19/09/2013 - Copyleft

O cerco covarde ao governo da Cristina

por Emir Sader em 19/09/2013 às 06:19



O governo de Nestor Kirchner herdou um país desfeito da ditadura militar e dos governos de Menem e De la Rua. Nunca na sua história o país havia tido um retrocesso tão brutal em pouco tempo como o que teve desde o golpe militar até a posse de Nestor. Eric Hobsbawn catalogava a Rússia depois do fim da URSS, e a Argentina desde a instalação da ditadura militar, como as maiores regressões – de natureza civilizatória – do nosso tempo.

Os governos dos Kirchner operaram sobre essa terra arrasada e tiveram, antes de tudo, o grande mérito de levantar uma economia falida e um país quebrado, econômica e animicamente. Por isso mesmo, setores com ódios históricos ao peronismo tiveram que apoiá-los, reconhecendo o trabalho que está sendo feito.

O resgate da Argentina se faz a partir dos escombros herdados, não podendo retomar a expansão econômica nos moldes em que ela tinha se dado antes da ditadura militar. A principal diferença é consequência da desindustrialização que a abertura acelerada da economia, feita pela ditadura e pelo governo Menem, e, ao mesmo tempo, a promoção da hegemonia do capital financeiro.

Depois da hiperfinflação no governo de Ricardo Alfonsin – que o levou a renunciar antes de concluir seu mandato –, Carlos Menem, apesar de se eleger prometendo um “choque produtivo”, fez exatamente o contrário, colocando em prática uma política radicalmente liberal. Valendo-se do trauma da hiperinflação, seu ministro da economia, Domingo Cavallo, impôs a paridade entre o peso e o dólar. O que significava que o governo renunciava a ter uma política monetária, só emitindo conforme ingressassem dólares na economia.

Esse engessamento trouxe a estabilidade monetária, mas ao preço de um profundo déficit público, adiando o estouro da paridade, enquanto os argentinos gozavam de uma súbita e insustentável valorização da sua moeda. Era uma bomba de tempo, que só foi explodir quando Menem não conseguiu eleger seu sucessor, e o radical Fernando de la Rua manteve a política de paridade, até que esta implodiu.

A Argentina entrou na maior crise econômica social e política da sua história, com retrocessos e instabilidade que levaram a que o país tivesse cinco presidentes em poucos dias, sob o impacto de uma convulsão social contra os bancos, quando a cotação do dólar subiu de 1 para 4 pesos. Os que tinham depósitos viram suas poupanças ficarem reduzidas a ¼ do que acreditavam ter.

Nesse momento se deu a regressão a que fez menção Hobsbawn, com amplos setores da classe média sendo proletarizados, com o desemprego saltando para níveis inéditos. Depois de uma relativa estabilização, foram convocadas eleições, concorrendo de novo Menem – que prometia desta vez dolarizar diretamente a economia argentina – e outros candidatos, entre eles um governador de província pouco conhecido, Nestor Kirchner.

Depois de triunfar no primeiro turno, Menem, diante da derrota iminente para Kirchner no segundo turno, renunciou a concorrer e Kirchner foi eleito. O novo governo colocou em prática uma política antineoliberal, com retomada do crescimento econômico e distribuição de renda, ao mesmo tempo em que o Estado retomava um papel ativo na indução da economia e na garantia dos direitos sociais. Em aliança com o governo Lula – e, logo, com o de Tabaré Vázquez, no Uruguai –, o Mercosul foi reativado.

A economia argentina passou a crescer a ritmo altíssimo durante quase uma década. A novidade foi o papel que a exportação de soja passou a ter, ocupando em parte o lugar das exportações industriais, embora estas retomassem um importante nível de desenvolvimento, especialmente a indústria automobilística.

Com um grau altíssimo de endividamento herdado dos governos Menem e De la Rua, e praticamente sem patrimônio público, privatizado por Menem – até mesmo a YPF, que havia propiciado a autossuficiência energética para a Argentina –, Kirchner impôs uma renegociação do pagamento da dívida argentina. Grande parte dos credores aceitou, ficando um resíduo de uns 8%, que até hoje busca impor sanções à Argentina.

O impulso da recuperação foi continuado pelo governo de Cristina Kirchner, que deu sequência a essas orientações, mesmo sob o impacto de forte campanha da mídia opositora.

Desde a crise internacional iniciada em 2008 e sob os efeitos das limitações de crédito externo impostas pelos organismos financeiros internacionais como resposta à renegociação da dívida, a economia passou a dar mostrar de desequilíbrios. Entre eles, uma inflação de cerca de 25% e a falta de financiamentos externos, ao que o governo respondeu com políticas de controle de câmbio, que introduziu um descompasso entre as cotações oficiais e paralelas do peso.

No plano social e político o governo – depois da reeleição de Cristina –, ela foi perdendo apoios, e as tensões se elevaram dentro mesmo do peronismo, especialmente com a principal central sindical – a CGT –, que passou a organizar mobilizações contra o governo, com demandas salariais. No plano político, a lei de democratização dos meios de comunicação foi duramente combatida pelas empresas da mídia privada, que conseguiram brecar que ela fosse posta em prática.

Foi nesse marco que se intensificou a campanha internacional contra o governo argentino, baseada na reprodução e ampliação das matérias da mídia opositora. No Brasil são os jornais Clarín e La Nación que alimentam a velha mídia na difusão do que se passa na Argentina.

A renacionalização da YPF, tirando-a das mãos da empresa espanhola Repsol, fez com que a mídia internacional – em primeiro lugar a da Espanha – passasse a atacar sistematicamente o governo da Cristina, formando um verdadeiro cerco informativo sobre o que efetivamente acontece no país.

É uma campanha de desinformação, que desconhece todos os avanços na recuperação da economia e no plano das políticas sociais, destacando os escândalos que a mídia opositora levanta semanalmente.

A Argentina se encontra agora em um dilema, que terá nas eleições parlamentares de 27 de outubro seu próximo capítulo, com a nova composição do Parlamento. Será muito difícil que o governo consiga os 2/3, necessário para a reforma da Constituição. Assim, Cristina não poderá se candidatar de novo. Se abrem dois anos de incertezas políticas na sucessão presidencial argentina.

Tags: Internacional




8 Comentários Insira o seu Coméntario !

Giovanni - 20/09/2013
Caudilha, populista de araque, "renegociação de dívida" significa nada de crédito internacional, caloteiros e manipuladores de índices inflacionários e do pib, ou seja, não existe cerco ao governo, é incompetência mesmo, caro Sr.Emir, esqueceu de mencionar o protecionismo que los hermanos aplicam as exportações brasileiras...


Aderaldo Ferreira - 20/09/2013
Excelente texto! Importante de se destacar esta visão antagonica do que normalmente recebemos a título de informação de uma mídia de viés divergente aos governos populares. Podemos considerá-lo em um debate democrático em que o contraditório é permitido.


Giovanni - 20/09/2013
Caudilha, populista de araque, "renegociação de dívida" significa nada de crédito internacional, caloteiros e manipuladores de índices inflacionários e do pib, ou seja, não existe cerco ao governo, é incompetência mesmo, caro Sr.Emir, esqueceu de mencionar o protecionismo que los hermanos aplicam as exportações brasileiras...


Aderaldo Ferreira - 20/09/2013
Excelente texto! Importante de se destacar esta visão antagonica do que normalmente recebemos a título de informação de uma mídia de viés divergente aos governos populares. Podemos considerá-lo em um debate democrático em que o contraditório é permitido.


orlando f filho - 19/09/2013
Os países deste lado da América deveriam exprimir solidariedade e talvez só a solidariedade do Brasil já seria suficiente para que a europa e eua puxassem o freio. As reservas de petróleo americanas são intocável e nenhum governo permitiu que aquelas reservas fossem tocadas, não importando se isto torne o mercado de óleo mais caro o barril. Cristina é corajosa. Dilma também. Agora na internet estão fazendo uma campanha para difamar Lula, colocando em dúvida sua honestidade e caráter. É o mesmo jogo sujo da elite e classe média que não suportam que alguém pobre consiga alcançar sucesso e respeito. Quando Obama disse que Lula "é o cara" referiu-se ao preconceito que ele enfrentou por ser nordestino, operário e pobre, não necessariamente nesta ordem. Imagino Obama recebendo risos de escárnio ao dizer que seria presidente da república: "you, a fucking niggger!!!!???"


JL Vivas - 19/09/2013
O papel que a exportação de soja foi muito pequeno, calcula-se que somente 12% do crescimento da econonia argentina nesses anos deveu-se às exportações, e portanto menos ainda à exportação de soja: http://www.theguardian.com/commentisfree/cifamerica/2012/may/04/argentina-magic-soybean-export-boom


orlando f filho - 19/09/2013
Os países deste lado da América deveriam exprimir solidariedade e talvez só a solidariedade do Brasil já seria suficiente para que a europa e eua puxassem o freio. As reservas de petróleo americanas são intocável e nenhum governo permitiu que aquelas reservas fossem tocadas, não importando se isto torne o mercado de óleo mais caro o barril. Cristina é corajosa. Dilma também. Agora na internet estão fazendo uma campanha para difamar Lula, colocando em dúvida sua honestidade e caráter. É o mesmo jogo sujo da elite e classe média que não suportam que alguém pobre consiga alcançar sucesso e respeito. Quando Obama disse que Lula "é o cara" referiu-se ao preconceito que ele enfrentou por ser nordestino, operário e pobre, não necessariamente nesta ordem. Imagino Obama recebendo risos de escárnio ao dizer que seria presidente da república: "you, a fucking niggger!!!!???"


JL Vivas - 19/09/2013
O papel que a exportação de soja foi muito pequeno, calcula-se que somente 12% do crescimento da econonia argentina nesses anos deveu-se às exportações, e portanto menos ainda à exportação de soja: http://www.theguardian.com/commentisfree/cifamerica/2012/may/04/argentina-magic-soybean-export-boom