16/08/2013 - Copyleft

As raízes da crise egípcia

por Emir Sader em 16/08/2013 às 04:46



As raízes da crise egípcia

A chamada “primavera árabe” foi, de forma afoita, chamada por alguns de uma revolução. Foi muito importante, principalmente porque quebrou um eixo fundamental da política dos EUA para a região – a ditadura de Mubarak. Não por acaso o país ocupa o segundo lugar na lista de receptores de apoio militar dos EUA, só superado por Israel.

Mas como fenômeno político, foi a vitória de uma luta antiditatorial. Permitiu que novas forças laicas aparecessem, somadas à força mais tradicional da oposição à ditadura – os islâmicos, organizados na Irmandade Muçulmana.

As eleições tiveram o triunfo dos islâmicos, que derrotaram, por estreita margem, no segundo turno, um candidato ligado à ditadura do Mubarak. Eleito Morsi, foi convocada uma Assembleia Constituinte, com maioria islâmica, mas um peso importante das novas forças laicas.

O erro mais grave de Morsi foi permitir que fosse elaborada e aprovada uma Constituição conforme os valores islâmicos, que impõe esses seus valores ao conjunto da sociedade, dividida entre forças islâmicas e laicas. Somada à crise econômica – que promoveu uma forte pressão do FMI para a aceitação de um empréstimo, com a correspondente Carta de Intenções, que Morsi rejeitou, consciente do que significaria para o país, mas sem elaborar alternativas – o Egito se viu envolvido em nova onda de mobilizações, agora contra sua administração.

Sucederam-se as mobilizações gigantescas, dos dois lados, a favor e contra o governo, numa situação de empate político. Que foi desempatado pela ação do Exército, que tinha sobrevivido incólume ao fim da ditadura e agiu para derrubar o governo do Morsi.

Um golpe militar, mesmo se com apoio popular. Setores que haviam se mobilizado saudaram o golpe, acreditando que poderiam derrotar os islâmicos e acercar-se ao poder.

Mas a capacidade de resistência dos islâmicos terminou rapidamente com essa ilusão. A repressão militar não se fez tardar e a polarização entre o Exército e a Irmandade Muçulmana se impôs.

Os EUA, incomodados, porque têm no Exército seu principal aliado – por isso Obama não pode usar a palavra golpe, porque estaria obrigado a suspender os auxílios militares ao Exército – não podem aparecer publicamente apoiando a interrupção de um processo democrático, mas tampouco podem condenar o regime.

O pior dos mundos se impôs: militarização do país – com o estado de sítio e a nomeação de governadores ligados ao militares nas províncias – e resistência dos islâmicos, com os setores laicos deslocados.

A primavera egípcia desembocou neste outono.

Tags: Internacional




12 Comentários Insira o seu Coméntario !

Rebeca - 22/08/2013
Sr Emir Sader,



O senhor precisa se informar um pouco mais sobre a verdadeira origem, financiadores e os propósitos da Irmandade Muçulmana.

Lamentável este post...


Marcia Eloy - 21/08/2013
Já foi dito que a democracia é o pior regime que existe, só que não há outro melhor. É pena que os jovens que estão na rua e que nasceram após a Ditadura no Brasil, não valorizem a Democracia.


Camila Magalhaes Carvalho - 20/08/2013
A democracia não pode ser condicional, mesmo que num regime onde não há separação entre política e religião. Se isso é uma meta coletiva, que se alcance pelas vias estabelecidas pela democracia e não a partir do velho mito sacrifical que tolera a violência como meio necessário. Sejamos duro, sem perder a ternura jamais!


AMAURI - 19/08/2013
Mais um dia e o dolar vem surfando na crista da onda dos especuladores elitistas, e surfa tranquilo, diante da inércia do Sr. Tombini, Mantega, Dilma pois as "reservas em dolar" são intocáveis, tempos que financiar a crise dos EUA.


Amauri - 19/08/2013
Por falar em militarização, é um ABSURDO TOTAL E COMPLETO o "serviço militar obrigatório para o sexo masculino no Brasil.

Primeiro porque se estamos numa democracia, o serviço militar deveria ser VOLUNTÁRIO com é nos EUA.

Segundo porque se fala tanto em igualdade dos sexos, não privilegiar um em detrimento do outro, mas ná pratica o homem é obrigado a fazer o alistamento militar enquanto a mulher que quer "igualdade" mas pelo que vejo só nas coisas boas, não está reclamando e muito menos o governo corrige essa distorção.

Em terceiro porque é obrigatório apenas para o filho do pobre, que acaba sendo prejudicado em seus estudos, trabalho, ajuda a familia etc, porque o flho do rico, o doutor tal é amigo do comandante fulano e arrruma tudo:( "meu filho vai ser doutor como eu, estou colocando ele na faculdade de medicina paga e não pode perder um ano no exercito"), e não vai mesmo, e assim todos os bacanas ficam de fora, seja porque sãao doutores, engenheiros, grandes empresários, amigos do comandante, do prefeito, do deputado, do governador, do presidente ou e principalmente faz parte das SOCIEDADES SECRETAS e entre eles se ajuda em detrimento do POBRE.

EMIR meu filho, quase 3 mandados de presidente? o PT só empurrou com a barriga essa questão? onde está o bom senso, arazoabilidade? por favor, como o governo pesa não estar pavimentando solidamente a DERROTA em 2014?

voto obrigatório, horario de verão, serviço militar obrigatorio para homens pobres, grandes obras faraonicas dadas a empreiteiras que terceirizame a terceirizada terceiriza e todos ganham muito dinheiro, super faturado e todos os donos dessas empreiteiras são da grande irmandade das sociedades secretas.

Eu achei que iria valer a pena eu perder, sono, tempo, dinheiro, fazer campanha, votar no pt contra o collor, duas vezes contra o FHC e mais 3 vezes onde o PT saiu vitorioso, mas não FEZ E NÃO FAZ A LIÇÃO DE CASA.

Onze anos Emir, e continua a lenga, lenga da direita.

Não adianta fazer alguma coisa no social, esmolas, e no grosso PRIVILEGIAR OS GRANDES TUBARRÕES E SUAS INSTITUIÇÕES SECRETAS que dominam, corroem o grosso dos recursos públicos.

Sê aa petrobras acha que não está tendo lucro (duvido muiiiito), que mande emborra um monte de parasita que estão lá só com o cabide de emprego, ganhando salarios fora da realidade da renda do brasileiro e não fazem p... nenhuma.

Aumentar os combustívies?

SÊ insto ocorrer as manifestações de julho parecerão brincadeira de criança, e o governo pavientará em uma única tacada a derrota para 2014, 2018, 2...


Ana Cruzzeli - 18/08/2013
Muito triste, tudo isso. Fizeram o pior e não souberam carregar a vitória. Esperemos que a sensatez volte a reinar, mas depois de todo esse aparato de repressão, meses de trevas é só o que se pode esperar. É muito triste mesmo ver como o Obama está sendo eficaz no seu metodo de destruir o mundo. A queda da Libia tinha esse vies, o de enfraquecer o Egito. Os egipcios não perceberam nada disso. Temos que ficar cada dia mais atento, ele não desistiu de detonar o Brasil


Ricardo Meier - 18/08/2013
Não há dúvida de que foi um golpe militar, contra um governo democrático, e que está ocorrendo um massacre com objetivos político-religiosos. A democracia só serve para os "nossos" interesses, ou seja, na prática é um valor utilitário.



orlando f filho para Sérgio Amaral - 18/08/2013
Sérgio amaral, você é inacreditável!! Quer dizer que nós brasileiros não temos nada a ver com um golpe militar? Onde vc estava quando aqui foi dado um golpe em 64, quando muitas pessoas foram assassinadas, torturadas, desaparecidas? Quando agora a Comissão Nacional da Verdade está convocando pessoas que participaram do golpe(como o cel Brilhante Ulstra, responsável por 50 mortes) e você acha a dívida interna mais importante? Basta folhear qualquer caderno de economia que você encontrará informações sobre nossa dívida interna. Procure no arquivo que talvez você encontre algo à respeito. Parece que seu bom senso está meio distorcido.


Sérgio Amaral - 17/08/2013
Vejo que nos sites dos chamados progressistas, tem muita matéria que os intelectuais adoram ler e discutir nas suas rodas de bate papo. Acredito que seja um assunto sério este acima, mas em que reflete no dia a dia da vida dos Brasileiros ? Já não passou da hora de ser discutido este assunto que vou reproduzir que já publiquei em vários sites e não vi nenhuma linha sobre o assunto ? Oq acontece para este assunto tão profundamente inescrupuloso ser " abafado " das discussões e claro não ser divulgado para a grande e imensa maioria da população ??? Será que a Carta Maior é um veículo sério de verdade ??? Segue reprodução: Será que algum dia vou "ler" algum artigo falando com "muita" seriedade sobre o problema da dívida interna do Brasil ? Falo sobr este assunto deste link a seguir. https://www.youtube.com/watch?v=ChmYfkVDFSU . Entre todos veículos que leio e jornalistas estou à procura de algum que seja sério de verdade e coloque este assunto na pauta de discussões de nosso país. Pelo que vi na palestra da Mestre Dra. Maria Lúcia Fattorelli o assunto além de ser estarrecedor... está atrasado de ser discutido " alguns " anos... Esta Carta é um veículo de infrmações sério de verdade ? Ficaria feliz se mostrassem que sim e usassem a sua "tribuna" para aumentar o numero de pessoas cientes deste gigantesco problema. E obviamente ajudar o assunto crescer e iniciarmos o processo de auditoria destas contas.



Marcio Pessoa - 16/08/2013
Olá

Desculpa a pergunta, mas porque vcs não publicam a participação dos leitores. Escrevi aqui, esperando ser publicado, mas não veio nada. Podem me dizer.

Grande abraço

Marcio


Marcio Pessoa - 16/08/2013
Ainda acredito que Morsi cometeu erros morais que legitimaram o fluxo de oposicionistas nas ruas. O principal erro foi a perseguição de ativistas pró-democracia na sociedade civil, o que criou um clima de reprise da política de Mubarak. Isso minou muito o seu apoio externo. Aliás, vale lembrar que a perseguição de civis inocentes e ativistas fortaleceu a ocupação da Praça Tahrir no início de 2011 contra Mubarak. Outro fator fundamental é o patrimonialismo. Denúncias de corrupção e grandes aquisições de bens sem origem esclarecida mancharam a credibilidade de Morsi. Isto tudo tem que ser levado em conta. A população estava cansada da corrupção e do autoritarismo de Mubarak e começou a ver isto em Morsi também.


Fabiano Araújo - 16/08/2013
Na realidade, o golpe militar chefiado pelo ministro da defesa (sic) Siffi foi um golpe ANTIDEMOCRÁTICO, pois se dirigiu contra um governo eleito, não importando se tal governo é liderado por islâmicos ou não. Mesmo que os islamitas, por possuírem a maioria, tenham feito aprovar uma Constituição convenientes para eles, tal decisão deve ser respeitada. Aliás, o Ocidente não defende o princípio da maioria?. Na realidade, a derrubada de Morsi contou com o apoio, disfarçado dos EUA (e de Israel), porque o avanço dos islâmicos no mundo árabe ameaça o esquema geopolítico dos EUA em todo o mundo. Observemos que El Baradei, político ligado aos interesses do Ocidente (lembrem-se de sua atuação na AIEA - Agência Internacional de Energia Atômica), que posava de democrata, cinicamente apoiou o golpe. O massacre que o exército egípcio cometeu, contra seu próprio povo, converte seus comandantes em CRIMINOSOS DE GUERRA. Vamos ver se aquele desonesto Tribunal de Haia (que nunca processou Kissinger) age desta vez, iniciando processos contra os comandantes militares egípcios.