30/05/2013 - Copyleft

Aliança para o P(rogresso)ácifico

por Emir Sader em 30/05/2013 às 08:15



O projeto inicial dos EUA era ampliar a Nafta para o conjunto do continente. O México, o melhor aluno do Império, foi o primeiro contemplado com esse privilegio. O Chile correu se candidatar como o próximo da fila, exibindo suas cartas de economia do livre comércio.

A crise de 1994 no México – e a sublevação zapatista concomitante – fizeram os EUA alterar sua tática. Se deram conta que era demais que os países latino-americanos simplesmente se agregassem ao acordo já estabelecido – ainda mais se o primeiro país que havia aderido vivia a primeira crise específica do modelo neoliberal.

A proposta foi modificada para a Alca – Área de Livre Comércio das Américas –, que Bush propôs no Canadá, em 2000, e só teve um voto contra: o de Hugo Chávez. Todos os outros – FHC, Menem, Fujimori et caterva – a favor.

A fase final da negociação da Alca pegou o Brasil já não mais com a dupla FHC-Celso Lafer, mas com Lula-Celso Amorim, e o Brasil inviabilizou a Alca, abrindo caminho para a priorização dos projetos de integração regional.

Os EUA tiveram que readequar sua estratégia, passando a centrar-se nos Tratados bilaterais de livre comercio. Retomou a prioridade do Chile, depois países da América Central – a começar pelo Panamá e pela Costa Rica –, depois com o Peru e a Colômbia.

Porém esse processo foi afetado diretamente pela emergência dos governos progressistas em alguns dos países mais importantes do continente, assim como pelo enfraquecimento do México – ponta de lança dos EUA no continente –, assim como pela recessão internacional, que tem na economia norte-americana um dos seus epicentros. Ao isolamento político dos EUA diante de novos organismos regionais – como Unasul, o Banco do Sul, o Conselho Sul-americano de Defesa, a Comunidade de Estados da América Latina e do Caribe, se somou o isolamento econômico, porque os EUA não têm o que propor aos países da região, com sua economia em recessão.

Assim, mesmo países que assinaram Tratados de Livre Comércio com os EUA – como o Peru e a Colômbia – desenvolvem comércio crescente com os países do Mercosul – em particular com o Brasil. O Peru, por exemplo, tem na China e no Brasil seus principais parceiros comerciais, apesar do TLC com os EUA.

Mais recentemente os EUA incentivaram a formação da Aliança do Pacífico, buscando agrupar o México, o Chile, a Colômbia e o Peru. Uma aliança débil, não apenas pela recessão dos EUA, como também porque – como foi dito – dois desses países tem fluido comercio com países da região fora dessa Aliança. Da mesma forma, o Chile está prestes a derrotar a um dos mais entusiastas promotores dessa Aliança – Sebastien Piñera –, substituído provavelmente por Michele Bachelet, de Partido Socialista.

Os órgãos da mídia vinculados aos EUA – dentre os quais especialmente El Pais – buscam projetar um falso dinamismo dessa Aliança, comparado com uma estagnação do Mercosul. (O mesmo jornal que publicou recentemente um ridículo articulo dizendo que o México disputa com o Brasil a liderança continental).

Isto se dá justamente quando o Mercosul se amplia – com o ingresso da Venezuela, do Equador e da Bolívia – e se dota de condições de formular projetos de integração regional consistentes, de caráter industrial, tecnológica, educacional, entre outras esferas, possibilidade totalmente vedada aos países da Aliança, baseados no livre comercio e não na integração regional.

Trata-se de uma nova Aliança, que atualiza a infeliz iniciativa norte-americana da Aliança para o Progresso, dos anos 1960. Elas têm em comum a tentativa de criar um dique de contenção ao avanço de governos progressistas na América Latina. Na sua primeira versão, buscava prevenir que outros processos revolucionários não se seguissem ao de Cuba. Agora, se trata da tentativa de frear a incorporação de novos países ao poderoso movimento de integração de governos pós-neoliberais. Fracassou na primeira vez, vai fracassar desta vez também.

Tags: Internacional




5 Comentários Insira o seu Coméntario !

Jomar - 31/05/2013
Sem entrar no mérito das virtudes da Aliança do Pacífico, não dá para concordar com as maravilhas do MERCOSUL apresentadas pelo colunista. Não há como negar que o bloco anda de lado há décadas, que o protecionismo cresce enquanto a integração patina e que os novos "membros" agregam muito pouco. Existe sim, muito papo e muita mídia... Não sei, mas do que eu tenho visto esses anos todos, só nós mesmo acreditamos que os vizinhos hispânicos têm algum interesse em integração conosco. Para eles, infelizmente, nós somos piores que os Estados Unidos, porque esses, pelo menos, tentam comprá-los, enquanto nós queremos que eles sigam nossa liderança e nossas boas intenções baseado apenas na nossa bela conversa. Já foi dito por seus governantes, de diversas ideologias e por diversas vezes, que nós somos ricos e temos que pagar pelo seu apoio. Enquanto nós não aceitarmos isso e colocarmos essa questão claramente para o povo brasileiro, essa conversa de integração será só isso, conversa. O povo brasileiro deve ser consultado: nós queremos tirar recursos dos nossos pobres e dar para os nossos vizinhos em troca do (incerto) desenvolvimento do bloco e do (improvável) apoio às nossas aspirações? Quanto estamos dispostos a pagar por isso? Ou alguém acha que o Paraguai e o Uruguai ficariam do nosso lado se pudessem obter condições vantajosas de interesses opostos aos nossos? A Argentina ficaria contra nós até de graça... Infelizmente, essa é a realidade e acreditar em qualquer coisa diferente disso é ingenuidade ou má-fé.


Nilccemar - 31/05/2013
Minha colega, comentarista Ignez, está correta na defesa do Mercosul. Mas sugere o Brasil como líder de um desenvolvimento independente, o grande arquiteto do pós-neoliberalismo? Justifique sua sugestão


orlando f filho - 30/05/2013
Os EUA ainda acham que estão na década de 60, quando as ditaduras imperavam no continente. Não querem que principalmente o Brasil, seu concorrente direto, chegue ao topo pois sabe que os recursos naturais do Brasil o deixam em posição privilegiada e é fato que os gringos não tem tanto recursos e precisam roubar dos ,países pobrex que os possuem em abundância. O Brasil tem uma responsabilidade de liderança no continente e não pode abrir mão, o que Lula e Dilma entenderam; Ainda bem.


Amauri - 30/05/2013
Embora o Emir tenha alguns acertos em sua esplanação, fica clara a intenção de distinguir o REGIME global neoliberal do chamado "grupo progressista", mas pelas prioridades e prostituição desses governos com os interesses das elites dominantes, a única diferença do neoliberalismo é a RETORICA e o aumento das migalhas ao povo, embora ilusória, pois é o tal de "dar com uma mão para tomar com a outra".

Isso tudo me faz lembrar de uma brincadeira infantil, a ELITE GLOBAL DIZ: -boca de forno? OS GOVERNOS DIZEM:-forno!, A ELITE GLOBAL ENTÃO DIZ: -faça o que eu digo!, E OS TAIS GOVERNOS RESPONDEM: -faço!


Ignez - 30/05/2013
Concordo, Emir. O Mercosul só não brecará mais essa infeliz tentativa de avassalar a América do Sul se seus governantes claudicarem nos processos de integração já em andamento. Confio que os governos pós-liberais continuarão se firmando no Brasil e em todos os países do Mercosul, à despeito da oposição raivosa que, em seus domínios midiáticos, tenta amesquinhar os avanços alcançados. Brasil e Argentina têm um tremendo desafio pela frente.