03/08/2014 - Copyleft

Neoliberalismo e fundos abutre

Os fundos abutre são o exemplo mais radical do caráter parasitário do capital especulativo, típico da era neoliberal.Os Brics começaram a apontar a alternativa.

por Emir Sader em 03/08/2014 às 12:19



Emir Sader


Quando se esgotava o ciclo longo expansivo do capitalismo, se impôs o debate sobre as razões desse esgotamento e as formas de retomada do desenvolvimento econômico. Triunfou a renascida versão do liberalismo, vocalizada, em particular, por Ronald Reagan, que disse que haveria que suspender os limites à livre circulação do capital, haveria que desregulamentar a economia. O capital voltaria a circular haveria investimentos, as economias voltariam a crescer e todos ganhariam.

Promoveu-se a livre circulação do capital em escala global, mediante a abertura dos mercados nacionais, a privatização de patrimônios públicos, a mercantilização do que antes eram direitos, a precarização das relações de trabalho, a retração do Estado, a centralidade do mercado. Mas o que aconteceu foi diferente do previsto.

Acontece que, como recordava sempre Marx, o capital não está feito para produzir, mas para acumular. Liberado das travas do período anterior, o capital se dirigiu, maciçamente, para a esfera financeira, onde ganha mais, tem liquidez total, paga menos impostos e exerce forte pressão sobre os governos. (Uma agência de apoio aos especuladores, uma vez concluiu suas sugestões, dizendo, lilteralmente: Aproveitem a festa, mas fiquem perto da porta.) Em escala mundial se deu uma gigantesca fuga de capitais do setor produtivo ao especulativo, com o capital financeiro assumindo o papel hegemônico na era neoliberal do capitalismo.

O baixo crescimento ou a estagnação ou até mesmo a retração das economias se deve justamente ao fato de que o setor hegemônico na economia é um setor parasitário, que não produz nem bens, nem empregos. É o capital financeiro sob sua forma especulativa, que não financia o consumo, nem a produção, nem a pesquisa. Vive da compra e venda de papéis.

Os fundos abutre são o exemplo mais radical desse caráter parasitário do capital especulativo, típico da era neoliberal. Nesse caso, se valeram da crise da dívida dos países latino-americanos nos anos 1980 para impor normas draconianas a governos subalternos, parte fundamental da herança maldita recebida pelos governos antineoliberais. Empréstimos a juros brutais em troca da renuncia à soberania nacional.

Assim, mesmo os governos que reagiram contra o neoliberalismo, começando a construir alternativas a esse modelo esgotado, tem que enfrentar ainda essa herança. Para a direita seria sinal de fracasso dos governos progressistas, quando na realidade são ainda restos dos governos da própria direita.

Os Brics começaram a apontar a alternativa: um Banco de Desenvolvimento para o Sul do mundo, um fundo de apoio frente a problemas que possam enfrentar esses países. O conflito atual da Argentina com os fundos abutre representa os estertores do modelo contra o qual foram eleitos e reeleitos os governos progressistas, que constroem um modelo alternativo ao neoliberal.

Tags: Economia




3 Comentários Insira o seu Coméntario !

Antonio Hermano Lemme - 04/08/2014
Grande síntese!

Excelente!

Grato, professor.


Marcia Eloy - 04/08/2014
Muito bom este artigo!


Nivaldo Pedro Barbieri - 03/08/2014
Caro Emir

Mais uma vez inicio os comentários.

Emir! Pegue um mapamundi, ou o próprio Google Earth, pegue uma ferramenta , lapis macio, ou Caminho no google, Marque grosseiramente o contorno do Brasil,una com a Africa do Sul contorne ligue a India e faça o seu contorno vá a China tambem faça o contorno e termine contornando a Rússia. Veja a Área encerrada por estes paises, sem considedar seus satélites.Eis o BRICS, precisa dizer mais?

Abraços

Nivaldo