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E Lenin tinha razão: a grande guerra interimperialista

A previsão de Lenin se cumpriu de forma dramática. As duas grandes guerras que marcaram a história da humanidade no século XX foram guerras interimperialistas.

por Emir Sader em 28/06/2014 às 12:41



Emir Sader


Em 1884, as grandes potências coloniais se reuniram em Berlim para decidir sobre a dominação da África entre elas. Consagraram o critério da “ocupação efetiva”, segundo o qual a potencia que ocupasse realmente um pais tinha direitos sobre ele.  Há fronteiras no norte da África que visivelmente foram definidas com regra, riscando sobre uma mesa, para facilitar a troca de territórios entre as 14 potências reunidas, sem importar que povos viviam aí.

Se terminava a divisão do mundo entre os colonizadores. A partir dali, segundo Lenin, cada um só poderia expandir-se às custas de outros. E como a tendência expansiva do capitalismo é permanente, Lenin previa que a humanidade entrava numa época de guerras interimperialistas.
   
A previsão de Lenin se cumpriu de forma rigorosa e dramática. As duas grandes guerras que marcaram a história da humanidade na primeira metade do século XX foram exatamente isso – guerras interimperialistas.  Dois grandes blocos entre, por um lado as potencias que tinham se apropriado inicialmente de grande parte do mundo, lideradas pela Inglaterra e pela França, enfrentadas às que chegavam à repartição do mundo tardiamente – Alemanha, Itália, Japão – que buscavam uma redivisão dos territórios colonizados.
   
Por terem resolvido a questão nacional, com a instalação de Estados nacionais antes que os outros países europeus, sobretudo a Inglaterra e a França puderam construir sua força militar – em particular marítima – e colocar-se em melhor situação para a conquista e consolidação de um império colonial.

A Alemanha, a Itália e o Japão demoraram mais para sua unificação nacional, pela forca relativa das burguesias regionais, com o que chegaram à arena mundial em inferioridade de condições. Tiveram que se valer de regimes autoritários para acelerar seu desenvolvimento econômico, recuperando o atraso em relação às outras potências mundiais.

A primeira guerra mundial, mais além das contingencias do seu começo, foi isso: uma grande batalha entre os dois blocos pela repartição do mundo, especialmente dos continentes periféricos. (A Alemanha chegou a propor ao México que lhe devolveria os territórios que os EUA lhe haviam arrebatado caso se somasse ao bloco liderado por ela.)

Por trás das duas grandes guerras havia a disputa pela hegemonia mundial. A decadência inglesa via assomarem-se duas potencias emergentes – os EUA e a Alemanha. No começo da primeira guerra predominava nos EUA a corrente isolacionista, como se a guerra fosse uma questão europeia. Mas conforme a Alemanha avançava para ganhar a guerra, o governo dos EUA colocou em pratica rapidamente uma campanha ideológica para mobilizar os norteamericanos para a participação na guerra.

1917 foi um ano decisivo na guerra, com a revolução bolchevique fazendo com que a Rússia se retirasse da guerra – seguindo as orientações do Lenin de que se tratava de uma guerra interimperialista -, enquanto os EUA entravam na guerra, fazendo com que a balança se inclinasse a favor do bloco anglo-francês.

Com a segunda guerra – na realidade o segundo round de uma mesma guerra, com as mesmas características e um intervalo de poucos anos – e a segunda derrota do bloco formado pela Alemanha, a Itália e o Japão – se abria o caminho para a hegemonia imperial norteamericana. Guerras interimperialistas, as mais cruéis de todas as guerras, no continente que se considerava o mais civilizado do mundo, para dirimir a disputa hegemônica entre as potencias capitalistas sobre a dominação global. O início da primeira, de que se cumpre agora um século, foi o começo dessa grande debacle europeia.

Tags: Internacional,  História,  Política




15 Comentários Insira o seu Coméntario !

Odorico Ribeiro - 30/06/2014
Caro Professor, a decisao da ONU foi realmente histórica. Devemos divulgar essa noticia o mais que nós podamos. O povo brasileiro deve conhecê-la.

http://www.aporrea.org/internacionales/n253542.html



Sérgio La-Rocque - 30/06/2014
Viva Lenin e os leninistas!....


roberto danunzio - 30/06/2014
É e agora os Brics, e sobretudo seus membros militarizados, a China e a Rússia, são os novos atores tardios da farra da espoliação. O Brasil e a China disputam a África e podem ter suas querelas, mas quem sabe todas se unam contra os velhos tubarões. Ah! Não, os brasileiros são regidos pela doutrina de Lenin, não vão se prestar a novas guerras imperialistas, desculpe, esqueci.


Antonio Elias Sobrinho - 30/06/2014
É importante assinalar que Lenin, no momento que defende essa tese, o mundo vivia um processo de grande euforia nacionalista, levada a efeito pelas burguesias nacionais, que disputavam, de forma aguerrida, os espaços para expansão de seus capitais e de suas mercadorias. Nesse momento febril, de grande efervescência ideológica, onde grande parte das massas populares foram seduzidas pelas vanguardas social democratas, sobretudo pelo Partido Social Democrata Alemão, o mais poderoso partido da Europa, de raiz proletária, Lenin teve a coragem e ousadia de enfrentar aquilo tudo, correndo o risco de ficar isolado, em função de uma estratégia que só depois revelou-se como a mais justa. Portanto, o grande revolucionário é aquele que, percebendo a justeza da proposta, não se deixa dobrar e nem se intimidar pelas aventuras circunstanciais.


josé fonseca - 29/06/2014
Uma aula de história ; a campanha ideológica na sociedade de massa industrial. A comemoração portanto se estenderá pela segunda década e somado a vitória socialista na primeira fica o milênio inteiro marcado de socialismo e comunismo.


Marco Antonio Loguercio Collares - 28/06/2014
E sempre bom,ler alguém falando em Lenin.Seria melhor,cita-lo mais continuamente até porque,tira-se do que escreveu,falou e fez,ensinamentos tão atuais,como as expedições siderais.E sempre bom ler-se alguém,falando e escrevendo LENIN!


Evaldo José Guerreiro Filho - 28/06/2014
É inerente ao sistema capitalista a desumanização das pessoas, a sua coisificação por tudo que é processo de expropriação do trabalho, seja a corrupção, as relações de trabalho ou a guerra!


Marco Antonio Loguercio Collares - 17/07/2014
Sr.Emir.Tenho respeito pelo que escreve,porquanto muito do que defende,coincide com o que penso,e com o que não concordo,tenho o dever de acatar.Me utilizo contudo desse espaço,para inscrever minha contrariedade com referência ao que defende CARTA MAIOR,posto que para acessa-la,para nós analfabetos de computação e internet,torna-se impossível,ja que as instruções para acessa-los,são em idioma não nativo,e com o qual não tenho familiaridade.Outrossim,de muitas matérias ali publicizadas,mais parecem da ESQUERDA DO PSDB do que de esquerdas históricas.Claro que nos deparamos com articulistas,na maioria das vezes,DESILUDIDOS,em virtude do qual,sugiro que tais desilusões,sejam mais adequadamente postadas,em revistas de novelas ou que este blog,comece a publicar e publicizar,não lágrimas,senão votos de esperanças!Mais parecem à esquerda do PSDB!


valter sena - 05/07/2014
o jose eduardo alyon qual tirano voce ta falando do bush ou obama


Ezequias Viana de Moura - 04/07/2014
Parabéns para Marcia Eloy pelo seu brilhante comentário. Pelo menos 70% da 2ª Guerra Mundial foi ganho pelos russos, que também sofreram as maiores baixas entre soldados e civis. O Estados Unidos e a Inglaterra entraram tardiamente na guerra, esperando que Russia e Alemanha se enfraquecessem e pudessem ser dominados depois.


Victor Emanuel Giglio Ferreira - 04/07/2014
Realmente, Lenin tinha plena razão, não somente quanto às guerras movidas pelo imperialismo, mas também em diversas outras questões. Não devemos nos esquecer de que foi sob o governo de Lenin, após 1921, que pela primeira vez foi implementado o sistema econômico que mais sucesso obteve até hoje no mundo, o Socialismo de Mercado (como é chamado pela China pós Deng Xiaoping) e denominado de NEP na URSS dos anos 1920 e que hoje já é predominante, além da China, também na Rússia atual, Vietnã, Irã, Ásia Central ex soviética, Brasil (em parte) e muitos outros, onde o Sistema Financeiro é predominantemente ESTATAL. Infelizmente, a NEP soviética foi desmantelada, após 1928, por Stalin com seu sistema de Socialismo Estatizante Integral que, também infelizmente, nunca funcionou bem em lugar algum onde foi implantado, fato que atrasou a revolução socialista mundial em décadas. Relatos existem de que Deng Xiaoping se inspirou na NEP da época de Lenin para criar o atual sistema que elevou a China a primeira potência econômica mundial já em 2014 (conforme o Banco Mundial - PIB por Paridade do Poder de Compra). Hoje a principal guerra do imperialismo, com centro nevrálgico nos EUA e União Europeia, vem sendo contra os países que adotaram esse novo e eficientíssimo tipo de Socialismo que, contudo, brevemente, esperamos, será implantado em todo o planeta, derrubando e substituindo o capitalismo financeiro que tanto atraso e miséria vem nos impondo.


Marcia Eloy - 03/07/2014
Quem conhece alguma coisa de história, sabe que se não fosse a Rússia a Europa seria nazista. Foi ela que e seu bravo povo que lutando quarteirão a quarteirão. foi empurrando o exército alemão para fora do país e indo além. Aí os Estados Unidos resolveram entrar na guerra com aliados, para não perder a Europa e sua proximidade com a Rússia. Ajudaram a recuperação destes países, mas em troca de colocarem lá bases militares. Hoje, grupos nazistas que estava, adormecidos, voltam a se manifestar na Europa, não só na Europa e é sempre bom estar de olhos abertos pois podem aparecer em qualquer parte do mundo.


Djijo (de Luiz) - 02/07/2014
Bom dia professor Sader. No livro "Nova História Crítica", de Mário Schmidt ele já dizia alguma coisa sobre essa guerra, que seria disputa por territórios. Ele apresenta alguns fatos que acho que ele deve ter os documentos, de como a imprensa atiçava a ira da nação contra outra para poder haver uma guerra, ou seja, a Alemanha só se fu.. por ter perdido a guerra, mas que as outras nação eram tão responsáveis como ela pela guerra que houve. Nunca achei nada do prof . Mário Schmidt na internet, que acho que depois das críticas da Globo e do PSDB ele se retirou, mas acho também interessante que alguém consultasse ele, caso soubesse onde ele está, para saber os arquivos que ele possui, inclusive jornais da época. Um dos exemplos, que contra a Alemanha, segundo o livro dele, que li depois que a Globo o atacou, dizia que os alemães eram povos bárbaros que arrancavam braços de mocinhas. Aparecia o desenho, pois acho que era o recurso da época já que máquinas fotográficas não eram tão comuns.


Jose Eduardo Alayon - 02/07/2014
Fico horrorizado de ver tanta apologia a um tirano que para ficar no poder matou tanta gente na Rússia e nos países vizinhos, invadindo e dominando, como um império, vários países vizinhos.


PROF. ADRIANOV ZHUKOV / TCHÊ - 02/07/2014
LENIN E EDUCAÇÃO POLÍTICA - TESE DE DOUTORADO http://boletimef.org/biblioteca/2329/tese/boletimef.org_lenin-ea-educacao-politica-domesticacao-impossivel-resgate-necessario.pdf