08/04/2012 - Copyleft

Nós e eles: a viagem de Dilma aos EUA

por Emir Sader em 08/04/2012 às 09:39



Emir Sader

As relações do Brasil com os EUA quase sempre foram de subserviência. Hoje mudaram. Não por eles, que continuam imperiais, prepotentes, sem consciência da sua decadência.

Terminada a segunda guerra, Octávio Mangabeira beijou as mãos do presidente dos EUA, Harry Truman, que visitava o Brasil. Instaurada a ditadura militar, Juracy Magalhaes, ministro de Relações Exteriores, adaptando a frase da General Motors, afirmou: “O que é bom para os EUA é bom para o Brasil.” Logo apos os atentados de 2001 nos EUA o então ministro de Relações Exteriores do Brasil, Celso Lafer, se submeteu a tirar os sapatos para ser controlado em um aeroporto dos EUA. Os três são da mesma linhagem tucano udenista, sombras que deixamos para trás.

As relações entre o Brasil e os EUA mudaram, porque mudamos nós e porque o mundo está mudando. A Presidenta que chega hoje aos EUA é uma mulher, que lutou contra a ditadura militar que os EUA promoveram e apoiaram, eleita por seu antecessor, um operário que colocou o Brasil no caminho da soberania e do respeito internacional.

Não importa se o tratamento que eles deram ao seu aliado canino há poucos dias, foi pomposa, cheia de reconhecimentos e salamaleques. Que eles se abracem na decadência anglosaxã. Temos certeza que eles trocariam imediatamente esse apoio caquético por uma aliança estratégica conosco, se estivéssemos dispostos a isso.

Mas não estamos. Temos uma política externa independente, digna, que brecou o projeto norteamericano da Área de Livre Comercio das Américas (ALCA), que rejeita Tratados de Livre Comércio com os EUA, que privilegia a América Latina e seus projetos de integração regional, que prefere as relações com o Sul do mundo que com o Norte.

Não estarão na mesa os grandes temas da política internacional nas reuniões de Dilma com Obama. Porque sobre eles nós temos posições irreversivelmente antagônicas – Cuba, Irã, Palestina, crise econômica interacional, entre tantos outros.

Serão relações bilaterais, sobre temas particulares, entre uma potência decadente e uma potência emergente. Uma que projeta o mundo do século XX e outra que reflete o novo mundo, o do século XXI. Ninguem tem dúvidas qual delas tem projetada uma tendência descendente no novo século e qual tem uma tendência ascendente. Ninguém tem dúvidas que o século norteamericano ficou para trás e o novo século já é o século do Sul do mundo. Como representante desse mundo é que Dilma viaja hoje, digna, com a força moral da nossa soberania, aos EUA.

Tags: Internacional




18 Comentários Insira o seu Coméntario !

Dlaom Lameiad - 18/04/2012
Gosto do seu entusiasmo quando se refere ao Brasil. No entanto, não devemos esquecer que por trás dos bastidores, a política econômica americana ainda continua dando as cartas por aqui através do controle da economia pelo dólar. Pelo menos hoje, a Standard Oil-ESSO, não corrompe mais, como o fez por décadas, comprando os integrantes da Comissão Nacional de Energia para negarem a existência de petróleo em solo brasileiro. Monteiro Lobato, nacionalista e indignado com a situação, denunciava que os burros ao comer capim (pelo cheiro) sabiam da existência do petróleo, somente o Governo do Brasil não sabia.

Em verdade, há muita coisa por debaixo dos panos que nós, o povo, não sabemos. A política externa americana sempre foi alicerçada sobre o corromper líderes em outros países. Na obra "Corrupção à Americana", os consagrados jornalistas americanos Amy e David Goodman partem impiedosamente para o ataque e desafiam o poder da Casa Branca.

Não sabemos o que se passa nos bastidores do Governo Dilma. Não confio nela. Quem colocou a quantidade imensa de Ministros corruptos de seu governo para fora foram as denúncias da grande imprensa. Caso contrário, a quadrilha do Planalto estaria toda lá.

E o que a quadrilha pode fazer contra os interesses nacionais, só Deus sabe, e sempre na calada da noite. Ninguém fica sabendo. Só os resultados, depois de muitos anos, como aconteceu com a Comissão Nacional de Energia que conseguiu por décadas impedir a exploração do petróleo brasileiro para não cessar a compra do produto da Standard Oil-ESSO.



Zallas Avlys - 11/04/2012
Quero fazer coro à exposição de André Dantas quanto à política externa de Dilma. Pessoalmente carrego mais esta indignação com nossa presidente. Acredito haver distanciamento entre o ministro das relações exteriores de FHC e o de Dilma, mas não posso dizer que seja uma distancia absoluta, mas relativa. Brilho, inteligencia, coragem e sagacidade expresso pelo ministério das relações exteriores como nos dois governos Lula ainda está para acontecer. O prof. Emir faz um esforço mirabolante para emprestar ao governo Dilma o mesmo valor ao de Lula, mas quanto à política exterior está bem claro que a orientação é outra. Votei em Dilma por várias razões e dentre elas o fato de que não havia outra opção. Mas sobrepôs-se a todas elas o que significou a mulher Dilma no governo Lula com a saída de José Dirceu.


souza - 10/04/2012
nobre mestre.

fala pouco e diz muito.

sábias palavras.


Willian - 10/04/2012
Não estranhamente, o articulista lembrou de Celso Lafer ter tirado os sapatos num aeroporto americano, mas esqueceu-se dos ministros brasileiros do governo petista que se submeteram a rigorosa revista pela segurança do presidente Obama em solo brasileiro. Sinceramente, não me surpreendi pelo "esquecimento" do Sr. Sader.


Roberto Rosemberg - 10/04/2012
Acredito em alguns avanços sociais do governo Lula e na continuação do governo Dilma, mas, a nossa democracia representativa ainda esta aquém daquilo que a maioria da população deste país sonha.


Marcelo - 10/04/2012
Willian, ele não se lembrou também que o Al Gore (ex-vice presidente dos EUA) foi parado pela segurança em um aeroporto americano em 2002...

http://nashvillecitypaper.com/content/city-news/complete-idiots-rule-over-airport-security


moizes baptista leal - 10/04/2012
Caro Emir, os esbirros decendentes da ditadura continuam e continuaram sempre ativos, vendo atitudes independentes e sem submissão, motivos para continuarem a incensar seus ídolos do norte, da américa do norte.

Mas falando em norte, do Brasil, e pegando carona nas preocupações do Carlos que manifestou preocupações com as presenças de ocupações norte americanas no coração da América do Sul, mais explicitamente na Colômbia, gostaria de pedir que você abordasse uma notícia oculta da grande massa de brasileiros, que é a doação gratúita de terras para ocupação, de brasileiros, nos estados extremo norte do Brasil: Rorâima e Tocantins, terras doadas pelo governos para brasileiros em política de ocupação da região. A imprensa não escreve uma linha a respeito. Porquê? Na certa, porquê se o assunto for bem abordado e bem explicado, talvez milhares de brasileiros, presos nos sufocantes centros urbanos das capitais do sul, possam fazer um grande exodo para aquela região, criando um cinturão de ocupação que difucultaria enormemente ambições de invasões territoriais pelos PIRATAS DE SEMPRE DA AMÉRICA QUE PENSA QUE SÓ ELES SÃO AMERICANOS.

UM ABRAÇO E PARABÉNS.


Thaís Tosato - 09/04/2012
Emir,

Está de parabéns pelo artigo! O mundo, assim como o Brasil, já está cansado desse alinhamento aos EUA, que deixam os pobres mais pobres e os ricos ainda mais ricos!

Parabéns à presidenta pela postura que tem adotado nas questões internacionais.


Marcos Antonio - 09/04/2012
Isso serve para mostrar que as coisas mudam e que o Brasil escolheu seu próprio caminho independente e soberano!


Frederico - 09/04/2012
Que Deus ilumine nossa Presidenta e jamais a deixe ser vítima de nossa imprensa nativa e dominante. Hoje o maior mal que assola nosso Brasil é essa mídia que manipula os fatos e esconde a verdade. Certamente, a democracia não é o prato preferido dessa gente. Odeiam povo e opiniões que lhes são adversas.


André Dantas - 09/04/2012
Emir, na época de Lula, nossa política internacional era o que me dava mais orgulho e eu tinha orgulho de diversas coisas.

A imagem que você apresentou se enquadra perfeitamente na política do Governo Lula, mas com Dilma não me parece a mesma coisa.

A política exterior de Dilma me parece mais dada a concessões às grande potências e não foca como deveria na América Latina e no eixo Sul-Sul. Foi pró EUA na questão do Irã, foi vergonhosa no caso da Líbia e dúbia no caso da Síria.

Parece-me que em pouco tempo essa independência que tanto nos orgulhou e tão duramente conquistada está sendo jogada no lixo.

Tomara que eu esteja equivocado na minha leitura do cenário.

Abraços.


Yara - 09/04/2012
Se o modelo de governo dos EUA não esta decadente, com certeza a população americana está, endividava, desempregada, etc... O Japão não conseguiu assumir o papel por tentar ser igual à grandiosa potencia. Acredito que vivemos um tempo não de tentar ser igual ou maior que os EUA e sim melhor, na forma de governar, nas escolhas, na construção de uma Nação forte, estável e igualitária. O Governo Dilma segue nesse caminho, aberto brilhantemente por Lula.


Silvio - 09/04/2012
As esquerdas adoram bater nessa tecla de que os EUA estão decadentes. Nos anos 80 diziam a mesma coisa e que era questão de tempo para o Japão assumir o seu lugar. Agora dizem o mesmo da China. Só que se esqueceram de combinar com os "russos" (no caso os EUA), como dizia o Garrincha, de que eles devem colaborar para que a sua tão falada derrocada aconteça. Torço para que isso não aconteça. A China tem que comer muito arroz com feijão ainda para chegar lá ( o seu PIB é metade dos dos EUA). O Brasil, potência emergente vai crescer 3,5% esse ano, quase a mesma coisa da "potência decadente". Aliás é bem melhor, com certeza ter uma democracia dominando o mundo do que uma tirania. Nesse cenário, acredito que as esquerdas ainda terão décadas pela frente para anunciar a tão propalada decadência dos EUA.


Fabio Passos - 09/04/2012
O desejo de ser capacho ianque ainda é despudoradamente explícito nos veículos das oligarquias midiáticas: globo, fsp, veja e estado



A "elite" rica não suporta ver o Brasil dono de seu destino.



A direita sente um mórbido prazer em se ajoelhar diante dos seus amos.


Dermeval Vianna - 09/04/2012
Professor Emir. Houve um engano da tua parte. Não foi o presidente Harry Truman que teve a mão lambusada pelo sabujo da política mineira, Otávio Mangabeira, e sim a mão do milico General D. Eisenhower, o IKE que comandou as tropas ianques na invasão aliada ao final da Segunda Guerra.Salvo engano da minha parte, o único presidente a visitar o país em caráter oficial foi George - Jonny Walker - Bush. Presumo que foi devido a atração fatal a caipirinha deixado por Lula em sua visita a Casa Branca...


Aldo Fadel - 08/04/2012
que essa queda seja acelerada, assim poderemos ter um mundo multipolar sem os desvaneios de presidentes americanos submissos e incentivadores de guerras monstruosas.


João Galafonte - 08/04/2012
Querido Emir, que seja exatamente este o espírito a inspirar a nossa Presidenta e a sua Comitiva, oxalá! Muito embora, por um lado, ainda sinto grande incômodo em nos projetar para o futuro com os pulsantes passivos sociais e ambientais que temos que resolver e, por outro, paradoxalmente, nos encontramos aparentemente frágeis e vulneráveis em termos de poder dissuasório militar, enquanto as grandes potências imperiais (ainda que decadentes e principalmente por isso) estão de olho em nosso emergente potencial (ambiental, hídrico, mineral, energético e industrial, com especial atenção para as nossas Terras Raras). Qual a posição do Brasil diante da ofensiva bélico militar dos EUA na Amazônica Azul, no Atlântico Sul (vide a IV Frota) e, especialmente, no coração da América do Sul, com as bases e o poderio militar instalado na Colômbia (bem pertinho das Terras Raras e outras fenomenais riquezas amazônicas)? Esses temas serão abordados? E a mais do que simbólica questão de Cuba, do embargo e do veto continuado dos EUA nas Cúpulas das Américas? Será muito valioso se você puder preparar algo para nos informar e, espero, tranquilizar, nessas duas frentes: qual a nossa estratégia diante do passivo socioambiental do modelo herdado e qual a nossa estratégia de defesa e de desenvolvimento do potencial de vantagens comparativas no campo econômico? Queria muito ver você, o Dirceu e o Paulo Henrique Amorim na Bienal do livro aqui em Brasília (imperdível!), mas estarei na vizinha e irmã Bolívia. Gracias e um fraterno abraço de um admirador!


Carlos - 08/04/2012
Gilson leio sua coluna sempre que ela é renovada e creio que temos idéias similares sobre o Brasil e seu papel no futuro do mundo.Contudo ainda penso que todo o crescimento econômico e redistribuição social que o governo petista arquitetou deve ser acompanhado de um maciço investimento nas forças armadas.O Brasil não pode mais estar indefeso frente a um futuro que promete uma disputa canibalesca por RECURSOS NATURAIS,e se os EUA forem emparedados por suas necessidades e se voltarem contra nós? Não podemos ser inocentes ou cegos quanto a história recente dos EUA de invasões em busca de recursos naturais,de outro modo tenho a sensação de que estamos simplesmente construindo um castelo de cartas que a qualquer momento eles podem querer soprar,bem como ainda tenho dúvidas sobre a lealdade das nossas forças armadas ao país.Por isso reitero que além do investimento econômico deve ser feita uma limpa e retirar todas as viúvas do golpe militar de nossas forças armadas,acredito que apenas deste modo estaremos seguros frente ao desafios que o futuro próximo descortina.