02/04/2014 - Copyleft

A debacle da esquerda europeia

A maior derrota da esquerda é a inexistência de grandes mobilizações contra a política de austeridade, aplicada tanto pela direita, como pela social-democracia.

por Emir Sader em 02/04/2014 às 09:38



Emir Sader


A França era, nas palavra de Engels, o “laboratório de experiências políticas, berço de 1879, 1848, da Comuna de Paris de 1871, no século passado da Frente Popular, das barricadas de 68.

A maior virada política e ideológica operada na Europa foi exatamente na França, que passou de núcleo mais progressista a bastião mais conservador do continente.
 
Perry Anderson analisou de maneira magistral essa triste virada no seu artigo “O pensamento insosso” (La pensée tiède, na versão francesa, Ed. Seuil; Degringolade e Union sucreé, na versão original, London Review of Books, 2 e 23/9/2004).

As ultimas eleições francesas confirmam aquilo a que fomos tristemente nos acostumando: os trabalhadores franceses tem na Frente Nacional seu partido majoritário. Um partido que prega não apenas a saída do euro – posição defensável para a esquerda também -, mas a proibição de entrada de imigrantes, a pena de morte, entre outras de suas posições de extrema direita.

Antes a classe operária francesa era ou socialista ou comunista, invariavelmente. Agora, instrumentalizada pelo chovinismo contra os imigrantes, se passou para a extrema direita. Na virada à direita de todo o continente europeu e no enfraquecimento geral da esquerda, este é o seu aspecto mais dramático.

Desde que a crise econômica mais prolongada e profunda do capitalismo desde 1929 eclodiu, tendo a Europa como epicentro, durando já mais de 7 anos, a maior derrota da esquerda é a inexistência de grandes mobilizações populares contra a politica generalizada de austeridade – aplicada tanto pela direita, como pela social democracia – e, como corolário, o fortalecimento ainda maior da extrema direita na crise e não da esquerda.

Alguns fatores foram determinantes nesses retrocessos, entre eles o fim da URSS e o enfraquecimento dos partidos comunistas, assim como a adesão da social democracia ao neoliberalismo. Mas na crise atual surgiram movimentos de jovens na Espanha, na Inglaterra, que porem não tiveram nem continuidade, nem repercussão na massa trabalhadora dos seus países.

A derrota de governos social-democratas – como nos casos da Espanha, de Portugal – arrasta consigo também a extrema esquerda, que se recupera lentamente depois, mas sem capacidade de se tornar força hegemônica. A substituição de governos conservadores – como no caso desses dois países ou da Inglaterra ou da Alemanha – fica dependendo do que ocorra com os partidos social democratas e sua aliança ou não com setores mais à sua esquerda.

A esquerda europeia, berço da esquerda do século XX, ja não existe como tal. Nem os PCs, nem os partidos socialistas, tampouco a extrema esquerda – trotskistas ou outras variantes – tem demonstrado força para recompor a esquerda europeia. A construção da União Europeia, por sua vez, ao se centrar na unificação monetária, constituiu-se numa armadilha, de que a esquerda não sabe como sair e que a extrema direita explora, como única corrente que prega contra o euro.

As eleições europeias de maio deste ano devem confirmar o fortalecimento da extrema direita, um altíssimo nível de abstenção e o enfraquecimento das outras correntes políticas.

Tags: Internacional,  Política




4 Comentários Insira o seu Coméntario !

Marcia Eloy - 07/04/2014
Acho que o descaso e a falta de conhecimento desta nova geração da história de seu país e do mundo está levando os jovens a uma alienação geral. Só pensam em si, como também os sindicatos. cada categoria se acha a única, palavras como país, solidariedade, se acham esquecidas. Os jovens que foram às ruas em junho, não sabiam bem o que estavam fazendo ali. cada um dava um motivo, não havia um motivo em comum e ideal, então, nem se fala...Querer que o PT seja revolucionário e sozinho faça e aconteça, é não conhecer o povo brasileiro. Quantos saíram às ruas ou pegaram em armas para lutar contra a Ditadura? Poucos. Os cabeças hoje estão presos como corruptos. e a reação? Alguém viu?


fernando figueira borgomoni - 03/04/2014
A URSS deixou viúvas em toda a Europa Ocidental. Os PCs, não souberam caminhar sem ela. A existência da URSS mostrou- se vital para a existência desses partidos, até mesmo daquele que teve na crítica do modelo russo a sua principal referência. Contra ela ou a favor dela, porém alimentado pela seiva que ela gerava. Constatada essa dependência intrínseca da pra se perguntar que grau de autonomia real, no sentido de inserção cultural e identificação nacional, existia de fato nesses partidos? O internacionalismo e o "imanência operária" não teriam sido as duas pedras que impediram o caminho da esquerda numa sociedade pôs-moderna e de configuração mais complexa? Por que, afinal, todos os nossos sonhos de juventude foram esmagados pela história real?


roberto danunzio - 03/04/2014
Que isso sirva de lição para o dito Partido dos Trabalhadores, que até o momento está confortável porque a política assistencialista mantém no cabresto a massa dos pobres, e a ligeira ascensão social segura o voto da massa da nova classe média baixa. Acontece que esse pessoal muda de lado de um momento ao outro, conforme o vento da alienação. Quando isto acontecer, e isso pode se dar ainda este ano, Lula, Dilma, Mercadante, Cardozo (o advogado da CNA), Tarso Genro e Cia. Ltda. vão sair correndo atrás do voto da burguesia esclarecida e dos setores organizados da esquerda (movimentos populares, sindicatos independentes) que o partido tem menosprezado porque não precisa do voto dessa minoria para se eleger. Aí será tarde demais. Quem puder assista a TV5 da França entrevistando o eleitor esclarecido de esquerda decepcionado com o PS. O mesmo acontece aqui em relação ao PT. Ou o partido parte de vez para o esclarecimento político das massas e o enfrentamento da grande mídia, ou vai afundar, vítima, mais cedo ou mais tarde, da mudança dos ventos da alienação com os quais, por doze anos, tem navegado soberbamente.


venceslau alves de souza - 03/04/2014
Pois é, professor! E qualquer semelhança com o PT (Partido no qual eu votava até a pouco) não é mera coincidência!