thomaz Magalhães,

compare o leitor a um dependente químico, necessita da dose diária de estupefaciente para tocar a vida. Uns produzem as endorfinas de que necessitam na bebida, na comida, etc..., outros lendo os jornalões de plantão.

Os conscientes leem a mídia alternativa!

Obrigado

LA


Pedro - 28/07/2012
Uma pequena consideração: quando do golpe direitista em Honduras, e, agora, no Paraguai, Chávez, que a mídia chama de ditador, e cuja mídia se chama de democrática, estiveram em polos opostos. A mídia, a favor do golpe. Chávez, e todos os governos que a mídia quer derrubar, foram contra e tentaram impedir os golpes contra Zeleya e Lugo. Por isso, a mídia condenou todos os governos contra o golpe a apoiram incondicionalmente os golpistas que os sustentam: o governo Americano.


Piragibe Silva Borges - 27/07/2012
Os jornais, a mídia de um modo geral, deveriam relatar a notícia, reportar o fato, apresentar as várias versões sobre as razões do fato e os comentaristas deveriam ser explícitos em sua parcialidade, em seu compromentimento com os patrocinadores.

De fato é uma perda que jornais, baseando suas vendas na credibilidade e isenção de suas notícias, tenham descoberto que o caminho mais fácil para a perenidade é receber um fixo para transmitir notícias e fatos sob uma pré-concepçao. E então surge um novo fenômeno midiático que espanta e perturba o establishment, a publicação em blogs de opiniões, milhares de publicações que são acessadas por milhões de leitores a se atualizarem por um meio que, nessa globalização imensa, ainda permite acessos vários para o estabelecimento de opinião e reforço argumentativo. Paulatinamente esse meio também irá se homogeneizando, tendendo para a monólise, mas enquanto vigora essa fractal diversidade, deleitemo-nos. Democracia é isso. Ou é ilusão da mesma?


Thomaz Magalhães - 27/07/2012
Os leitores pagam para ler a "velha mídia", Estadão, Folha, Veja, O Globo, Zero Hora, Gazeta do Povo e tantos outros. A tese do autor é que estes não têm credibilidade. Então, os leitores pagam para ler veículos nos quais não acreditam... Fica a pergunta: por que não pagam para ler os jornais de esquerda que, na tese, têm credibilidade? Pois é. Leitor é fogo. Gosta de comprar veículo sem dredibilidade e não compra os críveis. Tem gente que diz, também, que eles votam mal.


Satyam - 27/07/2012
A censura interna na mídia de um modo geral é insuportável, asfixiante. Parece que os jornalistas não estão lá, tal é o nivel do corte. As revistas semanais estão mais para o tipo Capricho, Caras, etc. Estas, no entanto, cumprem com o seu objetivo. Prefiro elas quando vou ao dentista.


JOSE PETRUCIO VERISSIMO - 27/07/2012
A indústria cultural e os veículos comunicação equivale ao papel da indústria de armamentos para a guerra. O controle das televisões, rádios, jornais, revistas, editoras de livros, provedores e sítios eletrônicos ajuda na manipulação de hoje e forja as mentes de amanhã.

As camadas médias seguem tratadas como massa de manobra, ideológica, social, política e eleitoral, dos setores conservadores.


darcio - 27/07/2012
além do exposto, a perda de credibilidade, há o fato de que os jovens de hoje não leem mais nada, não estão trocando o conteúdo dos jornais tradiconais pelos mesmos na internet, eles buscam outras coisas na net, e tb há o custo altíssimo da mídia impressa que desestimula o consumo, conheço algumas pessoas que cancelaram a assinatura da veja mais pelo dinheiro q pela falta de credibilidade e passaram a ler.....nada


João - 17/08/2012
“Com que moral essa velha mídia – que apoiou o golpe militar, esteve com a ditadura, o Sarney, o Collor e o FHC – vem falar da falta de credibilidade das mídias alternativas?”



mas é feio estar com Sarney, Collor (e incluo Maluf)?

se isso serve para tirar a moral da “velha mídia” deve servir tb para tirar a moral de Lula e do PT, não é?

coerência é tudo!


José de Oliveira Luiz - 13/09/2012
Não há liberdade de imprensa se isto é um ofício. A verdade foi assassina e a noticia não saiu nos jornais. "Veja" tem pelo menos 50% de propaganda em cada edição. É só ver quem são seus cúmplices. O tamanho do 'cala boca' é muito grande. Há muito não leio jornais, revistas nem ouço rádio. Meus ouvidos e meus olhos não são penico.

As empresas jornalísticas montaram tribunais de exceção em que cumprem o papel batina/toga/farda: a batina sataniza e demoniza; a toga crimina e julga; a farda executa e elimina. E eis aí a santissima trindade a qual o mundo acadêmico diz amém. Falar mal de alguém é de graça e sem direito de resposta. Falar bem só pagando.



Rui - 03/08/2012
Taí uma excelente idéia, uma REDE DE MÍDIA ALTERNATIVA.

Mas vai ter que arranjar uma boa margem de apoio, pq os bancos tb não vão financiar uma mídia que fuja aos limites da mídia tradicional, que diga a VERDADE.

Deve haver jornalistas suficientes comprometidos com um jornalismo isento, que consiga se basear em FATOS e não em OPINIÕES, que fuja ao acordo das elites.