25/02/2012 - Copyleft

As duas maiores batalhas no Brasil de hoje

por Emir Sader em 25/02/2012 às 08:07



Emir Sader

Em meio a tanta dispersão imposta pelas manchetes da mídia, não fica claro para os brasileiros, quais são as batalhas centrais que o país tem que enfrentar nestes anos. A nova tendência no país, gerada na década passada e que se estende nesta, é a existência de uma nova maioria política no Brasil. Se a reeleição do Lula poderia obedecer a uma tendência a reeleger um presidente – como no caso de FHC -, a eleição da Dilma apontou para esse novo fenômeno: classes populares emergentes se constituíram no eixo de uma nova maioria politica, que elegeu e reelegeu o Lula e que elegeu a Dilma (apontando, com grande previsão de se confirmar, sua reeleição).

Por outro lado, as dificuldades para se articular oposição ao governo, com partidos enfraquecidos, tanto à direita, quanto à esquerda, confirmam a hegemonia do projeto encarnado pelos governos Lula e Dilma. O núcleo opositor ao governo se concentra na mídia privada que, conforme confissão de uma diretora da associação que os congrega, substituem aos enfraquecidos partidos opositores.

Mas esse projeto político vencedor tem grandes desafios pela frente, frequentemente obscurecidos para a grande maioria dos brasileiros, pela ação dispersiva da mídia, que insiste em buscar que a atenção das pessoas se concentre em irregularidades da gestão pública. O objetivo é desqualificar tudo o que tenha a ver com Estado, para tentar, por oposição, projetar o desmoralizado mercado e as empresas privadas que tem nele seu território privilegiado.

No entanto, o Brasil tem, entre tantas tarefas, duas que se configuram, no governo Dilma, como as mais importantes. A primeira, a elevação do ritmo de crescimento da economia e de extensão das políticas sociais, mesmo em meio aos efeitos negativos da dura recessão no centro do capitalismo. É uma proeza, mas hoje já possível, devido ao dinamismo de economias do Sul do mundo, mostrando que já existe um mundo multipolar. Sofremos os efeitos da recessão na Europa, nos EUA, no Japão, mas não são mais suficientes para arrastar-nos à recessão junto com eles.

Para isso o governo tem que zelar, antes de tudo pelos fatores que pesam sobre a nossa economia, impedindo que o ritmo de crescimento econômico seja baixo como em 2011, possa se elevar acima de 4%, oxalá acima de 5%, condição da manutenção e expansão das políticas sociais, que permitam que o governo cumpra com o maior os seus compromissos: terminar com a miséria até o final deste mandato.

A outra tarefa central é a de apoiar todos os mecanismos que permitam que a sociedade brasileira deixe de ser dominada pelos valores mercantis, egoístas, individualistas, que acompanharam a instalação do modelo neoliberal no nosso país. Que o acesso justo a bens de consumo, antes sempre negados à grande maioria, possa satisfazer suas necessidades antes reprimidas, mas que a consciência social das razoes pelas quais essas conquistas se tornam realidade possibilite que seja acompanhado dos valores da solidariedade, da cooperação, da fraternidade, do humanismo.

O neoliberalismo projetou a ideia de que a ascensão social tem que se dar necessariamente através da disputa selvagem no mercado de uns contra os outros. Como diminuíam os recursos disponíveis e as oportunidades, a visão malthusiana predominava. (Até agora um partido de direita da Catalunha fazia sua propaganda eleitoral egoísta com o lema: Não há para todos, para propagar que não se deveriam aceitar imigrantes na Espanha.) O famoso “Farinha pouca, meu pirão primeiro.”

As políticas redistributivas dos governos Lula e Dilma, que têm mudado, pela primeira vez, a desigualdade social no Brasil, diminuindo-a, respondem a direitos da massa da população, ate então marginalizadas do acesso a bens fundamentais. São resultado de uma mentalidade diferente, que reconhece o direito de todos e não apenas a capacidade de alguns de se sobrepor aos outros. Se governa para todos, se colocam os recursos arrecadados pelo Estado a serviço de todos. Antes se governava para um terço da sociedade, bastava a demanda desses setores mais ricos para alimentar uma economia que produzia prioritariamente para eles.

Para que novos valores predominem, as grandes camadas populares emergentes são essenciais, porque são elas que agora têm acesso a bens que antes lhes estavam vedados. A geração e socialização de novos valores, coerentes com as políticas governamentais atuais, requer um processo de democratização na formação da opinião pública, quebrando-se o monopólio privado, que bloqueia o processo democrático de informação e de difusão de valores solidários.

Mas requer também a articulação de políticas educativas e de cultura, que cheguem aos rincões mas distantes do país, à todas as escolas, espaços culturais, à vida comunitária da população mais pobre, incorporando-a não apenas ao circuito do consumo, mas também fazendo delas os maiores agentes de valores democráticos e solidários. Aqui se disputa a consolidação dos avanços conquistados, transformando a nova maioria politica em maioria ideológica, mediante a consciência social de todos.

Tags: Política




10 Comentários Insira o seu Coméntario !

Roberto - 29/02/2012
Bom, então resta à esquerda fechar os meios de comunicação à direita, de modo a conduzir o povo ao paraíso socialista. :D


Darcy Brasil Rodrigues da Silva - 25/02/2012
Infelizmente,professor Emir, à fraqueza dos partidos de oposição , à esquerda e à direita, não corresponde à lógica aristotélica de que,por exclusão, os partidos de centro seriam fortes. Na verdade, a prevalência deste centro nas principais medidas de governo adotadas nesses últimos dias ( chamando-nos a atenção a concessão da exploração dos dois principais aeroportos brasileiros à empresas privadas,em condições que se costumam considerar "de pai para filho" ) representa, em minha opinião, justamente o resultado natural desta fraqueza bipolar. É doloroso reconhecer que uma das consequências do rebaixamento da política ao nível do economicismo vigente, é a associação que o homem comum, pertencente, de uma forma ou de outra, às classes emergentes a que o senhor se refere, filia seu apoio ao governo fundado em expectativas consumistas que lhes incute a máquina de propaganda burguesa. Sim,professor, porque ,se o governo depreende o seu prestígio junto ao povo da satisfação de necessidades reprimidas e não atendidas pelos governos neoliberais que lhe antecederam, uma das formas de encostar o governo contra a parede é estimular nesses setores emergentes o incremento de suas expectativas de consumo, gerando uma "dança das cadeiras" na relação oferta e demanda, onde, ao menos ao nível simbólico, se produz um individualismo,uma competição, fomentados pela impossibilidade de se atender a todos segundo os novos desejos incutidos em suas fantasias. Desse modo, enquanto o governo se esforça por satisfazer necessidades reprimidas e que representam indiscutíveis elementos de melhoria da condição de vida da população, a mídia corporativa, ao criar novas necessidades , típicas às madames das Daslu ( e que Deus tenha piedade de suas almas!), procura inviabilizar o governo no imaginário da classe média emergente, ao pastoreá-lo para o aprisco das necessidades e futilidades minimalistas. E o que permite que isso aconteça? A fraqueza do PT e de seus aliados entre a esquerda que se descuidaram completamente do trabalho de educação da consciência do povo, focada na construção de uma consciência social que se aproprie dos valores pelo senhor arrolados no final de seu texto, ou seja, "os valores da solidariedade, da cooperação, da fraternidade, do humanismo", aos quais agregaríamos os do sentimento de pertencimento a uma comunidade latino-americana em construção. Para concluir, professor, o rebaixamento dessa consciência política não pode ser somente imputado ao monopólio dos meios de comunicação. Ela é produto simultaneamente da submissão a uma visão economicista da política, que não considera entre os bens fundamentais que devem ser servidos ao povo, o seu próprio protagonismo, a sua capacidade de decidir soberanamente sobre o seu destino, sem necessidade de tutores,por mais bem intencionados que estes últimos possam ser ( e de que sabemos o inferno estar lotado).


ricardo silveira - 25/02/2012
Continuar crescendo parece que é até tranqüilo, o segundo desafio é que é o problema. Já demorou demais o desinteresse do governo em viabilizar um espaço público democrático e politizado à população. E, nada indica que isso vá mudar.


Patrick - 25/02/2012
Muito pertinente sua análise Prof. Emir, só que penso que o governo ainda e muito submisso aos interesses do mercado financeiro, e só ver o corte de R$ 55 milhões do governo Dilma, que vai subtrair recursos da educação, saúde, previdência etc para alimentar o parasitismo financeiro. Sou favorável ao governo do PT, tanto que votei no Lula em 2006 e na Dilma em 2010, mas se o governo continuar a dar prioridade a política econômica de benefício ao grande capital, com os juros altos, cortando gastos sociais para transferir mais recursos para o sistema financeiro, vou começar a pensar que infelizmente e verdade que o PT esta se afastando da classe trabalhadora e dos movimentos sociais, e esta servindo aos interesses do capital.


Fábio Faiad - 25/02/2012
Zilda, tudo bem? O Sebrae trabalha com a ideia de empreendedorismo individual, sim, mas também com a de cooperativismo. Talvez a sua indignação (correta, por sinal) tenha sido porque o Sebrae foi citado como o principal agente responsável pelas tais "portas de saída". Eu critico este "protagonismo" dado ao Sebrae, pois tem vários órgãos do Governo Federal que também têm que mostrar serviço nessa área (Bacen, Bndes, Ministérios da área social em geral, BB, CEF, Universidades Federais etc.). Se não for um trabalho planejado e coordenado, com todos ajudando, vai ficar difícil...



O Emir está certo quando afirma que uma das grandes batalhas é a elevação do ritmo de crescimento da economia e de extensão das políticas sociais. Precisamos colocar o Estado fortemente no caminho da ampliação gigante da atuação social. Dilma apontou corretamente para o fim da pobreza absoluta, e há com certeza vários outros desafios na área social a serem encarados para valer.



Abs, Fábio Faiad.


Marta - 25/02/2012
O slogan do governo Lula diz, em poucas palavras, sobre a essência das suas políticas. Foi um slogan forte e consistente: BRASIL, UM PAÍS DE TODOS".

Difícil ou quase impossível é encontrar textos como esses do Emir, densos e bem articulados, escritos por alguém que queira defender o projeto neoliberal. Parabéns Emir.


zilda - 25/02/2012
Mesmo com todos os projetos de políticas focalizados: "política de voucher" na educação; rede cegonha, planos de saude privada, seguro saúde pela CEF,etc., que solapam o SUS; e previdência privada para servidores públicos e classe C, ainda assim não está diminuindo o papel do Estado na oferta de serviços essenciais de educação e saúde? Programas assim não estão na órbita do mercado reforçando, portanto, o neoliberalismo?

Sem falar que a "porta de saída" do Bolsa Família, que está sendo arquitetada no Planejamento, dá-se por meio do Sebrae que trabalha com a idéia de empreendedorismo individual, e não no campo do cooperativismo e da economia solidária. Parece que esses dados não batem com o otimismo quanto a novos valores de solidariedade e cooperação. Ou estou enganada? Gostaria que alguém me ajudasse a pensar e analisar a situação por outro ângulo.


José Osivan Barbosa de Lima - 05/03/2012
Concordo com a mensagem, mas, como socialista e defensor de um mundo melhor para todos vou acrescentar mais um que seria uma melhor distribuição salarial. O correto seria para quem ganha acima do salário mínimo um reajuste salarial igual a inflação e para os pobres que ganham o salário mínimo ou menos um reajuste acima da inflação. Isso valendo para trabalhadores da ativa ou não. Creio que o egoísmo humano vai ser contra essa ideia. Mas se nós queremos uma sociedade mais justa e igualitária o caminho é esse não existe outro. Esse é o discurso certo e sem demagogia


Hilmar Ilton S. Ferreira - 02/03/2012
Data venia e salvo melhor juízo, a PresidentA caminha para desfazer as muitas melhorias e progressos conseguidos no mandato do seu cirador.



Seu acendrado senso de gerente de fluxo de caixa -- que o é muito mais que presidente -- a tem levado a cortar, cortar e cortar, cortando o progresso, o crescimento, a melhoria no Bem-Estar.



O último episódio da Previdência dos Funcionários -- ação cruel prefrida pela PresidentA, desprezando a correção dos erros nas aposentadorias do INSS -- só revela sua genética vocação tucano-neoliberal.



Eleições 2014 estão próximas,