19/03/2014 - Copyleft

O Brasil, nestes 50 anos

O golpe cortou um breve período democrático, de menos de duas décadas, um tempo traumático para a direita, derrotada três vezes nas eleições presidenciais.

por Emir Sader em 19/03/2014 às 06:06



Emir Sader

O golpe cortou um relativamente breve período democrático, de menos de duas décadas. Tinha sido um tempo traumático para a direita, derrotada três vezes nas eleições presidenciais e frustrada quando triunfou pela única vez.

Ela tinha tido que conviver com um clima relativamente aberto de disputas, com partidos de esquerda, sindicatos, greves, grandes concentrações populares, começo de sindicalização no campo. Desde a fundação da Escola Superior de Guerra - por dois dos próceres golpistas de 1964, Golbery e Castelo Branco -, que os militares, apoiados na Doutrina de Segurança Nacional, se puseram a tramar golpes, até sua consumação em 1964.

Desde então o país viveu o período ditatorial de 21 anos, uma chamada transição democrática de 5 anos do governo Sarney, o período neoliberal de Collor, Itamar e FHC, de 12 anos e os governos do PT, do Lula e da Dilma, cujos 12 anos completam o cinqüentenário desde o golpe.

A ditadura representou a restauração do férreo domínio do grande capital nacional de internacional, com um modelo exportador e de consumo de luxo, amparado num regime de terror. Depois da derrota, pela repressão, da resistência clandestina, vieram os tempos da recuperação econômica - nos moldes citados - até a crise da dívida e as greves do ABC, que levaram o regime à sua fase terminal. Que ele conseguiu condicionar, bloqueando no Congresso as eleições diretas e impondo a via do Colégio Eleitoral.

Esta via condicionou o caráter da transição, impondo-lhe um teor conservador, que a limitou à restauração dos marcos gerais do Estado de direito. Não houve democratização econômica e social, deixando incólumes o poder dos bancos, dos latifundiários, dos meios de comunicação, das grandes corporações industriais e comerciais, nacionais e estrangeiras.

Esgotou-se assim o impulso democrático gessado na resistência à ditadura e expresso na Assembléia Constituinte e se favoreceram as condições para a abertura do período neoliberal. Collor o introduziu com seus dois motes demagógicos: os carros fabricados aqui seriam "carroças", apontando para abertura escancarada do mercado interno;  e os funcionários públicos seriam "marajas", apontando para o Estado mínimo e a centralidade do mercado. Sua queda deixou truncado esse processo, que foi retomado pelo FHC.

Como Collor não conseguiu fazer todo o trabalho sujo das privatizações e do desmonte do Estado, para que o FHC aparecesse como a "terceira via", estilo Tony Blair e Bill Clinton. FHC teve que vestir o tailleur da Margareth Thatcher e cumprir as tarefas duras do receituário neoliberal. Também porque, com o fracasso do Collor, tivemos no Brasil um neoliberalismo tardio, já contemporâneo da crise mexicana, a primeira crise especificamente neoliberal na América Latina.

Além dessas limitações, FHC teve que se enfrentar com fortes resistências do movimento popular, em que o PT, a CUT, o MST e outros movimentos sociais tiveram o maior protagonismo. FHC teve sucesso no controle imediato da inflação, suficiente para se reeleger. Mas ao preço de jogar a economia do pais numa estagnação profunda e prolongada, que levaria ao fracasso do seu governo - incluindo a retomada da inflação e um gigantesco défice publico endividamento com o FMI - e 'a derrota dos tucanos na eleição presidencial de 2002.

Desde então se começou um período de construção de alternativas de superação do neoliberalismo, que prossegue no pais. Lula recebeu uma herança maldita, a partir da qual organizou uma cautelosa transição nos seus primeiros anos de governo - a era Palocci - até a passagem à era do modelo econômico e social, que explica o enorme apoio popular do seu governo e do da Dilma.

Tags: Economia,  História,  Política




5 Comentários Insira o seu Coméntario !

roberto danunzio - 24/03/2014
Privilegiada é a aristocracia financeira que não precisa ir para as ruas, tomar sol e chuva, porrada de PM para reivindicar o direito constitucional de ter seu salário reajustado todo ano, ou seja, não ter seu salário rebaixado diante da inflação. É preciso organizar uma oposição à esquerda do PT, urgente, e criar uma mídia verdadeiramente independente, que venha clarear a mente de muita gente ainda confiante nessa ideologia pseudo-distributiva do dito Partido dos Trabalhadores. O dia em que a aristocracia financeira perder, estaremos falando de verdade em redistribuição de renda. Enquanto isso, quem dá as regras é o antigo-neo-liberalismo, não se engana o leitor inteligente.


Moacir R. de Pontes - 23/03/2014
Os trabalhadores devem ter direito de continuar reivindicando. O importante é que haja negociação. Sabemos que negociação de verdade implica em cada lado ceder em alguma coisa. Quem não quer abrir mão de nada continua sendo a minoria mais rica. Nem imposto quer pagar.


Marcia Eloy - 21/03/2014
Eu fui funcionária pública durante toda minha vida, mas não concordo com muita coisa que o funcionalismo reivindica. Greve não combina com estabilidade no emprego. Ou se tem uma coisa ou outra. Ter estabilidade e ficar meses de greve prejudicando alunos e o país, não acho lógico. Greve incorre em risco, risco de perder o emprego, não é para funcionário estável. O problema do Brasil de hoje é que cada categoria só olha para si própria, o país que se dane, depois falam em socialismo. Como? Se ninguém abre mão de nada.


Cleusa Pozzetti Siba - 20/03/2014
Roberto, concordo com tudo o que você escreveu! Apesar disso, é claro que votarei pela reeleição da Dilma, já que o que está em jogo é o Brasil. Qualquer um dos outros candidatos como, Aécio ou Campos na Presidência seria uma desgraça total para nosso País. Daí veríamos o que é ficar de fato numa situação de penúria e enfraquecimento de nossa soberania, já que as propostas dos dois olham para o neoliberalismo como se fosse esse o caminho para ampliar o crescimento econômico brasileirol! Quando sabemos que é o oposto disso. É só ver a situação da maioria dos países da Europa. Essa turma não está nem um pouco preocupada com o bem do Brasil, só se importam com seu enorme umbigo, aliado ao seu eterno complexo de vira-latas..

Mas, que os governos do PT precisam olhar, respeitar, ouvir e atender às demandas dos servidores, isso é óbvio!

Prezado Professor Emir, esse é um recado claro para o PT. Ele precisa voltar a olhar para suas bases e a maioria dos servidores públicos sempre foram formadores de opinião favoráveis ao Partido dos Trabalhadores. É hora de retomar a confiança por meio do diálogo. Sem o qual não existe a mínima possibilidade de interação.


roberto danunzio - 19/03/2014
O PT federal trata o funcionalismo público de forma muito mais cruel do que o PSDB de FHC tratou, não porque esses fossem melhores, mas porque eram mais ingênuos. Muito mais duro é lidar com sindicalista traíra que explora as deficiências do movimento sindical por dentro, coopta a CUT e tenta solapar as novas centrais, sindicatos e partidos da esquerda combativa. Essa prática é uma radicalização do modo neoliberal de gerenciar o estado: poupa-se o salário do trabalhador para pagar a dívida pública impagável, ou seja, abarrotar o bolso cheio da aristocracia financeira. Tarso Genro, em 2002, disse que haveria uma mesa de negociação permanente entre governo e funcionalismo. Nunca ocorreu. A Constituição determina uma data base para o funcionalismo. Nunca foi cumprida a lei. Isso tem nome: neoliberalismo.