10/01/2014 - Copyleft

A imprensa brasileira e o golpe de 1964

A verdade é esta: no momento mais importante da história brasileira recente, a imprensa ficou do lado da ditadura e contra a democracia.

por Emir Sader em 10/01/2014 às 14:47



Emir Sader


O golpe militar de 1964 foi mais um produto da crise de desestabilização política que os EUA, aliado a forças locais, promoveram na America Latina. Ele se inscreve na lista dos golpes da Guatemala (1954), do Brasil contra o Getulio (1954), da Argentina contra o Peron (1955), entre tantos outros.

Eles foram sempre arquitetados como se fossem levantamentos civis espontâneos contra governos “despóticos, “cripto comunistas”, isolados por movimentos democráticos de resistência na defesa das liberdades ameaçadas. Depois soubemos que são táticas arquitetadas pelas teorias de contra insurgência, que seriam aperfeiçoadas e aplicadas em outros países da própria região, como no Uruguai, no Chile, na Argentina.

É uma engrenagem indispensável a ação da mídia, para campanha insidiosas contras os governos, levantando falsas acusações, mentindo, forjando circunstancias e disseminando um clima de terror, de pânico, entre a população.


Que a democracia estaria em perigo, que as liberdades estão acabando, que a liberdade de expressão esta sendo mortalmente atacada, que a liberdade de culto pode acabar, que a educação estaria sendo alvo de campanhas comunistas de formação da juventude, etc. etc.
   
A imprensa foi um instrumento ideológico na preparação do golpe e da instalação das ditaduras militares. No Brasil, convocavas as Marchas com a Familia, com Deus, pela Liberdade, distorcia as políticas do governo, pregava abertamente o golpe militar nos seus editorais, apelava ao fantasma do “comunismo”, servindo os ideias da Doutrina de Segurança Nacional na guerra fria.
   
E fazia tudo – como se conhece hoje pelo acesso que se tem aos jornais daquela época – como se a democracia estivesse em perigo e o golpe militar, que instaurou o regime ditatorial mais selvagem que o pais conheceu, fosse a reinstaracao da democracia. Em nome dos riscos que correria a democracia, atuaram abertamente para que a democracia brasileira fosse destruída.
   
Sem a imprensa, não teria sido possível a criação do clima de desestabilização, indispensável à intervenção dos militares, como para impor a ordem em uma situação que a imprensa propagava que fosse de falta de controle institucional, de uma situação supostamente pre revolucionaria.
   
A imprensa foi a porta voz dos projetos de ruptura da democracia e de apelo aos militares para que intervissem. Ela saudou o golpe como a salvação da democracia, se pronunciou abertamente a favor da instauração da ditadura e apoiou a repressão como se fizesse parte desse esquema de salvação. Sem a imprensa, não teria sido criado o clima de desestabilização que tornou realidade o golpe e a ditadura militar.

São crimes contra a democracia, que mancharam irreversivelmente os órgãos de imprensa que deles participaram. No momento mais importante da historia brasileira recente, a imprensa ficou do lado da ditadura e contra a democracia.

Tags: História,  Política




8 Comentários Insira o seu Coméntario !

Marcia Eloy - 13/01/2014
Mas depois de 50 anos a rede Globo pediu desculpas. Quem será que a perdoou?


Orlando F. Filho - 12/01/2014
O cúmulo da hipocrisia foi a globo pedir desculpas no jn por ter apoiado a ditadura civil/militar ou militar/civil como se fosse um ato impensado. O jornalões emitiram editoriais alertando o povo contra o comunismo cruel que escravizaria o povo brasileiro, como se a elite da época já não fizesse isto. Todos os grandes empresários por ex o grupo ultra) apoiaram financeiramente os órgãos de repressão. Agora, todos posam de democratas, mas o uso do cachimbo faz a boca torta, a fsp(folha de são paulo) publicou uma ficha falsa do DOPS da dilma como terrorista procurada mesmo sabendo que era falsa. Ora, a quem eles querem enganar? Vejam que a venda de jornais caiu e as pessoas assistem o jornal nacional por causa da novela que vem a seguir.


Orlando F. Filho - 12/01/2014
A imprensa brasileira está onde sempre esteve: ao lado do poder, não importa qual a linha política que tenha. Apoiou Vargas, mas ajudou a derrubar Jango fazendo um carnaval porque ele queria travar relações com a China em editoriais que, vistos hoje, beiram a mais completa insanidade. Porém, todos sabemos que havia um complô com os militares para derrubar Jango. Hoje, hipócritas, gritam por liberdade de expressão quando o governo tenta regulamentar a atuação da imprensa, pois o que não querem é a justiça quando suas farpas atingem alguém injustamente não querendo indenizar os atingidos e hoje os processos rolam por anos na justiça beneficiando o infrator. Por isso não leio jornais há anos e como dizia Raul "eu não preciso ler jornais, mentir sozinho eu sou capaz".


Marcia Eloy - 12/01/2014
É verdade. Eu vivenciei tudo isto, infelizmente. E agora fizeram o mesmo com o julgamento da Ação 470, mas os petistas são culpados pela passividade.


Jose Erasmo de Andrade Alencar - 11/01/2014
Somente a coragem, o espírito publico, de um grande estadista que é o Emir , para resgatar essa matéria com tanta precisão.


Tonio Cunha - 11/01/2014
Certamente a impressa é conivente com todo governo de plantão. Hoje vemos como o debate histórico é manipulado a favor tão somente dos movimentos de esquerda que lutaram para a implantação de um regime comunista, anti-democrático quanto o golpe militar de 64. A história da volta, mas não dá para ser escondida, ninguém naquele momento lutava por democracia, lutavam para implantarem ditaduras, tanto a direita com a esquerda.


luiz mattos - 10/01/2014
É professor,e respiramos o mesmo ar de 64,as mesmas táticas usadas pelas mesmas forças.


Orlando F. Filho - 10/01/2014
Depois de décadas ao lado da opressão, a rede globo hipocritamente desculpou-se no jornal nacional por ter apoiado o golpe civil/militar. Isso dá nojo, viver em um país onde a imprensa escrita, visual ou falada conspira contra o povo brasileiro manipulando as informações. Cito o exemplo da ficha falsa da Dilma do DOPS(Depto ordem política e social em sp) que a folha de são publicou, mesmo depois que um coronel daquele órgão foi a público dizer que a ficha não era o padrão usado pelo DOPS. Então, já faz um tempão que eu não gasto dinheiro comprando esse lixo para ler.