06/12/2013 - Copyleft

Mandela contra a escravidão

A figura de Mandela permanece como a do maior líder popular africano, porque tocou no tema essencial de todo o período histórico da colonização: a escravidão.

por Emir Sader em 06/12/2013 às 07:01



Emir Sader

A escravidão foi o maior crime de lesa humanidade cometido ao longo de toda a história humana. Tirar milhões de africanos dos seus países, do seu mundo, da sua família, para trazê-los para a América, para trabalhar como escravos, como  “raça inferior”, produzindo riquezas para os brancos europeus foi um crime incomensurável,  do qual nunca se compensou, sequer minimamente, a África.

O “apartheid” foi uma sobrevivência da escravidão na África do Sul. Como relata o Museu do Apartheid, em Joanesburgo, impressionante testemunho do mundo do racismo, os brancos consideravam essa politica uma “genial arquietetura” para conseguir a convivência entre brancos e negros. Nas mais escandalosas condições de discriminação, de racismo, de opressão.

Por detrás estava a super exploração da mão de obra negra nas minas sul-africanas, fornecedor essencial para os países europeus, sob comando da Holanda. As pessoas eram legalmente declaradas brancas ou negras, com todas as consequencias de direitos para uns e exclusão de direitos para os outros. Uma declaração da qual se poderia apelar todos os anos, mas que, ao mesmo tempo, se corria o risco de alguém questionar a condição de branco de qualquer outra pessoa, que poderia recair na condição de negro.

O cinismo das potências coloniais e dos próprios EUA estava na postura de não aderir ao boicote à Africa do Sul, alegando que isso isolaria ainda mais esse pais e dificultaria negociações politicas. Na verdade, a África do Sul do apartheid era um grande aliado dos EUA – junto com Israel – em todos os conflitos internacionais, alem de fornecedor de matérias primas estratégicas.

Não foi essa via de negociações que o apartheid terminou, mas pela luta, conduzida por Nelson Mandel, mesmo de dentro da cárcere, por 27 anos. Como reconheceu o próprio Mandela, o país que desde o começo apoiou ativamente, sem hesitação, a luta dos sul-africanos foi a Cuba de Fidel, o que forjou entre os dois lideres uma relação de amizade e companheirismo permanente.

A libertação de Mandela, o fim do apartheid e sua eleição como o primeiro presidente negro da Africa do Sul, foram a conclusão de décadas de lutas, de massacres, de prisões, de sacrifícios. Mandela aceitou ser eleito presidente, para concluir esse longo caminho, com a consciência de que estava longa de ser conseguida a emancipação dos sul-africanos. O país manteve a mesma inserção no sistema econômico mundial, as estruturas capitalistas de dominação não foram atingidas. A desigualdade racial foi profundamente afetada, mas não as desigualdades sociais.

Por esta via, os negros sul-africanos continuaram a ser vítimas, agora da pobreza, que os segue afetando de maneira concentrada. Os governos posteriores foram impotentes para mudar o modelo econômico e promover os direitos sociais  da massa da população. Os ideias de Mandela se realizaram, com o fim do apartheid, da discriminação racial legalmente explicitada, mas não permitiu aos negros saírem da sua condição de massa super explorada, discriminada, agora socialmente.

Mas a figura de Mandela permanece como a do maior líder popular africano, porque tocou no tema essencial de todo o período histórico da colonização – a escravidão. Ele soube combinar a resistência pacifica e violenta, para canalizar a força acumulada dentro e fora do país, para negociações que terminaram com o apartheid.

O historiador marxista britânico Perry Anderson considera Nelson Mandela e Lula como os maiores líderes populares do mundo contemporâneo, não apenas pelo sucesso das lutas a que eles se dedicaram – contra a discriminação racial e contra a fome -, mas também porque tocam em temas fundamentais das formas de exploração e de opressão do capitalismo. O apartheid terminou, fazendo com que Mandela ficasse como um dos maiores lideres do século XX. Lula projeta sua figura no novo século, na medida em que a sobrevivência do capitalismo e do neocolonialismo reproduzem a fome e a miséria no mundo. 

Tags: Internacional




8 Comentários Insira o seu Coméntario !

Marcia Eloy - 11/12/2013
Realmente, há algo em comum entre Mandela e Lula, nenhum dos dois, exercendo o poder incitou a luta armada entre as classes sociais. Lula sempre foi um conciliador, um negociador, e por esta razão foi criticado pelos radicais de esquerda que saíram do PT para criarem o PSOL. Mandela também ao sair da prisão, usou de um jogo para unificar a África do Sul, sem se preocupar com revanchismos. É difícil , alguém que foi sistematicamente perseguido ao adquirir o poder, procurar não dar o troco. São poucos os que conseguem.


Cleusa Pozzetti Siba - 09/12/2013
Ubiratan, você deveria prestar atenção sim,quanto a Globo ganha, e é muito dinheiro público, para te manter um perfeito acéfalo!


Cláudio Abrahão Zani - 08/12/2013
Joaquim Neto, ao ler esta sandice, essa estupidez que você escreveu, fico na dúvida se isso foi escrito por alguém que está de posse de suas faculdades mentais, ou se trata-se de pura falta de educação e civilidade. Com quem é que você pensa que está falando, Joaquim Neto?


Ubiratan dos santos - 08/12/2013
A seu também tivesse um cargo publico bem remunerado ou se fosse articulista desta revista paga com dinheiro publico eu também cometeria esta heresia de comparar Mandela ao Lula lelé(A metamorfose)Alias transparência já quanto custa está revista aos cofres da nação.Só pra lembrar outro dia li que 200 mil comissionados em governos do PT vocês acham isto normal em esquerda festiva.





Fabiane - 07/12/2013
Talvez fosse melhor comparar Mandela a FHC, certamente algum leitor gostaria mais, francamente!!!

Os grandes homens só são mesmo reconhecidos depois que passam, não adianta!

Nos dias de hoje é fácil reconhecer que Mandela foi um grande estadista. Thatcher, Reagan e seus contemporâneos classificavam Mandela como um terrorista, como um verme e que o apartheid era essencial para o mundo livre... somente o tempo para reconhecermos os heróis de nossa época!!!



Joaquim Neto - 06/12/2013
É muita canalhice querer comparar um estadista como Mandela a um verme como Lula. Não dá mesmo para levar a sério uma revista como esta e nem um "articulista" como este.


Orlando F. Filho - 06/12/2013
Por mais que eu fale, teu nome tem a dimensão do universo: imenso, às vezes incompreensível para quem talvez não entenda as dimensões da liberdade.


apolinario pereira - 06/12/2013
Como sempre Emir, sua analise é perfeita, Mandela e Lula os mais ilustres cidadaos do mundo, na luta contra a discrinação , fome , pobreza e miseria.Parabens!