07/05/2014 - Copyleft

Ganhar para avançar

Dilma deve se comprometer com as transformações estruturais que abram uma segunda etapa de governos do PT. Trata-se de ganhar para mudar as estruturas de poder.

por Emir Sader em 07/05/2014 às 07:31



Emir Sader


O que se está esgotando não é o governo do PT, mas sua primeira fase. A prioridade das políticas sociais é amplamente vitoriosa, foi e continua sendo a responsável pelo imenso processo de democratização social por que passa o Brasil desde 2003. É assim que diminuímos a exclusão social, a desigualdade, a pobreza e a miséria – objetivo fundamental de um país que sempre carregou esses carmas -, mesmo em meio a uma profunda e prolongada recessão internacional.

A política externa que  prioriza os processos de integração regional e os intercâmbios Sul-Sul se confirmou como a melhor forma de inserção internacional do Brasil e de contribuição para o desenvolvimento das áreas sempre exploradas e subordinadas e de construção de um mundo multipolar. Essas políticas têm é que avançar muito, especialmente no Mercosul, na Unasul, no Banco do Sul, no Conselho Sulamericano de Defesa.

O papel ativo do Estado é o responsável por o Brasil ter resistido à crise, fortalecendo os bancos públicos, induzindo a reação ativa diante da crise e não se submetendo a ela. Precisamos, sim, é readequar o Estado para um papel ainda mais ativo na economia, ainda mais quando setores do empresariado privado resistem a participar do esforço produtivo do país e se refugiam na especulação financeira.

Assim, os caminhos escolhidos pelo governo Lula – prioridade do social, integração regional, papel ativo do Estado – são corretos e, ao contrário de ser abandonados, devem ser fortalecidos. Mas esses avanços foram obtidos explorando as linhas de menor resistência do neoliberalismo, sem alterar as estruturas de poder, que seguem vigentes, e se colocam como obstáculos para dar continuidade e aprofundar a radical transformação democrática que o Brasil precisa.

As políticas sociais podem seguir, mesmo com crescimento menor, mas tem um limite. Além de que, somado às politicas de distribuição de renda, se necessita melhorar a qualidade das políticas sociais, especialmente as de saúde, educação, transporte, segurança pública, cultura, entre outras. Esse deve ser um objetivo prioritário do próximo mandato.

O crescimento econômico requer imperiosamente a quebra da hegemonia do capital especulativo, o que supõe realizar o que a Presidenta Dilma tinha prometido para seu primeiro mandato: colocar as taxas de juros no nível internacional, para desincentivar a especulação financeira e a vinda de capitais para usufruir de taxas de juros muito altas e tributação baixa.

O Estado, por sua vez, precisa ser reformado para readequar-se aos processos de transformação que o país precisa enfrentar.  Precisa de uma reforma tributaria socialmente justa, em que quem ganha mais paga mais.

Com o Estado, o sistema político precisa sofrer transformações que tornem a representação popular mais legítima. O financiamento público de campanhas e critérios mais rigorosos para o registro de partidos são necessidades urgentes.  A convocação de uma Assembleia Constituinte autônoma é a única vida possível para essa reforma e tem que constar desde agora no calendário do próximo ano.

Se trata agora de ganhar para avançar. Não é mais possível simplesmente administrar o modelo tal qual existiu até agora, sem reformas estruturais que desbloqueiem os obstáculos que tem freado o crescimento econômico e  dificultado a melhoria dos serviços públicos.

Dilma é favorita para ganhar, até mesmo no primeiro turno, mas essa vitória se dá pela acumulação de apoio popular da primeira fase dos governos, especialmente pelo sucesso das políticas sociais. Agora já não será mais possível surfar nesse impulso. Dilma tem que se comprometer, desde agora, com as transformações estruturais que abram uma segunda etapa dos governos do PT. Trata-se de ganhar para avançar, para transformar as estruturas profundas do poder, herdadas ainda da ditadura e do neoliberalismo.

Tags: Política




19 Comentários Insira o seu Coméntario !

Cássio Moreira - 13/05/2014
http://www.sul21.com.br/jornal/a-estrategia-da-oposicao-ao-governo-trabalhista-de-dilma-rousseff-por-cassio-moreira/


Marcia Eloy - 12/05/2014
Jose Ricardo

Tirania do Lulismo? Mas vários aliados ou não foram os precursores do "volta Lula" de maneira totalmente espontânea. O Lula deixou bem claro que não é candidato. E depois, o povo brasileiro, já que a mídia não informa, deveria se interessar pelo que está acontecendo fora do Brasil. Taxa de desemprego. Crescimento do PIB. Crise econômica, etc...


Alvaro Antonio Terra Martins da Silva - 10/05/2014
Emir,



Acho que a Dilma não tem páreo nessa eleição desse ano. A opção do Aécio Neves seria um retrocesso, com todas as mazelas de um governo tucano e suas trilhas neoliberais. Até hoje não tivemos a CPI da privatização da Vale, pra não falar do mensalão mineiro onde teve a origem de toda a corrupção do mensalão. A opção do Eduardo Campos ainda não conhecemos totalmente, porém acho que a candidata que iria dar trabalho está escondida, por trás da candidatura da frente do PSB que é a Marina. Então na minha opinião também é carta fora do baralho. Ouvi dizer que o Bolsonaro iria se candidatar. Piada. Mas até que não seria má idéia. Na minha opinião só iria servir para polarizar a eleição, zerando a opção pelos outros e direcionando os votos somente a favor do PT e contra. Acho que o Bolsonaro não conseguiria mais de 5% e a Dilma ficaria com 95%. Em todos os cenários a Dilma é vitoriosa, ainda mais com o apoio do Lula.

Com relação a esse segundo mandato da Dilma, que é quase certo, poderia ser realizada a reforma política. Uma das medidas mais importantes para o país seria o fim da reeleição para os parlamentares. Senado e Câmara não tem que ter mais de um mandato. Para os cargos executivos (presidente, governador, prefeito) se justifica a reeleição, porém para o parlamento, não há necessidade de continuidade, mesmo porque se ganharia mais confiabilidade nos políticos.

Alguns tem o cargo como vitalício pelo número de mandatos sucessivos que acumularam. Vamos ter que pensar nisso para o bem do país, como prioridade para esse segundo governo da Dilma.


venceslau alves de souza - 10/05/2014
Marquem aí: para governar, em seu segundo mandato, a "dama de ferro tupiniquim" vai ter de vender a alma ainda mais para o diabo, leia-se, o PMDB e seus asseclas! Moral da história, para nós da classe média, a coisa seguirá nos moldes de "o Brasil está melhorando". Rapaziada, "só sabe o que é fome, quem passa fome" (Milton Santos), o resto, é balela!


José Ricardo Romero - 10/05/2014
Não me parece que o governo e o PT tenham a mínima percepção do momento histórico vivido pelo Brasil e a necessidade de mudanças, tão bem colocadas aqui neste artigo. O mote do Lula, da Dilma e do PT é a continuidade de programas relativamente bem sucedidos e o convencimento do eleitorado que se outro candidato for eleito os prejuízos da classe trabalhadora serão muito grande, o que é verdade. Não me parece que haja no governo e no PT qualquer energia capaz de gerar trabalho no sentido das reformas necessárias porque elas são profundas e demandam muita coragem e inteligência política que os acima mencionados obviamente não têm. Há uma ociosa acomodação do governo e a maior prova disso é a escandalosa manutenção de ministros da casa, cota do Lula, que simplesmente não merecem qualquer qualificativo. Se a Dilma tivesse a mínima disposição para mudanças mais do que necessárias, começaria a limpar a casa desentulhando o governo destes incompetentes e traidores. Parece incrível, mas o PT não pode acusar os oponentes de "volta ao passado" porque ele próprio, submetido à tirania do lulismo, é a manutenção do passado.


Teodoro Magni - 10/05/2014
A guerra começou. A mídia está toda contra, uns ainda dissimulados, outros descaradamente ofensivos contra Dilma e o PT. Se passarmos este teste, será a hora do tudo ou nada: reforma política e regulamentação da mídia, ou o trinfo da direita. Haja coragem!


veronica miranda - 09/05/2014
O que não se pode esquecer é que tem muita gente com capacidade e vontade de participar nessas mudanças e não estão podendo contribuir porque a forma como está pactuado o acordo político deixa essas pessoas de fora. É necessário também passar credibilidade, pois promessas de mudanças existem muitas nesse governo, mas pela pactuação política elas não se concretizam. As pessoas se sentem enganadas e deixadas de lado quando têm muito a contribuir com o país. A insatisfação generalizada da população que vai ás ruas tem aí sua fonte principal: promessas não cumpridas e marginalização dos grupos sociais e pessoas que são formadoras de opinião e que ficaram na geladeira. Ninguém gosta de congelar e a solução é o fogo, que derrete as estruturas. Infelizmente vai ser preciso mais que o discurso neste ano para as pessoas acreditarem que vem mudanças no governo Dilma. É necessário apontar realizações e colocar a mão na massa.


Jerdeson Soares da Silva - 09/05/2014
Caro professor o PT não quer mudança estrutural nenhuma. Teve tudo para começar a fazer nesses 12 anos. Não acredito mais no PT. Nessas eleições PT, PSB e PSDB são irmãos trigêmeos


Cleusa Pozzetti Siba - 08/05/2014
É Márcia! Eu também como você, acredito nas mudanças positivas que o Partidos dos Trabalhadores implementou no Brasil. Já assisti ao vídeo com a apresentação do Lula na Convenção. É impressionante sua vasta memória e capacidade de comunicação, que causa muita inveja naqueles que não sabem reconhecer quando tem um grande homem diante de si! Ele é um verdadeiro líder!. Tem gente aqui neste espaço que estão com saudades de FHC e CIA. Mas quem tem memória sabe,por exemplo, que à época do FHC, a taxa SELIC, atualmente já elevada, em 11%, à época de FHC chegou a 45%, e a tal da inflação controlada era em torno de 13%. O que inspira pessoas como nós a optarmos pelo PARTIDO DOS TRABALHADORES são as vitórias que obtivemos como o Marco Civil da Internet, a reativação das Escolas Técnicas Federais, a construção de Universidades, o Prouni, o Programa Mais Médicos,entre outros, e tantas ações de inclusão de uma parcela da população que estava esquecida à época de FHC. O retorno a esse negro e maquiavélico período da nossa história, a depender de mim jamais se repetirá!.


Glauco Campos - 08/05/2014
Depois de 11 anos de PT no poder, a educação continua lastimável, nossos indices educacionais são vergonhosos sob todos os aspectos, nenhuma mudança concreta na área ocorreu. Saúde pública, tão na lata que o governo teve q improvisar o Mais Médicos pra fazer alguma poeira. Realmente, temos muito que avançar.


Mário SF Alves - 08/05/2014
"O que se está esgotando não é o governo do PT, mas sua primeira fase. A prioridade das políticas sociais é amplamente vitoriosa, foi e continua sendo a responsável pelo imenso processo de democratização social por que passa o Brasil desde 2003. É assim que diminuímos a exclusão social, a desigualdade, a pobreza e a miséria - objetivo fundamental de um país que sempre carregou esses carmas -, mesmo em meio a uma profunda e prolongada recessão internacional."



É possível entender bem isso, valoroso professor Emir.







Estabelecendo uma analogia, ainda que tabula rasa, ainda que por demais força, ainda que extemporânea, entre o PT e o PRI mexicano, a dúvida que fica é:

O que aconteceu com PRI?

Não haveria o risco de acontecer o mesmo com o PT?


antônio claret carvalho - 08/05/2014
Infelizmente muitas pessoas querem o retrocesso, esquecem-se de como o Brasil avançou e muito a partir do Lula. Não vivemos em um mar de rosas, mas felizmente as pessoas têm mais dignidade e podem concretizar seus sonhos. Só penso como a classe trabalhadora irá penar se a direita voltar a governar o país.


venceslau alves de souza - 07/05/2014
Volte à Terra, professor! A estratégia gramsciana é excelente, adjetivo que não se aplica a seus colegas do PT! Aliás, este será a primeira eleição que deixarei, definitivamente, de votar nessa gente e, pasme, recomendar a meus amigos, alunos e conhecidos em geral que façam o mesmo!!


Marcia Eloy - 07/05/2014
Cleusa

Não é fácil lidar com esta gente, mas estou falando em outro tipo de gente, gente que ainda n.ao é gente, que ainda vive na idade da pedra. Hoje, voltando da minha ginástica, vi um senhor aqui da rua fazendo um discurso para os porteiros chamando a Dilma de terrorista.e dizendo que o povo vota em terrorista. Amanha vou imprimir discurso que o Lula fez para os blogs e que foi posto no Conversa Afiada e eu copiei e vou distribui-los aos porteiros. Quem quiser ouvir o discurso de 3 horas e meia está a disposição no instituto Lula. Há muito tempo não escuto nada que me desse tanto prazer.


roberto danunzio - 07/05/2014
Onde será que já ouvi isto? Acho que deve ter sido às vésperas da última e da última e da última eleição. Primeiro, reelegemos a dama de ferro, depois ela despe a armadura e avança alguns centímetros do liberal para o social. Beleza, ótimo! Agora, que tal algum sinalzinho simbólico? Tenho uma sugestão: a promessa de colocar um índio na presidência da Funai e a promessa de revigorar o órgão a partir de janeiro. É demais? Será que estou sendo muito radical? Vai atrapalhar a tal da governabilidade? Só estou pedindo uma promessinha concretinha, perfeitamente factível uma vez que depende apenas do executivo, o que acha, Emir, ein? Perspectivas gerais e pouco factíveis acabam desmoronando no segundo dia do próximo mandato, sabemos disso. Ou não? O que acha, leitor, o anúncio, daqui a uma semana, pela excelentíssima presidente Dilma, do nome de um índio para a presidência da Funai a tomar posse em janeiro que vem. Ou será que estou pedindo demais? Ou será que estou sonhando?


Wanderson Pereira - 07/05/2014
Traduzindo: Roubar a propriedade privada usando o Estado contra os cidadãos e concentrar o poder econômico e político nas mãos dos comunistas em nome da distribuição de renda. É A MEGA ULTRA SUPER PRIVATIZAÇÃO DO BRASIL DESCRITA EM TERMOS "DEMOCRÁTICOS" PELO SR. EMIR SADER.



Obs.: Só faltou pedir o número da carteira de vacinação para fazer o cadastro no site.


José Augusto Simões Vieira - 07/05/2014
O problema é que a dama de ferro brasileira se armou no alto do pedestal da arrogância. Se acha suprema e ignora antigos aliados. Diz que não fará arrocho salarial e está desmantelando o serviço público federal em todos os níveis com o congelamento salarial imposto. Parece que os projetos de governo se esgotaram. O que mais ela pode fazer depois de ter aberto, junto com o Lula, as portas para a total corrupção do Estado brasileiro?


Cleusa Pozzetti Siba - 07/05/2014
Prof. Venceslau Alves de Souza, parabéns pela sua iniciativa de não votar mais nessa gente,ou seja o Partidos dos Trabalhadores! Quem sabe se a eleição for para as mãos da oposição, o Brasil que teve avanços sim, poderá voltar à idade média. Depois não reclame se isso vier a ocorrer!! É claro que a gente só entende o professor Emir se não olhar somente para o umbigo. Apesar dos erros do governo e algumas ações que me foram prejudiciais, ainda não são nada diante do perigo eminente de o Brasil voltar a tirar os sapatos, dignidade e tudo o mais para os imperialistas dos EUA. Se o senhor for professor universitário de órgãos públicos, daí conhecerá o que é arrocho. Desejo que isto seja apenas um suposto pesadelo que não ocorrerá de fato. Quanto o senhor ganhará com isso?