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Dez anos de Kirchnerismo

por Emir Sader em 25/05/2013 às 07:26





A Argentina completa este sábado, 25 de maio, data nacional, 10 anos da posse de Nestor Kirchner como presidente, que foi seguido por dois mandatos de Cristina Kirchner. É um período peculiar da Argentina, porque foi antecedido de momentos muito traumáticos: a ditadura e o terror que se implantou no país, as crises de hiperinflação no governo Alfonsin, e a implosão da política de paridade com o dólar, que produziu a maior crise econômica, social e politica do país, em muito tempo.

Kirchner foi eleito de maneira sui generis. Menem se candidatou e prometeu que dessa vez iria dolarizar completamente a economia argentina – o que causaria danos irreparáveis ao país e à integração latino-americana. Kirchner ficou em segundo lugar no primeiro turno. Diante dos apoios que Kirchner recebeu, que fatalmente o derrotariam no segundo turno, Menem renunciou e Kirchner assumiu a presidência 10 anos atrás.

Herança mais maldita não poderia haver: a suicida política de paridade com o dólar – aprovada como medida de proteção contra as hiperinflações – teria que explodir um dia. Explodiu no colo do radical Fernando de la Rua, que manteve a política herdada e fugiu da Casa Rosada em helicóptero, antes de ser derrubado, como reação à repressão que seu governo desatou diante dos protestos de uma população que se sentiu enganada com a pauperização brutal e repentina que o fim da paridade trouxe.

Kirchner assumiu a política de renegociação da dívida externa, diante de uma economia não apenas em profunda crise, mas com um Estado praticamente sem patrimônio para dar de garantia a empréstimos, como resultado das privatizações de Menem. A Argentina, que havia sido auto-suficiente em petróleo, privatizou em uma semana sua empresa estatal, a YPMF, e passou a ter um imenso déficit energético e de recursos para comprar petróleo e gás do exterior e subsidiar seu consumo à população.

Mas, sobretudo, Kirchner inaugurou uma nova e agressiva política de apuração das responsabilidades durante a ditadura militar, que permitiu reabrir processos, condenar e colocar na prisão os principais responsáveis pelos massacres durante a ditadura.

Kirchner representou, na Argentina, a alternativa de superação do neoliberalismo. A economia do país se recuperou de forma acelerada durante toda a década passada, apesar da terrível herança recebida.

Seu governo, assim como os outros governos pós-neoliberais do continente, encontrou na velha mídia seu adversário mais importante, diante da fraqueza dos partidos opositores. Cristina enviou ao Congresso a primeira e mais importante iniciativa de democratização dos meios de comunicação, aprovada pelo Congresso, mas brecada, até aqui, pelo Judiciário.

Outra iniciativa similar foi a de democratização do Judiciário, igualmente aprovada pelo Congresso, que permitirá a eleição de uma parte dos juízes da instância superior do Judiciário pelo voto popular.

Do ponto de vista econômico, o governo conseguiu renegociar a quase totalidade da sua dívida, mas restam 8% que são utilizados pelas empresas abutre, para introduzir dificuldades para a Argentina obter créditos externos. Querem também deixar consignado que o caminho argentino não valeria a pena, para desencorajar a outros países – como, por exemplo, a Grécia – a seguir pela via da renegociação da dívida.

As eleições parlamentares complementares deste ano definem se o governo conseguirá 2/3 de congressistas, para poder convocar referendo sobre reforma da constituição, o que poderia permitir que Cristina se candidate a um novo mandato. Embora com desgastes nos últimos meses – produto da inflação, do desabastecimento e de conflitos internos ao peronismo, que levaram a que o setor mais importante da principal central sindical, a CGT, passasse ativamente à oposição ao governo –, ela continua a ser, de longe, a líder com maior prestígio no país. Caso não consiga um novo mandato, se abre um período de incertezas políticas no país, porque não há outro candidato kirchnerista que aparentemente possa triunfar. Na oposição tampouco o quadro é claro, sem lideranças, nem plataforma – como aqui.

A comemoração de hoje, na Praça de Maio, leva a consigna ‘Una década ganada’. Mais que justa, se consideramos o país desfeito que deixaram Menem e De la Rua, e a recuperação e estabilidade econômica e política que os governos kirchneristas conseguiram.

Tags: Internacional




6 Comentários Insira o seu Coméntario !

Anderson - 27/05/2013
o MUNDO está saudando esses governos que o comentarista condenou de maneira vazia abaixo. a ONU considera a Argentina modelo de defesa dos direitos humanos, e a Venezuela de democracia latina. Gozado é que o mundo inteiro está errado, a não ser Washington da guerra ao terror e esses direitistoes brazucas que escracharam com esse país deixando desigualdedes e educação arrebentadas


Anderson - 27/05/2013
não discutirei nem os governos mencionados pelo comentarista abaixo,apenas contra-argumento isto a este "porta-voz dos povos latinos": quem foi que disse que as sociedades estão cansadas desses governos,se eles têm sido amplamente eleitos, diferentemente dos direitistões anteriores a eles emaranhados em corrupção, desigualdades? No mais, veja dados em relação a esses governos de hoje, em 2009 a Venezuela já atingiu as metas do Milênio estipuladas para 2015 da ONU, erradicou analfabetismo, mais universidades do continente, pobreza extrema reduzida em mais de 70%, dados oficiais, semelhantes aoos do Equador, e da própria Argentina. Retorne aqui, Silvio, vamos colocar dados na mesa, e se quiser comparamos com os governos seculares anteriores. Governo bolivariano da Venezuela que voce intitula de ditador, venceu 5 eleições seguidas sufragio universaL)


luiz fernando - 27/05/2013
A Dilma manifestar sentimentos pela morte do dono da Veja, como por qualquer ser humano deve haver respeito, seria lindo,Daí a dizer que o Civita contribuiu, e de maneira ímpar ao jornalismo brasileiro, a exemplo do Lula dizendo que o Roberto Marinho quando morreu foi um grande brasileiro merecedor de 3 dias de luto oficial no Brasil... depois fica gente polarizando essa questão direita x esquerda, perdendo tempo, se pegando, metendo o pau até a imprensa, é tudo bobagem, eles lá em cima estao em outra realidade e a sociedade se pegando feroz aqui embaixo. O PT não tem nada de diferente dos outros, e nada igual a argentina e esses outros governos progressistas da america latina


Silvio - 27/05/2013
O governo populista da Sra. Cristina será o primeiro de uma série de governos latino-americanos da mesma estirpe a cair. Com certeza o parlamento daquele país não aprovará o 3º mandato. Nicolas Maduro, o novo ditador da Venezuela não passa da confirmação daqui a 2 anos. O povo desses países já estão fartos de populismo, empulhação, manipulação de números, falta de liberdade de expressão, controle do judiciário e outras pragas que tolhem a liberdade individual e o empreendedorismo das pessoas.


Amauri - 25/05/2013
Como já comentei em outros artigos: "o mundo(capitalismo) muda para permanecer o mesmo".

Quando a elite global sente algum perigo em seu regime, faz "mudanças" para permanecer igual, isso podemos ver em boa parte da América latina quando implantaram a DITADURA MILITAR, desgastada proclamaram a "volta da democracia", mas implantaram governos entreguistas pertencentes a uma corrente ideológica chamada "neoliberalismo", uma das faces mais perversas do capitalismo elitista.

Calculado milimetricamente pelos "senhores do mundo" as consequências que este modelo de governo traria, tais como: privatarias, aumento da pobreza, estado mínimo, concentração de renda, etc., já na época planejavam elevar ao poder governos ditos "populares" ou "progressistas", estrategicamente pensado para governar de maneira a acalmar o povo e mais que isso ter o apoio dele.

Para isso foram necessário medidas "arriscadas" do ponto de vista de um leigo, mas pontualmente programada pelo COMANDO GLOBAL.

"PEGARAM" líderes carismáticos de ideologias centro-esquerda e de maneira velada e discreta "promoveram sua ascensão ao poder.

Num primeiro momento, estes governos tidos "progressistas" aparentaram serem alternativa favorável ao povo trabalhador, devido a aumento de migalhas a falsa ascensão a classe social através do financismo e endividamento coletivo e prolongado que a curto prazo apresenta uma sensação de melhora, mas que a médio e longo prazo é cruel, restando apenas a dívida e os bens de consumo obsoletos vendidos a preço de ouro pelos capitalistas.

Desta forma, o os governos progressistas, para citar apenas o LULISMO no Brasil e o CRIRCHNERISMO na Argentina já apresentam seu nível de estagnação, estando engessados para maiores investimentos e crescimento econômico, bem como um aumento CRIMINOSO da INFLAÇÃO pelo menos 10 vezes acima do índice oficial divulgado, e principalmente em produtos de primeira necessidade.

Em suma, pouco difere do NEOLIBERALISMO, saldo o apoio iludido das massas pelos motivos já citas no inicio dos governos, mas chega ser até mais cruel, pois chamam as PRIVATARIAS de "concessões" e o ARROCHO salarial se da através de uma inflação astronomicamente maior que o reajuste salarial o qual é baseado no falso índice de inflação e o crescimento econômico o qual está estagnado.



flavio - 25/05/2013
Não é o assunto, mas alguém por ai podia me explicar como a Caixa soube que a oposicão iria espalhar boatos um dia antes dos boatos terem sido espalhados e por saber que a oposicão que tem uma central de boatos segundo aquela Ministra iria espalhar o boato para praticar Terrorismo Eleitoral segundo afirmacão dum tal de Falcão?