16/03/2015 - Copyleft

As preocupações de uma presidenta

Em conversa com intelectuais, Kirchner buscava encontrar as bússolas que anteriormente as grandes interpretações teóricas haviam sido para a militância política

por Emir Sader em 16/03/2015 às 06:32



Emir Sader

No marco do Fórum pela Emancipação e a Igualdade – convocado e extraordinariamente bem organizado pela Secretaria de Cultura do governo da Argentina, dirigida por Ricardo Foster -, Cristina Kirchner encontrou um momento para nos receber na Casa Rosada.
 

Em seguida à sempre renovada emoção de entrar naquele palácio governamental, nos topamos com um comício que Cristina fazia para centenas de jovens em plena Casa Rosada, depois de assinar o aumento das bolsas estudantis. Se podia ouvir nos pátios do palácio sua voz explicando o significado do ato que ela havia recém assinado, no marco dos dias e meses tensos que vive o pais.
 

Em seguida, Cristina veio diretamente à sala que escolheu para nos receber. Depois de saudar-nos pessoalmente, um a um, explicou  que aquela era a sala de despachos de Evita, desde onde tinha dirigido pela última vez a palavra ao povo, sala que fica ao lado daquela de onde o Perón dirigiu suas últimas palavras ao povo, momento este que Cristina, jovem militante, tinha presenciado. A sala de Evita, como costuma acontecer, tinha uma espécie de vitrine com um de seus vestidos e outras prendas pessoais, da grande líder popular argentina.
 

Logo em seguida Cristina nos dirigiu algumas palavras, expressando sua inquietações, como militante e como presidenta da republica. Começou situando-se como alguém do mundo da modernidade, que encontra dificuldades para encontrar as explicações que necessitamos em um mundo da posmodernidade.
 

Como é do seu estilo, foi diretamente ao tema: o momento da maior virada na história contemporânea, na sua opinião, não foi a queda do Muro de Berlim, mas a queda das Torres Gêmeas. Deixou claro, que obviamente que a do Muro fechava o período da modernidade, mas o que teria introduzido a posmodernidade, foi a outra queda, a das Torres.
 

Exemplificou a dimensão nas nossas próprias vidas dos dois fenômenos marcantes, dizendo que ela se lembra precisamente onde estava, com quem estava, como soube e como reagiu à queda das Torres Gêmeas. Mas em comparação, não tinha ideia de onde estava, com quem, de que forma soube e como reagiu imediatamente à queda do Muro de Berlim.
 

Argumentou que se poderia explicar inclusive a queda do Muro de Berlim com os argumentos da modernidade – direita/esquerda, capitalismo/socialismo, etc.  – mesmo se o ocorrido contradissesse as expectativas que tinha a esquerda sobre mesmas polarizações.
 

Mas os atentados terroristas que levaram à queda das Torres abriram um novo período, introduzindo razões religiosas em fenômenos que marcam o que ela chama de início da posmodernidade.
 

Cristina constatou que outro elemento do novo período é nossa incapacidade para lidar contra fenômenos importantes do nosso tempo, especialmente a natureza do período histórico atual. Como nos estão faltando as grandes teorias que não apenas tinham explicado os períodos anteriores, mas que os haviam previsto, antecipado e projetado.
 

De maneira audaz, mas não menos pertinente, Cristina disse que, ao contrário do que se costuma dizer, não são os acontecimentos que geram ideias, mas são as ideias que propiciam novos grandes acontecimentos e períodos históricos, apontando para o futuro. A falta dessas teorias na atualidade nos deixa, de alguma maneira, fazendo voos cegos.
 

O que fazia Cristina diante de convidados sentados em torno da mesa com ela, na sala de Evita, era interpelar-nos – a gente como Noam Chomsky, a Leonardo Boff, entre tantos outros – como que angustiosamente pedindo que lhe ajudássemos a encontrar as bússolas que anteriormente as grandes interpretações teóricas haviam sido para a militância e para os governantes que se atreviam a assaltar o céu.
 

Na situação privilegiada de ser uma das quatro pessoas escolhidas para falar – as outras foram Chomsky, Boff e uma dirigente do Sein Fein, da Irlanda – eu tratei de convida-la para que viesse ao Fórum que se realizava em Buenos Aires, precisamente para interpelar a todos os intelectuais ali presentes. Que estes, deixados a si mesmos, tentem interpelar uns aos outros a elaborar teorias sobre teorias, ideias sobre ideias, de costas para as grandes interrogações da realidade. E como é fundamental que os governantes que, como ela e outros na América do Sul hoje, se atrevem a decifrar o futuro pela via de governos audazes, interpelem constantemente aos intelectuais, fazendo chegar a eles suas preocupações, as questões que a pratica da direção politica dos nossos países colocam para os que assumem com coragem essas responsabilidades.
 

Cristina não pôde vir ao Fórum, mas a própria reunião com ela na Casa Rosada serviu para que nos fizesse chegar suas angustiadas preocupações, que ela, nos seus vai e vens cotidianos, não tem possibilidade de dedicar tempo para sua abordagem. Ficou a interpelação para que tenhamos a sensibilidade e capacidade de contribuir para atender as preocupações dessa Presidenta tão singular no seu vigor, na sua coragem, na sua audácia, no seu encanto como pessoa e como dirigente, que a Argentina tem o privilégio de ter.




Tags: Internacional,  História,  Política




16 Comentários Insira o seu Coméntario !

Oliveira Simões - 27/05/2015
Concordo com Horacio Joaquin Perez e assino em baixo. Danunzio deve ser um pseudo-intelectual frustrado. O simples fato de Emir Sader ter sido escolhido para um debate ao lado de Noam Chomsky demonstra que ele é um cara competente e sabe do que está falando. Gosto muito de ler as suas análises - assim como gusto de Chomsky - porque são muito esclarecedoras, um verdadeiro antídoto à lavagem cerebral ditada pela mídia corporativa. Danúnzio está aqui reproduzindo o discurso do PIG.


eric pereira - 24/03/2015
Senhor Roberto seu discurso apartidário e agressivo, relegando a responsabilidade de fazer a analise política do nosso país ao jornalismo é um discurso suicida. Por favor Globo e Cia analisando a política nacional é o desastre que estamos vivenciando, nosso caro Emir Sader é autoridade na Esquerda latino americana e suas analises seja em Congressos ou em mídias alternativas aponta as contradições dos governos de esquerda inclusive o do Brasil. Estas contradições são próprias dos Estados burgueses, mesmo governado por progressistas. Neutralidade jornalista e intelectual é conversa pra boi dormir em um país onde o principal partida da direita é o monopólio midiático vigente.


niveo souza - 20/03/2015
Esse 1.000.000 de paulistas, não é nem a metade da "pequena diferença" dos votos da Dilma sobre Aécio.


Marcia Eloy - 20/03/2015
Qual é o jornal independente de esquerda equivalente ao Globo? Ou melhor com a força econômica do Globo.


roberto danunzio - 19/03/2015
Horácio, Emir Sader pode falar de Marx para gringo ver, mas aqui nestas páginas faz a política rasteira do PT que está levando o país e as esquerdas para um beco sem saída.


Horácio Joaquín Perez - 19/03/2015
Caro Roberto Danuzio: talvez eu não conheça o Emir tão bem como você. Mas com certeza a Cristina conheço muito bem e não bate com sua avaliação de que ela não liga para intelectuais e que visa apenas o poder pelo poder. Aliás, essa é a tábua rasa das análises da direita, que procura igualar os políticos para desacreditar a todos. Também estou, como você, indignado com as concessões neoliberais da Dilma. Mas o que tenho acompanhado neste site vai de encontro a essa indignação. Finalmente, não existe o tal jornalismo independente de tudo. Esse negócio de nem esquerda nem direita, só em Marte.


Horácio Joaquín Perez - 18/03/2015
Em tempo: assisti ao vivo pela Web parte do Simpósio do qual Emir fala, e pude apreciar a própria intervenção do Emir por lá, sobre os desafios da esquerda latinoamericana, muito esclarecedor. Este é o outro papel do verdadeiro intelectual, além de acompanhar os processos políticos em curso: o de contribuir com esses mesmos processos, retomando as raízes históricas do internacionalismo revolucionário. Quando Emir, durante sua fala, citou Marx ("O objetivo do capital não é a produção, mas sim a acumulação"), arrancou eloquentes aplausos de um público de todas as idades (predominantemente jovens) que lotava o Teatro Cervantes e alguns quarteirões do lado de fora, onde assistiam em telões. Está na web, no site da TV Pública Argentina, onde podem ser vistas todas as palestras dos 3 dias. A Dilma precisa se cercar de intelectuais como os que lá estavam, pois não há saída prática que antes não seja teórica. Subestimar a luta de idéias deu no que deu: nem mídia própria o governo tem,às vezes (pasmem) por não ter o que dizer.


roberto danunzio - 18/03/2015
Horácio, o Emir Sader faz este tipo de idealização o tempo todo em sua coluna, notadamente em relação ao grão mestre Lula. Isto não é tarefa de intelectual, é tarefa de jornalista rendido aos grandes interesses, tarefa de quem quer criar mitos para depois faturar em cima, econômico e/ou politicamente. Enquanto não tivermos uma imprensa independente do poder econômico e independente do poder político de esquerda ou de direita, os quais têm o rabo preso com os grandes interesses, não haverá a isenção, o distanciamento, a inteligência que o leitor, há muito, merece. Emir Sader é convocado para este tipo de evento como se se tratasse de um intelectual porque isto é assim mesmo que acontece. Existe um certo número de figurinhas tarimbadas ditas de esquerda e progressistas que estão em todas. Como não me impressiono com posições mas sim com posturas, não me deixo enganar. E você, meu caro, até quando?


Horácio Joaquín Perez - 18/03/2015
Polemizo com alguns comentários aqui postados: não ac que a reunião relatada por Emir Sader seja "rasgação de seda" é muito menos uma despreocupação com o Brasil pegando fogo enquanto Emir fica discorrendo com a Cristina. Creio que há um desconhecimento sobre a conjuntura continental, sobretudo dos países com governos de esquerda. O papel do verdadeiro intelectual é analisar todos os processos em curso, ainda mais os que se parecem com o nosso. Brasil e Argentina sofrem ataques de uma mesma elite, que utiliza os mesmos meios (principalmente os Meios de comunicação el judiciário), porém com respostas diferentes por parte dos governantes. Eu diria que a Cristina e a Dilma aplicam remédios diametralmente opostos. E não precisa ser sábio para concluir qual está dando mais certo. Ao menos desde uma perspectiva de esquerda. Finalmente, nada mais equivocado que colocar a Cristina na vala comum de políticos que não ligam para teorias. O próprio event do qual Emir participa e as inquietações teóricas da Cristina compartilhada com intelectuais mostra isso. Dialogar com Chomsky e outros citados, para a maioria dos políticos seria uma saia justa, da qual sairiam com generalizações e banalidades estilo FHC...


Odorico Ribeiro - 16/03/2015
Ontem pude ver que O Globo (online), às 18:40 hs publicou que havia aproximadamente um milhão de pessoas na Paulista. Obviamente a mídia vai ressaltar e cantar vitória com essa cifra que com certeza é uma cifra importante.

Só que tal cifra não é nenhuma novidade - só para os que se deixam enganar pelo alvoroço que a mídia vai fazer. Quem não sabia que em SP há tantos conservadores e até mais do que isso? Onde está a novidade? Mas, claro, a mídia vai falar para os seus seguidores e vai fazer com que isso seja a maior prova a favor dos seus interesses. E enganará a muitos com certeza, como tem feito há muito tempo.

Magnificar essas manifestações faz parte do show da mídia a seu favor. Isso - se queremos ser sérios - se traduz da seguinte maneira: a democracia brasileira está refém da mídia, dos barões da comunicação, que estão interessados em derrubar um governo legítimo. Vamos falar sério, quem ainda não sabia do conservador voto paulista?

E o que querem esses barões? Bom, entre outras coisas os nossos bens minerais, Petrobrás incluída. Também querem facilitar o fim da Unasul, por motivos óbvios. Washington agradeceria muito. Enfim, nada que já não tenhamos dito aqui anteriormente.

Mas há muitos outros elementos, claro que sim. Por exemplo, com a saída da Dilma se freariam vários processos que vem por aí e que são péssimos para os conservadores. Vejam o caso do HSBC recentemente descoberto e conhecido mundialmente como Swissleaks. Cito: "a lista do HSBC inclui exemplares graúdos do pelotão midiático que hoje fuzila a 'corrupção petista'; um ex-diretor de Veja, José Roberto Guzzo, um Frias da gema, a viúva do patriarca da Globo..E para arrematar, Fernando Rodrigues, funcionário dos Frias, que tinha a lista há dois meses e não disse nada sobre tão pedagógicas presenças" (Carta Maior)

Bom, fim de papo. Na realidade essa manifestação de hoje não deveria mudar nada. Só que com os enganos da mídia mudou, sim. Aumentam os sonhos, perigosos sonhos do conservadorismo. Apoiados - também perigosamente - por Washington. Triste e perigosa realidade, creiam.

Ah, ia me esquecendo. O milhão paulista vale, pois estamos numa democracia, mas os mais de 55 milhões que votamos na Dilma também. Ou não?



roberto danunzio - 16/03/2015
Chega desta rasgação de seda com os chamados grandes vultos históricos. Vargas, Lula, Kirchner! Vamos deixar para a grande imprensa esta mania de produzir mitos para faturar em cima. Cristina não está nem aí para intelectuais, assim como Lula, Dilma e produtos similares não estão nem aí para o que pensam os intelectuais. O negócio desta gente é o dia a dia mesquinho da política em que se debatem para se manter no poder, custe o que custar. Enquanto V.Exas. estão envoltos no jogo das grandes palavras, sobre os tapetes avermelhados do grande palácio, diante do busto da grande dama, na prática Dilma cortou pela metade a pensão das viúvas, repetindo o gesto de 2003, da reforma da previdência pública, ou seja, mais um abate do cordeiro do povo no altar do Deus Mercado. Verdadeiros intelectuais não se prestam ao trabalho da manipulação, não se prestam ao trabalho de forjar mitos.


Amauri Spadari - 16/03/2015
Quer que o presidente da câmara e do senado e a mídia golpista tudo mais se aquietem? é só o governo ameaçar voltar com as tarifas de energia elétrica aos patamares anteriores ao "ajuste" digo GOLPE contra o povo, para por atrito entre povo e e governo e assim pavimentar a derrubada do governo.


Luiz Felipe Oiticica Machado - 16/03/2015
Como seria bom que a presidente Dilma tivesse ao menos metade da coragem que a presidente Cristina tem para enfrentar a mídia reacionária e os demais setores da direita.

Dáles, Cristina! Acorda, Dilma!


Mário SF Alves - 16/03/2015
E aí?

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Posmodernidade.... sim... e não...

Torres gêmeas.... sim...

Sader, Chomsky, Leonardo Boff e uma dirigente do Sein Fein... sim... mas... só?



Por isso, me pergunto: não estaria a posmodernidade a exigir um computador quântico que trabalhasse as equações políticas/realidade objetiva engendradas pela referida posmodernidade?



Penso que a exemplo do que afirmou o Papa Francisco, o cenário já seja um cenário de guerra global ou... [ainda] não?



E o discurso de Valdai? Não seria ele o diagnóstico fundamental da realidade e respectiva correlação de forças em nível mundial?



Há outra possibilidade entre socialismo ou barbárie? Como? Se após a queda das WTC os EE.UU. entenderam que só a eles cabe definir as regras do jogo?



Waldemar De Gregori - 16/03/2015
Meu Caro Emir. Posso oferecer meu grão de areia?

Manifesto Proporcionalista que se pode ver em:

http://books.google.com.br/books?id=i0oxBQAAQBAJ&hl=pt-BR&source=gbs_navlinks_s

e em português em: www.csproporcional.com.br

Também "Judeus", "Judeus Não-Judeus" e um Manifesto pela Governança Planetária em:

http://books.google.com.br/books/about?id=sp0aBgAAQBAJ&redir_esc=y

"Judíos", Judíos no-Judíos" y un Manifiesto por la Gobernanza Planetaria:

http://books.google.com.br/books/about?id=lt8vBgAAQBAJ&redir_esc=y

"Jews", "Non-Jewish Jews", and a Manifesto for Planetary Governance:

http://books.google.com.br/books/about?id=4tuMBgAAQBAJ&redir_esc=y

Abraços e democracia.

W. De Gregori



Amauri Spadari - 16/03/2015
O Brasil pegando fogo.. e o Emir, discorrendo sobre CRISTINA e argentina.

Aqui o golpismo é ferrenho, mas o governo é muito vacilante e arma a oposição com apoio não só dos que não votaram em Dilma, mas tambem dos que votaram, pelo fato das medidas anti-populares e contrárias as anunciadas em sua campanha.