25/12/2014 - Copyleft

De uma guerra fria a outra?

O estreitamento das alianças da Rússia com a China, assim como os acordos do Brics, contribuíram para configurar um novo desenho geopolítico do mundo.

por Emir Sader em 25/12/2014 às 10:47



Emir Sader


 “Os últimos soldados da guerra fria” seriam, segundo o título do livro do Fernando Morais, os 5 cubanos que agora se reuniram em Cuba, depois da espetacular operação diplomática de normalização das relações com os EUA. Teria sido virada a última página da guerra fria.

 Uma guerra fria (ou paz armada, especialmente de armamentos nucleares, o que explicava o equilíbrio relativo entre os dois campos e a impossibilidade de uma outra guerra aberta) que teve seu auge em todo o período do segundo pós-guerra até o fim da URSS. A queda do Muro de Berlim desarmou o símbolo maior da guerra fria, que seguiu tendo em Cuba sua sobrevivência, até os acordos recentes.
       
 Vitoriosos na guerra fria, os EUA acreditavam que se imporiam solitários no novo mundo globalizado. Chegaram até em pensar no bombardeio da Síria e, por extensão, do Irã. Ate que o Obama se deu conta que, nas suas próprias palavras, não conseguiu apoio para bombardear a Siria, nem sequer na sua própria família. E recordou-se que se pode fazer tudo com uma baioneta, menos sentar-se encima delas.

 E teve que aceitar a proposta russa de negociação com a Síria e, por extensão, com o Irã, na metade de 2013. Instalava-se um clima de relativa distensão nas relações entre os EUA e a Rússia.

 Até que o assanhamento da UE e dos próprios EUA com a Ucrânia levaram à derrubada do governo e a excitação pela adesão do pais à UE e até à Otan. Se esqueceram que nos acordos de capitulação do Gorbachev diante de Ronald Reagan havia uma única ressalva: que avançassem sobre o espólio do ex-campo socialista, mas preservassem as fronteiras com a Rússia.

 A reação russa não se fez esperar: com o apoio total da população local, reincorporou a Crimeia a seu território e colocou os limites para os avanços das potências ocidentais. Não demorou para a população das regiões próximas revelasse sua vontade de desmembrar-se da Ucrânia e seguir caminho similar ao da Crimeia.

 As medidas de represália econômica à Russia tiveram respostas inesperadas para o Ocidente, que levava em consideração apenas o fornecimento de gás para a Europa como arma russa. Mas Putin suspendeu compras de produtos agrícolas da Europa e do EUA, passando a comprar de países latino-americanos, levando a que países europeus jogassem fora alimentos produzidos e sem possibilidade de comercializá-los.

 A imprensa ocidental entoou gritos de guerra, chamando Obama de covarde, o próprio governo da Ucrânia diz não reconhecer a adesão da Crimeia à Rússia. Mas o que faz da nova situação uma nova guerra fria é exatamente a colocação de limites à ação dos EUA, incapazes de intervir militarmente na Ucrânia, pelas fronteiras com a Rússia recuperada em termos políticos e militares como potência.
 
Não se pode falar de uma nova guerra mundial, pelas mesmas razões daquela guerra fria: todos seriam aniquilados. Mas não bastam as declarações de que não seria uma nova guerra fria, porque se trata disso: da nova delimitação de dois campos internacionais de enfrentamento.

 O estreitamento das alianças da Rússia com a China, do ponto de vista econômico e militar, assim como os acordos do Brics, contribuíram para configurar esse novo desenho geopolítico do mundo no século XXI.  Já havia uma multipolaridade econômica no mundo, que fez com que países do Sul não fossem arrastados pela recessão no centro do capitalismo, mas revelassem capacidade de resistência, graças aos intercâmbios Sul-Sul. Agora essa resistência se transfere para o campo geopolítico, levando o mundo a um novo clima de guerra fria.

Tags: Internacional




5 Comentários Insira o seu Coméntario !

Orlando F. Filho - 30/12/2014
Lembro que Goulart foi trucidado politicamente por estreitar as relações comerciais com a URSS, comprando i trigo para suplementar o estoque brasileiro. Jango era, sem dúvoda, um visionário pois hoje, a China e Rússia são ameaças reais ao Grande Irmão, tanto no campo econômico, como político. Meu sobrinho visitou recentemente a China, sob às expensas da empresa multinacional na qual trabalha, isto é, faz estágio. Ora, convivem lado a lado as tradições, como principalmente a comida que inclui espetinho de escorpiões, etc, ao lado de grandes shopping centers, carros importados e nacionais. O custo ambiental foi altíssimo, pois um país cujo principal meio de transporte individual era a bicicleta, hoje tem um índice de poluição DEZOITO VEZES MAIS que o aceito pela OMS(Organização Mundial de Saúde). A mão de obra barata é um ingrediente estratégico para baratear as mercadorias. Obama sabe que enfrentará um adversário de valor, cujo povo durante milênios lutou pela sobrevivência. O filósofo Andre Mauraux escreveu as memórias quando esteve na China e na floresta notou que algumas árvores não tinham casca da raiz até mais ou menos a metade do tronco. Perguntou o porque e o guia lhe disse recentemente o exército de Mao havia passado por ali. Como não tinham nada que comer, cozinharam as cascas das árvores e as comeram. Não é fácil derrotar um povo com tanta determinação.


Victor Emanuel Giglio Ferreira - 27/12/2014
Concordo com a análise do Emir Sader. Sim, já estamos em plena 2a Guerra Fria. Mas, devemos considerar que a vitória dos EUA na 1a. Guerra Fria se deu, em grande parte, devido a fraquezas estruturais da própria URSS, como sua economia então inteiramente estatizada e por isso pouco eficiente, bem como seu sistema político altamente fechado e corrupto, que permitiu a infiltração do agente secreto ocidental, Gorbachev, no topo do poder soviético, abrindo caminho à rendição sem luta, bem planejada com antecedência, iniciada com a derrubada do muro de Berlim. Lembremos que naquela época, o PIB somado do bloco soviético e China representava no máximo 25% do PIB americano e europeu ocidental. Hoje, a situação é bastante diferente. A Rússia atingiu novamente um PIB - PPP igual ao da Alemanha - em 2014 - (conforme Banco Mundial e FMI) e China um PIB - PPP superior ao dos EUA, de modo que representam cerca de 75% do PIB das potências ocidentais, isso sem falar da possível aliada, Índia, que já ultrapassou o Japão. A Rússia, China e Índia têm hoje um sistema econômico muito mais eficiente do que o vigente durante a 1a. Guerra Fria. Hoje adotam o socialismo de mercado (como denominado na China), com a maior parte da produção realizada por empresas privadas, mas o sistema financeiro - bancos - quase inteiramente estatal, controlando indiretamente a produção, através do crédito (por isso o nome Socialismo - de Mercado). Esse novo sistema econômico tem se mostrado altamente eficiente, conforme se denota pelas suas taxas médias de crescimento anual, bem mais que o Capitalismo Neoliberal ocidental, porquê foca o capital em investimentos produtivos e não especulativos, como nos países do ocidente. Portanto, esta 2a. Guerra Fria possivelmente levará a resultados bem diferentes da 1a., como a provável derrubada do capitalismo neoliberal do ocidente, apesar de todo o esforço, agora já beirando o claro desespero, visto o ímpeto guerreiro desses países capitalistas, capitaneados pelos EUA, para evitarem a derrota que está se tornando cada vez mais próxima, devido à defasagem entre suas taxas de crescimento econômico com as das atuais potências socialistas de mercado.


SERGIO GOVEA - 27/12/2014
Excelente análise.

Gostaria de ler a sua opinião sobre os reais impactos advindos das sanções contra a Rússia no médio prazo e os respectivos reflexos na economia brasileira.


Marcia Eloy - 26/12/2014
Concordo com o ponto de vista do professor.


Walter Morales Aragao - 01/01/2015
Prezado Emir, parabéns pelo argumento e pelo trabalho na temática. Mas falaste na permanência de Cuba, somente, como resistência ao império unipolar estadunidense (cerne do capitalismo mundial). Não consideras mais a RP da China como socialista de modo algum? Por que se este é o caso, praticamente não ocorreria mais "Guerra Fria" no sentido ideológico, mas meras disputas inter-capitalistas, (social, militar e ambientalmente perigosíssimas), no máximo em termos técnicos de que não ocorrem (ainda) confrontos abertos entre FFAAs dos BRICS com a OTAN. Agora, lembrando o teorema de Lênin de que não há práticas políticas em abstrato, mas sempre em seus contextos históricos, a Segunda Guerra Mundial mostrou tragicamente aos trabalhadores que há diferenças relevantes para as massas, na prática, entre social-democracia e nazi-fascismo. Lição que, felizmente, a classe trabalhadora brasileira, eleitoralmente, parece ter entendido melhor do que a nossa classe média colonizada. Acho que nosso campo intelectual tem que afirmar com mais clareza aos quatro ventos, sem pruridos pseudo-liberais, que uma presença significativa, qualificada e democraticamente controlada do Estado é do interesse da grande maioria ( proletários diversos, classe trabalhadora, classes médias, autônomos e mesmo pequeno-burgueses). Parece-me que os BRICS representam um pouco isto. Talvez, seguindo um pouco o pensamento leninista, em épocas de globalização feroz de capitalismo em crise, um certo nacionalismo democrático, internacionalmente apoiado entre pares, tem lá o seu valor prático. Parabéns também pelo fomento ao debate destes temas, o que não é nada comum.