29/12/2012 - Copyleft

O enigma político argentino

por Emir Sader em 29/12/2012 às 15:54



Emir Sader

Se a situação argentina tem suas complexidades, ela se torna completamente incompreensível à luz da cobertura que a mídia brasileira – que se pauta pela mídia de direita da Argentina – faz. Não conseguiram entender por que Nestor Kirchner e não Carlos Menem se elegeu presidente, por que Cristina se elegeu como sucessora dele e se reelegeu em seguida. É tal a visão catastrófica que se transmite da Argentina, que não conseguem dar conta de por que Cristina se reelegeu no primeiro turno.

A Argentina sofreu uma das modalidades mais radicais de neoliberalismo na América Latina. Depois de duas crises de hiperinflação, Menem impôs uma solução radical e artificial ao problema: por um decreto se estabelecia a paridade entre o peso e o dólar. A Argentina renunciava a ter política monetária, ficando a cotação da sua moeda atrelada à do dólar, definida pelo Federal Reserve dos EUA. Não se emitiria peso se não houvesse entrada de dólares. Subitamente se elevou o poder aquisitivo da moeda e dos argentinos, de maneira totalmente artificial, numa bomba de tempo que não poderia demorar para explodir.

Os candidatos temiam prometer que terminariam com a paridade, porque todo argentino sabia que teria os seus pesos enormemente desvalorizados, porque os depositava considerando que teriam o correspondente em dólares. Se podia comprar carros em prazos longos, sem juros, com a fantasia da paridade, mas a dívida era assinada em dólares. Ainda mais que todos foram se endividando, apoiados na paridade e na confiança de que esse esquema não seria alterado.

Menem, como todos os presidentes neoliberais latino-americanos, saiu derrotado e deixou a bomba de tempo explodir nas mãos de Fernando de la Rua, do Partido Radical. A paridade terminou, houve uma espécie de rebelião popular cobrando dos bancos seus depósitos, que tinham passado da paridade com o dólar, para 4 a 1. De la Rua saiu rapidamente de helicóptero da Casa Rosada, depois de reprimir manifestações em Buenos Aires, com 27 mortos no centro da cidade.

Depois da instabilidade institucional, com vários pessoas sucedendo-se na presidência em poucos dias, nas eleições Menem ganhou no primeiro turno, prometendo que dolarizaria totalmente a economia argentina (o que levaria ao desastre a Argentina e inviabilizaria qualquer processo de integração da região). Diante da evidente derrota para Nestor Kirchner no segundo turno – pelos apoios que este recebeu dos outros candidatos -, Menem se retirou e Kirchner foi eleito.

Kirchner conseguiu recuperar a Argentina do maior desastre econômico e social da sua história, fazendo com que a economia crescesse a ritmos anuais de entre 6 e 9% ao ano, durante cerca de 8 anos. Mas arrastou problemas da herança do Menem.

Entre estas, uma dívida descomunal e a privatização de todo o patrimônio publico – entre ele, o da YPF, que tinha obtido a auto suficiência em petróleo para a Argentina. O governo Kirchner impôs a renegociação dos papeis da dívida, que foi aceito por grande parte dos seu proprietários. Mas os restantes 8% bloqueiam até hoje o acesso da Argentina a créditos internacionais.

Outra herança foi o déficit energético, que fez com que o governo passasse a subsidiar o consumo de energia e a importá-la, que se tornou um peso brutal nos gastos públicos.

Mas a Argentina retomou ritmos altos de crescimento – mesmo se agora muito dependente da exportação de soja – e os Kirchner consolidaram os apoios populares a seus governos, mesmo diante de ofensivas da direita – como a dos proprietários de soja, quando o governo decretou aumento nos impostos sobre exportação.

A conjuntura atual é a condensação de uma serie de questões pendentes. Por exemplo: a manifestação de 8 de novembro passado reuniu basicamente setores da classe media da cidade de Buenos Aires, com os lemas contrários à reeleição da Cristina e contra a aplicação da Lei de Meios. No ano que vem haverá eleições parciais para o Congresso. Se Cristina obtiver 2/3 dos votos – objetivo difícil – poderá submeter a revogação da Constituição, para se candidatar a um terceiro mandato.

Caso não o consiga, se abre um cenário muito complexo, porque não há um candidato à sua sucessão indiscutível entre as forças que a apoiam e pode se abrir uma disputa que dividirá ainda mais o peronismo. Um candidato conservador dentro do peronismo – Scioli, governador da província de Buenos Aires – se lançou e tem o apoio de setores opositores a Cristina dentro do peronismo.

A Lei de Meios tinha no dia 7 de dezembro uma data chave, porque terminava o prazo do recurso que o grupo Clarin havia conseguido na Justiça para adiar a aplicação da lei de democratização, pela qual o grupo terá que se desfazer da longa lista de canais a cabo que tem – 254 – para ficar com 24, que é o que permite o caráter antimonopólico da nova lei.

Seguiu-se uma greve e outras manifestações protagonizada pelo setor da CGT que se opõe ao governo de Cristina – dirigido por Moyano pelo setor da CTA de ultraesquerda, além da Federação Agrária, que congrega os produtores de soja. Com reivindicações basicamente salariais, mas com um tom politico fortemente opositor, apontando para um bloco de forças que pode vir a se coesionar para tentar bloquear os 2/3 que Cristina busca no Parlamento e, depois lançar um candidato – talvez o próprio Scioli – em 2014.

A economia argentina perde fôlego, vulnerabilizada pelas dificuldades de financiamento externo, pela diminuição do ritmo de crescimento do Brasil – seu principal mercado –pela inflação real, pelos déficits orçamentários – em boa parte advindos dos subsídios à energia. O clima de bonança que cercou a reeleição de Cristina – que além disso conseguiu promover um processo de mobilização de setores jovens do peronismo, a partir da morte de Nestor e das comemorações do bicentenário do país – passou.

Uma espécie de inferno astral abateu-se sobre o governo, somando-se às mobilizações da oposição, a apropriação de um navio argentino em Gana, por um mandato de uma instância judicial norte-americana, pelo não pagamento de parte da dívida argentina, além de uma ordem de uma outra instância judicial dos EUA, que buscava obrigar o governo argentino a primeiro pagar esse monto pendente, antes de seguir pagando as cotas aos que aceitaram renegociar a divida.

Estas duas ultimas questões foram superadas - pelo menos temporariamente. O governo intensificou a ofensiva contra o Clarin, tudo indica que possa colocar em pratica a desmonopolização do grupo, mesmo se os prazos se alongam. Ao mesmo tempo, recuperou para o Estado o espaço que ocupava a Sociedade Rural Argentina, depois de ter nacionalizado a YPF, privatizada pelo governo Menem.

Os embates entre o governo e a oposição se seguirão em várias frente: a externa, aquela aglutinada por forças sindicais e a do Clarin e os setores de direita que apoiam a esse grupo. Se a soma das frentes causa problemas do governo, sua heterogeneidade faz com que tenham dificuldade de traduzir em força politica unificada por uma candidatura presidencial competitiva.

Caso Cristina não possa concorrer e o governador da província de Buenos Aires unifique as forças hoje dentro e fora o governo, especialmente do campo peronista, a sucessão argentina de 2014 será uma dura prova para a continuidade do governos dos Kirchner. Uma prova para a capacidade de Cristina de construir um sucessor que possa dar continuidade aos governos que resgataram a Argentina do caos herdado já há quase 10 anos. O primeiro capítulo dessa disputa dominará o cenário politico de 2013: as eleições parlamentares e a possibilidade do governo obter 2/3, reformar a Constituição e Cristina se candidatar a um terceiro mandato. Essa disputa define o cenário da sucessão presidencial de 2014.

Tags: Internacional,  Política




13 Comentários Insira o seu Coméntario !

Marcia Eloy - 31/12/2012
Realmente é confusa a situação da Argentina, ainda mais com a influência externa sobre a oposição. mas gostaria de saber sobre a morte de João Vicente, filho do Brisola e pai do atual Ministro do Trabalho. AS mídia simplesmente ignorou o fato.


pedrinho escher - 31/12/2012
Emir!... Seus artigos são geniais. Mais gente precisa multiplicar e espalhar seus artigos. É hora de os brasileiros e latino-americanos buscarem mais solidariedade e enfrentar os perigosos inimigos da democracia e da justiça social. Viva Cristina, Dilma, Hugo, Evo, Rafael, Mugica...!!!.


Raimundo W. S. Melo - 31/12/2012
A presidenta Cristina tem honrado, sobremaneira, à memória politica de Néstor K, ao dar sequência à profilaxia de impedimento ao retorno das políticas neoliberais, permanentemente encasteladas nos meios de comunicações do país, de onde tentam "encantar", à classe média com seu canto de sereia.

A batalha que trava para implantação da Lei dos Meio de Comunicação ( já aprovada) é apenas uma batalha a mais que trava, sem medos, a corajosa presidenta.

A verdade prevalecerá, os meios de comunicação deixarão de ser conglomerados políticos (alguns com mais de duzentas unidades à serviço da desinformação) e continuará Cristina com o apoio, que sempre contou, do povo argentino.


Messias Franca de Macedo - 30/12/2012


Ínclito mestre Emir Sader, vamos torcer para o governo da presidente Cristina Kirchner superá as [complexas] adversidades...



... No entanto, com todo o respeito, neste contexto a Argentina não é aqui! Exemplo mais recente:

Brasil prepara plano para ampliar mão de obra estrangeira



O governo quer fazer do Brasil um país mais aberto a imigrantes estrangeiros do que nações como Canadá e Austrália, famosas por buscar ativamente esse tipo de mão de obra.

(...)

COMPETITIVIDADE

Segundo *Paes de Barros, por causa da complexidade do processo, muitas empresas no país nem tentam contratar estrangeiros, apesar de não encontrarem um funcionário de qualificação semelhante no Brasil. "A dificuldade de trazer imigrantes qualificados afeta a competitividade do Brasil", diz.

(...)



*Ricardo Paes de Barros, secretário de Ações Estratégicas da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República



FONTE: http://www1.folha.uol.com.br/mercado/1207957-brasil-prepara-plano-para-ampliar-mao-de-obra-estrangeira.shtml



Andá com fé eu vou

Que a fé não costuma faiá...(4x)

(...)

Mesmo a quem não tem fé

A fé costuma acompanhar

Oh! Oh!

Pelo sim, pelo não...

(...)

Olêlê, vamos lá!



Andá com fé eu vou

Que a fé não costuma faiá...(4x)



Andar com Fé

Gilberto G(ênio)il





EM TEMPO: o Brasil vai "bombar" em 2013! Podem apostar!...



BRASIL (QUASE-)NAÇÃO

Bahia, Feira de Santana

Messias Franca de Macedo


mihaelo - 30/12/2012
As eleições na Argentina são em 2015. Cristina foi eleita em 2007 e reeleita em 2011. O mandato lá é de 4 anos.


luiz pinheiro - 30/12/2012
Uma boa análise, Emir, mas por que esta dificuldade toda em definir um sucessor? Lula viveu graves crises politicas, teve que enfrentar o mensalao, governou com uma aliança politica totalmente instável, teve que praticar uma politica macoeconomica muito dura, e mesmo assim reelegeu-se e depois elegeu como sucessora sua principal companheira na gestão do governo.

Eu sei que o peronismo é um capítulo à parte, cheio de contradições, até já li livros a respeito, sei também que o sistema eleitoral argentiino é muito confuso. Mas, mesmo assim, esse esforço todo pelo terceiro mandato - vai ser dificil conseguir os dois terços - mostra que a Cristina tem essa fraqueza politica, uma dificuldade muito grande para firmar um sucessor.


Paulo Henrique Tavares - 30/12/2012
Gostei da análise. Curta e grossa, porém eficiente.

Até a questão do terceiro mandato não foi colocado como uma questão moral e sim de decisão política.


william mendes - 29/12/2012
Olá professor Emir,



Muito obrigado pela aula e por aclarar um pouco a nossa confusão em entender o porquê de até os sindicatos atuarem contra os Kirchner e a favor da direita.



Abraços e bom 2013 a você e aos progressistas do mundo. William Mendes


Adelina de Alorna - 29/12/2012
Sinto muito pela situação da Argentina,e com Chaves doente, mais se complica!


Mauro Assis - 14/01/2013
Mas e a alternância no poder? Não é o maior valor da democracia? Esse negócio de alterar constituição para um terceiro mandado prá mim é casuísmo. Por acaso a inteligência é monopólio da esquerda (se é que dá para chamar o confuso governo dos Kirchner como esquerda)?

Se vier outro grupo a governar, jogo jogado.


Cibele - 07/01/2013
Excelente artigo-análise da conjuntura argentina. Realmente vai ficar complicada a situação para a Argentina e de quebra para toda a América Latina, se a Presidente Kirchner não conseguir fazer seu sucessor ou se reeleger...


Joãozinho Arapiraca.AL - 06/01/2013
Parabéns Emir, seus relatos são muitos bons, moro em uma comunidade por nome de batingas, na cidade de Arapiraca AL, os comentários da mídia aqui com relação ao atual momento político vivido em países da America do sul, são os piores possíveis, imagine você ficar ouvindo quase que todos os dias figuras que conviveram e compartilharam durante décadas com as famílias conservadoras desse nosso estado, fazendo comentários detonando Hugo, Cristina,Correia, Evo Morales e outros, evitam falar mau do Lula e da Dilma, até porque não é fácil hoje em dia mentir descaradamente para a população, aí fazem o jogo da conveniência.


Hugo Fé. - 02/01/2013
Profesor Emir, muy buen artículo. Desde Argentina, quisiera agregar una cosa: El gobierno de Cristina ha resistido en 2012 dos levantamientos policiales, dos paros de camioneros incluyendo el bloqueo a plantas refinadoras, dos marchas de la ultra derecha bastante concurrida, dos paros nacionales de escasa repercusión (excepto Buenos Aires, a causa del bloqueo de las rutas de entrada a la ciudad), saqueos organizados desde las viejas estructuras sindicales, un poder judicial adicto a los intereses de las corporaciones económicas y militares, además del ataque constante de los 280 medios audiovisuales que pertenecen al Grupo Clarin, llamando al magnicidio y al derrocamiento del gobierno constitucional.

Y la presidenta Cristina Kirchner sigue ahí, gobernando, gestionando, incluyendo, trabajando. En 2012 se notó que hubo menos dinero circulante en la calle, pero el gobierno sigue.

No se siente la incertidumbre con que sueñan e insisten las corporaciones económicas, judiciales y sindicales. El gobierno nacional y popular sigue.

Un abrazo a todas y todos los hermanos brasileiros! Qué vivan Getulio, Jango, Lula y Dilma!!!