12/07/2014 - Copyleft

Lei Pelé: o neoliberalismo no futebol

O neoliberalismo chegou ao futebol através da chamada Lei Pelé. Que pregava a profissionalização do futebol, contra o que chamava de ditadura dos clubes.

por Emir Sader em 12/07/2014 às 09:26



Emir Sader

Republico este artigo escrito há alguns anos e publicado originalmente na Carta Maior, porque o considero - infelizmente, 7 e mais vezes infelizmente – absolutamente atual. Espero não tenha que publicá-lo 7 vezes mais, não tenha que publicá-lo nunca mais.

Multiplicam-se as reclamações de que o dinheiro passou a mandar no futebol, que os clubes estão falidos, que os jogadores já não têm apego aos clubes, mudam às vezes durante o campeonato, passando para o rival, se contratam meninos ainda para jogar no exterior, uma parte deles fica abandonado, submetidos a todo tipo de irregularidade.

Mas o que aconteceu, o que está na raiz de tudo isso?

O futebol – assim como todos os esportes – não é imune às imensas transformações econômicas, sociais e éticas que as nossas sociedades sofrerem e ainda sofrem. No Brasil, o neoliberalismo chegou ao futebol através da chamada Lei Pelé. Que pregava a “profissionalização” do futebol, contra a ditadura dos clubes, que tinham os jogadores atrelados ao clube como se se tratasse de uma relação feudal, pré-capitalista.

Intensificou-se dura campanha contra os “cartolas”, com acusações - todas provavelmente reais -, de corrupção, concentração de poder, arbitrariedades, etc. Porém, de forma similar ao que se fazia na campanha neoliberal contra o Estado, não era para democratizar aos clubes, ou ao Estado, mas para favorecer o mercado.

A profissionalização foi isto. Supostamente para libertar os jogadores do domínio dos clubes, jogou-os nas mãos dos empresários privados. Não por acaso se deu durante a década de 90, em pleno governo FHC, que preconizou todo o tempo a centralidade do mercado, os defeitos do Estado, a necessidade de mercantilizar tudo, de transformar a sociedade em um lugar em que tudo se compra, tudo se vende, tudo é mercadoria.

Os jogadores foram transformados em simples mercadorias, nas mãos dos empresários, que reinam soberanos, assim como o mercado e as grandes empresas fazem no conjunto da sociedade. Enquanto os clubes, da mesma forma que o Estado, ao invés de serem democratizados, são sucateados. Interessa aos empresários privados que os clubes sejam fracos, estejam falidos, serão mais frágeis ainda diante do poder do seu dinheiro. Assim como ao chamado mercado interessa que o Estado seja mínimo, seja fraco, para que ceda cada vez mais a seus interesses.

Os clubes podem ser democratizados – de que o exemplo da democracia corintiana é claro. O jogo dos empresários não é democratizável, nem passível de ser controlado socialmente, vale quem paga mais, que tem mais dinheiro. Assim como o Estado pode ser democratizado – e as políticas de orçamento participativo são o melhor exemplo disso.

Com o reino do mercado, não há Estado, não há democracia, não há interesses coletivos. Triunfa o mercado e seu principio maior – o do dinheiro. Com o reino dos empresários privados, não há clubes, há times, que ocasionalmente são montados para disputar um campeonato, enquanto os empresários não vendem os jogadores. Os campeonatos servem apenas como vitrine para exibir as mercadorias dos empresários.

Em um tempo em que tantas identidades entraram em crise, nem sequer os clubes de futebol conseguem resistir, diante da privatização que a lei Pelé significou, fazendo da camisa dos jogadores um lugar em que mal cabe – quando cabe – o distintivo, de tal forma tudo é comercializado. Ou se fortalecem os clubes, democratizando-os, destacando sua dimensão publica e não de empresas privadas a serviço da comercialização dos jogadores, ou a quebra generalizada que atinge o mercado capitalista não poupará os clubes. Que irão à falência, diante do enriquecimento ilimitado dos empresários privados.

Tags: Política




9 Comentários Insira o seu Coméntario !

jeferson nascimento - 21/08/2014
Sr. Sanches,



Me permita discordar de um ponto importante de sua explanação. A lei Pelé ao contrário, transformou o jogador de futebol em verdadeiros escravos.. não vamos confundir " empresários-agentes", como é o caso do pai do Neymar, com empresários investidores do futebol. Após a lei Pelé/Zico. Esses segundos empresários são na realidade os donos de passes de uma grande maioria de jogadores.. são inúmeros técnicos de futebol, agentes do futebol, investidores, que controlam a vida de centenas de jogadores.. eles decidem onde o jogador vai jogar.. o atleta janta no seu clube no Brasil e tom café no Casaquistão.. por ex.. Verdadeiros escravos modernos..



E mais ainda essa permissividade possibilita até a ingerência dos donos de jogadores em resultados de jogos.. com possibilidade de facilitar jogadas de gol...



Isso é tão verdade que a UEFA já não permite mais a inscrição de jogadores cujos direitos não sejam de clubes e do próprio.. A Fifa vem sendo pressionada pela Uefa, para acabar com essa loucura de donos de pessoas..



Nenhum deles são contra que agentes/empresários recebam seus percentuais combinados entre este e o jogador, numa negociação.. mas somente isto..



La fora essa farra do boi vai acabar.. e aqui com certeza teremos o fim dessa lei, que embora pudesse ter sido feita com boas intenções, gerou um péssimo gesto.


Valdir Eduardo Ribeiro - 15/07/2014
Penso que o texto é muito fiel à realidade. Estamos assistindo os escândalos da transação do Neymar e as consequências dela. As negociações milionárias de jogadores de futebol. Concordo inteiramente com a análise do Emir neste artigo. Talvez o momento seja apropriado para refletirmos e pensarmos políticas públicas para o futebol, pois os Clubes - mesmo que privados - precisam passar por um reciclagem, democratização real, mas ao mesmo tempo precisamos intervir nessa realidade de modo a encontrar outro caminho possível. O que temos visto no futebol, que não é diferente do restante da sociedade, é estarrecedor. E o "mercado" vai engolindo e submetendo o Estado e as políticas públicas ao seu interesse. Entendo que precisamos recolocar na agenda, na pauta do dia, o interesse público, a coletividade, o bem comum.


Mauricio Bernardi - 15/07/2014
Os chineses estão inseridos na globalização do futebol. A esquerda brasileira não. Os chineses compraram até um centro de treinamento em Barueri-SP. Investem pesado em futebol. No Brasil estamos na fase pré-capitalista. A Lei Pelé tentou corrigir isso, mas, foi escamoteada na Câmara pela Bancada da Bola, com apoio da esquerda. Os empresários dominam hoje o mercado do futebol. O que se pretendia era que esse mercado fosse dominado por times-empresa, como na Ásia e na Europa. A Alemanha reformulou seu futebol. O Bayer de Munique é o time mais rico do mundo em mantém escolinhas de futebol.


Hermes Sanchez - 14/07/2014
Provavelmente jejuno em temática futebolística, o Prof Emir comete alguns equívocos:

1. O dinheiro passou a mandar no futebol desde o início dos anos 30, e o profissionalismo acabou com o romantismo do amor à camisa, desde então.

2. Antigamente o jogador de fato era tratado como mercadoria, pois o clube estabelecia um preço sobre o atleta, que só era liberado se alguém o "comprasse". Há inúmeros casos de jogadores de então que tiveram suas carreiras prejudicadas, pois os clubes não lhes renovava o contrato nem os vendia, e deixava-os parados sem salario.

3. A Lei Pelé não foi introduzida para profissionalizar o futebol, pois este já era profissional há muito tempo. Através da nova lei o jogador é livre para fazer seu contrato com quem quiser, refazê-lo com outro clube ao término do anterior também segundo seu desejo, ou romper o contrato desde que ressarça o contratante com a multa contratual.

4. Os jogadores não foram jogados nas mãos de empresários, estes sempre existiram, e o jogador se vincula a ele se quiser, vide o caso de Neymar cujo empresário é o próprio pai. Os empresários hoje são mais atuantes pois os jogadores deles necessitam para administrar suas carreiras, inclusive no mundo publicitário, por exemplo. O jogador deixou de ser mercadoria e assina contrato a seu livre arbítrio, o empresário é o orientador desse processo.

5. Os jogadores não são propriedade dos empresários pois estes podem ser substituídos pelo jogar, como ocorre até com frequência

6. Os clubes são entidades associativas, não há como democratizá-los, seja lá o que isso queira dizer, e são mal administrados há décadas, estão em estado falimentar muito antes da Lei Pelé. Só à guisa de informação, a citada democracia corinthiana não democratizou absolutamente nada e o clube Corinthians sempre seguiu administrado da mesma maneira.

7. Empresários, dirigentes de clubes e federações, se são inescrupulosos isso se dá justamente pela fragilidade de nossos meios judiciários, por outras leis ultrapassadas, e por leniência do Estado, que vive a perdoar ou a prorrogar dívidas imensas dos clubes para com o fisco, previdência e fundo de garantia.



Marcia Eloy - 13/07/2014
Acho muito difícil se livrar do mercado, pois em um país capitalista, ou melhor em um mundo capitalista , o mercado manda. Agora mesmo foi chocante, ver o Barcelona comprar o Luiz Soares depois do que aconteceu na Copa. Nada interessa, o comportamento do jogador, a sua suspensão, apenas que ele interessa ao clube.


Rui - 12/07/2014
Não sei como funciona esse mercado, mas acredito que os clubes, por serem as vitrines, tem como quebrar esse bloqueio, não contratando as estrelas que estão no portfólio dos empresários. Empresário não tem campeonato para jogar, quem tem é o clube, e é ele que deve desenvolver sua categoria de base, com vínculo ao clube e não ao empresário, claro, se não houver conivência do presidente do clube com os empresários.


Plínio de Mesquita Camargo - 12/07/2014
Os dirigentes dos clubes elegem os dirigentes das federações, que elegem os dirigentes da CBF, que, com o apoio ($) dos cafetões (digo, empresários), investem na eleição de dirigentes amigos nos clubes. Intervenção, JÁ!


MARIA GORETTI A.M FARIA - 12/07/2014
Isso passa por nova lei-ASSINEM o abaixo assinado do Bom Senso Futebol Clube-E LEIAM AS PROPOSTAS -ENTREM NO SITE.VAI VALER A PENA.


Roméro Samuel Carneiro - 12/07/2014
Emir,nós estamos no mato sem cachorro. Você resumiu uma situação de complexidade astronômica,numas poucos linhas,se permite,sem "rasgacão"de seda,parabéns. Mas apesar de seu olho clínico e de sua manifesta boa vontade,o cenário é desanimador,tão desanimador que me faz lembrar de uma pesquisa política que resultou na divisão dos entrevistados em 2 grupos:otimistas e pessimistas. Cansados de notícias ruins o político quis saber o que os otimistas estavam dizendo,no que lhes responderam:"os otimistas estão dizendo que o povo vai comer MER-cadoria",o político se assustou e perguntou: UAI,o que dizem então os pessimistas? "Dizem chefe,que a MER-cadoria não vai dar pra todo o mundo". Infelizmente isto não tem conserto. Quem governa o futebol,lamentavelmente,é a televisão.