24/08/2012 - Copyleft

Da euforia à depressão capitalista

por Emir Sader em 24/08/2012 às 14:26



Emir Sader

A euforia capitalista dos anos 1990 levou à teoria da “new economics”. O capitalismo, marcado por suas crises cíclicas, deixaria de sofrê-las, para passar a uma fase sem crises.

Os novos desenvolvimentos tecnológicos impulsionariam um ciclo contínuo de desenvolvimento econômico, com a computação tendo o duplo papel de puxar uma demanda que se igualaria a do automóvel no século passado – incluindo um modelo novo anual -, ao mesmo tempo que permitiria prever antecipadamente os gargalos que permitiriam prever e solucionar preventivamente as crises.

A própria possibilidade de quaisquer garotos abrirem uma empresa na garagem de casa e a transformarem em uma empresa de sucesso mundial, quase sem capital inicial, seria a demonstração da pujança econômica do capitalismo e do caráter de “sociedades abertas” das sociedades capitalistas.

Essa festança acabou logo, com a crise de 2000, que desmentiu as teses e fez com que os teóricos da “new economics” partissem para outra moda, também de curta duração. As crises voltaram, com ela as recessões, até que se desembocou na prolongada e profunda crise atual, iniciada em 2007.

Tal como a bomba de tempo da febre de internet, desta vez a bolha de consumo girou em torno do setor imobiliário. Para tentar suprir, pelo menos temporariamente, o desequilíbrio entre produção e consumo, o sistema bancário foi ampliando os créditos, sabendo que nao correspondiam a capacidade real de pagamento por parte dos que os contratavam. Até que a pirâmide explodiu, todo o sistema imobiliário, ruiu, com milhões de pessoas sem conseguir pagar suas hipotecas, devolvendo os imóveis aos bancos, perdendo tudo, mas preferindo isso a continuar aumentando suas dividas.

As ruas da Califórnia se encheram de famílias morando nos seus carros, os bancos ficaram abarrotados de imóveis devolvidos, o sistema bancário chegou à beira do colapso, a recessão, através deste se propagou para o conjunto da economia. Os governos correram a salvar os bancos, com a ilusão de que os bancos salvariam os países. Os bancos se salvaram e no segundo ciclo da crise, a partir de 2011, os que quebraram foram os países.

A crise segue, sem horizonte de término, levando praticamente toda a economia europeia à recessão, enquanto países como os EUA e o Japäo permanecem entre crescimento zero e recessão.

Mas quando o capitalismo escancara suas contradições, seus limites, seu esgotamento, não surge no mundo ainda um modelo que o supere. A América Latina é a região que expressamente resiste – na maioria dos seus países – à hegemonia neoliberal, com Estados ativos que induzem o crescimento econômico e seguem ampliando suas políticas sociais, baseados em alianças regionais e com o Sul do mundo. Mas não tem o continente força própria para desenvolver um modelo alternativo ao neoliberalismo em escala mundial. Resiste, o que faz da América Latina a região de resistência ao polo neoliberal que ainda domina o centro do sistema.

Vivemos por isso um tempo de turbulências, mais ou menos prolongadas, até que um modelo e forças alternativas – que certamente terão a América Latina como um de seus protagonistas essenciais – possam conseguir construir uma alternativa ao capitalismo decadente.

Tags: Economia




15 Comentários Insira o seu Coméntario !

Ricardo - 29/08/2012
Gozado que o Capitalismo é apenas um sistema ECONÔMICO(portanto não político) onde há comércio livre e voluntário entre indivíduos (aonde isso realmente acontece?) e a divisão do trabalho.



O que temos hoje em grande parte do mundo é um "fascismo light" onde o Estado faz parcerias com grandes corporações escolhendo vencedores e perdedores(isso te lembra PPP parceria-pública-privada?).





Andreey Teles - 28/08/2012
O bom de tudo, é que quando imaginamos estarmos, de certa forma, longe de apresentarmos ou sermos uma alternativa, considerando estarmos localizados, geografica e economicamente na parte de baixo da linha do Equador (e isso conota, quase sempre uma imagem de submissão e pobreza), estamos em pé de apresentarmos, por meio da união entre nações e pela reavaliação dessas situações que os companheiros acima mencionaram (fato), uma solução que, quiçá atenda ao que o mundo precisa.


José de Oliveira Luiz - 28/08/2012
AFROAMERINDIAMAZONIONIZAMUNDI da PATAGÔNIA ao ESTREITO DE BHERING.

Os afroameríndios não deixarão repetir na AMAZÔNIA os estragos do estado merdocrático de direita no Brasil inserido na sifilização merdocrática planetária: mortos por enterrar, vítimas, feridos, doentes e enfermos por cuidar e estragos por consertar desta insanidade sifilizatóra batina/toga/farda. Abraço cultural solidário.


darcio - 27/08/2012
não há nenhuma alternativa ao capitalismo e se houver, seguramente não virá da américa latina, virá do chamado centro, a américa resiste com mecanismos antigos do liberalismo, atendendo demandas sociais reprimidas mas isso tb tem hora e data pra acabar


Walter - 27/08/2012
Todos os "ismos" estão equivocados, pois sempre beneficiarão seus mentores e/ou não contemplam a totalidade.



Em alguns casos, existe a boa intenção na criação de uma alternativa, mas ela será criada sob a perspectiva de seus criadores. Ou seja, o sistema será "melhor" do ponto de vista desses novos mentores, que serão os novos opressores em breve. (Aqui cito a Revolução dos Bichos, George Orwell)



Apesar de ser um pensamento considerado infantil, acredito firmemente na mudança indivíduo -> coletivo. Se você não gosta desse modelo, ao meu ver, você deve livrar-se de seus vícios de conforto (você tem seus produtos baratos nas prateleiras graças a essa engrenagem capitalista) e buscar participar cada vez menos!



Falar é muito perigoso e as vezes nos torna hipócritas. Se nos preocupássemos em agir de acordo com o que acreditamos, o mundo já seria como cada um quer, afinal, só faríamos o que acreditássemos.



Abraços para todos!


Luiz Gomes Moreira - 27/08/2012
Pessoal!

Lembram do nipoamericano idiota que escreveu o FIM DA HISTÓRIA, para o gaudio da BURGUESADA BURRA. Agora seria a vez do CERRA chamar o japones para um ciclo de palestras em SP. E tambem o resto do Brasil. Vamos fazer esta sugestão. Ele pode , após, estender suas palestras para GRECIA, ESPANHA, PORTUGAL e outras republiquetas falidas.


Marcelo - 27/08/2012
Analisando a história humana, pra mim é evidente que mudanças de grande magnetude, do tipo que precisamos para sair do paradigma capitalista, somente surgem após a instalação asboluta do caos. Não há motivos para crer que desta vez será diferente , ou seja, que mudaremos de livre espontanea vontade e de comum acordo. E, após o caos instaldado, a melhor alternativa ao meu ver se chama ECONOMIA BASEADA EM RECURSOS. Quem tiver interesse, dê uma pesquisada sobre esta forma de administrar a alocação/distribuição de recursos, no Senhor Google.


Coutinho - 26/08/2012
Talvez, professor, o que ocorra, é que ainda sofremos os efeitos de 1989-1991: o desmoronamento do "Socialismo Real", ou "Socialismo de Caserna", nas palavras de Robert Kurz.

Infelizmente, é exato falar que nós, sul-americanos, ainda não temos força para lançar um novo modelo. Nem mesmo conseguimos avançar com mais decisão na superação do neoliberalismo por aqui, quanto mais do capitalismo!

Mas, a passos tímidos, premidos por toda a sorte de pressões internas e externas, temos avançado. Dialeticamente, com novos elementos e carregando velhos em nosso seio (corrupção e tibieza...), mas também com a responsabilidade de sabermos que não é possível fazer qualquer Revolução neste momento histórico - ela não está no horizonte e tentá-la é arriscar muito, muito mesmo!

Contudo, precisamos avançar nas reformas sociais em busca de justiça social e racionalidade econômica e ambiental na perspectiva da superação - ainda que de certa forma longínqua, do capitalismo. De certa forma porque, se as reformas se acelerarem, as perspectivas podem se modificar de deixarem de ser longínquas. Mas, precisamos fazer isso em conjunto, internacionalmente e, de início, com alguns elementos; com tentando uma pressão internacional pró-reformas sociais e avanços trabalhistas e pró-racionalização econômica e ambiental.

Temos, em conjunto com outros países latino-americanos, asiáticos, africanos e europeus, bons intelectuais para isso: reunamos esforços coletivos para isso!

Acho que nos Fóruns Sociais Mundiais essas ideias deveriam ser propostas com mais ênfase!

As grandes universidades deveriam ter maior participação, assim como os movimentos sociais.

Só não caminharemos muito se continuarmos tão sectários dentro das esquerdas.


Coutinho - 26/08/2012
Suas palavras são exatas professor. Mas, seria necessário balizar melhor os inícios dessa crise crônica do capitalismo. Parece-me, que o primeiro tropeço dos teóricos neoliberais foi a Crise dos Tigres Asiáticos, entre 1997 e 1998 (não nos esqueçamos de uma outra crise, mais localizada, mas importante também: a Crise do México, de 1994). Ela se propagou internacionalmente e não deixou de fazer alguns estragos no Brasil, prontamente disfarçados para as eleições de 1998. Em seguida, veio, o que creio ser o início da crise crônica: a Crise Russa de 1999 que afetou em cheio o Leste Europeu e a América Latina, quase levando o Brasil à falência e levando a Argentina, de fato, à essa situação. Daí, começam tanto as crises contínuas, quanto as reações a ela na América do Sul.


Alberto Magno Filgueiras - 26/08/2012
Em lugar da pergunta de Alfredo Juan Morales, eu faria a seguinte: será que não há alternativa ao capitalismo?


Fabiano Araujo - 25/08/2012
Na realidade, o ciclo de expansão do capitalismo ocidental que se iniciou com o fim da Segunda Guerra Mundial começa a esgotar-se, em 1973, com a primeira crise do petróleo. O surgimento de empresas de informática, iniciadas, muitas delas, na "garagem de casa" deram um certo oxigênio ao sistema e criaram a ilusão de uma nova expansão.

Fenômeno semelhante ocorreu após a Primeira Guerra Mundial: a crise de 1919 a 1922, foi superada pelo surgimento de novas tecnologias que permitiu a massificação do automóvel (nos EUA), o desenvolvimento das indústrias eletrônica e petrolífera, a expansão das empresas cinematográficas, permitindo o crescimento sistêmico (particularmente nos EUA). Entretanto, essas inovações provocaram a ociosidade de diversos setores, tais como as empresas mineradoras de carvão. A estagnação relativa das potências européias e de suas colônias, a retirada da Rússia, devido a Revolução e da Alemanha (por causa do Tratado de Versalhes e a crise econômica em que mergulhou) retraiu o mercado mundial. No início dos anos 20, a aparente recuperação levou os empresários a "pisarem no acelerador" da produção. A renovação tecnológica ajudou no crescimento da produção, porém os mercados não se expandiram (vários trabalhadores perderam emprego, porque não se adaptaram às novas tecnologias), então, os capitalistas com renda sobrando, porém, sem poderem investir no aumento da produção correram para as aplicações fianceiras e os bancos lhes ofereceram "as oportunidades", até que tudo desabou em 1929. Na atualidade as novas tecnologias também expulsaram milhares de trabalhadores do mercado de trabalho (por exemplo no setor bancário). Uma diferença fundamental entre 1933, quando começou a recuperação e hoje é que a política de Roosevelt enquadrou os bancos (deixando que dezenas falissem) e se preocupou, fundamentalmente, em salvar e criar empregos, enquanto que hoje a política seguida é inversa, se deu prioridade à salvação dos bancos e destruir empregos (a Grécia e a Espanha são exemplos eloquentes).


Alfredo Juan Morales - 25/08/2012
Sugeres alguna alternativa al capitalismo? Dejanos saber, por favor.


Alex - 24/08/2012
O período neoliberal é certamente um dos mais perversos da história do capitalismo. Não tenho a menor dúvida que tem o potencial e a ferocidade de destruir, não apenas os países e as sociedades, mas o todo o planeta. Tomara que esse ciclo de horrores sem precedentes esteja mesmo chegando ao fim.


Sergio Uliano - 08/09/2012
O texto é lúcido. Realmente a grande tarefa do momento´e resistir, e enterrar o neoliberalismo de vez.



Isto passa por um Estado FORTE, indutor e regulador,SEM asfixiar o mercado.



Cada país e cada povo fará isto a partir de sua realidade. Nada de importar modelos, mecãnicamente.


Alfredo Juan Morales - 04/09/2012
Alberto, hasta ahora, no.

Consideras tu Cuba o la URSS alternativas viables?