05/08/2013 - Copyleft

O fator Lula

por Emir Sader em 05/08/2013 às 17:44



Lula é amado ou odiado, suscita esperanças ou temores. Ele representa o momento mais importante da história recente do Brasil, personifica o governo de maior apoio popular da história do país. E, por isso mesmo, provoca sentimentos de ódio e pânico na direita brasileira.

O fenômeno Lula já foi objeto de varias análises – jornalísticas, sociológicas, políticas. Algumas – principalmente jornalísticas, com pretensões políticas – remetem à crise de 2005. São apocalípticas, com frases – feitas para a orelha e a contracapa dos livros – do tipo “Terminou o governo Lula”. Ficam pros sebos ou pra reciclagem de papel, sem pena nem glória.

Outras, mais recentes, tiveram que incorporar o sucesso do governo Lula. Alguns livros, feitos para desqualificar o Lula, modificaram o título para tentar pegar carona no sucesso do governo, ficando sem público, nem vendas.

Análises sociológicas mais recentes tentam abarcar o fenômeno do “lulismo”, com visões descritivas, que apontam para aspectos reais da realidade, mas sem explicações para sua natureza e, sobretudo, deixando escapar a dimensão política da liderança do Lula. Animam debates, figuram em bibliografias, mas não dão conta da globalidade do fenômeno.

Porque, para captar o Lula presidente, é preciso, antes de tudo, situar o momento histórico em que ele assume e no qual ele monta a arquitetura que torna possível o seu governo. Tudo parecia apontar para um fracasso. Propostas históricas do PT propunham transformações estruturais no país, sem levar em conta as modificações regressivas havidas no mundo nas décadas anteriores e que se refletiam na América Latina através da proliferação de governos neoliberais. Que, por sua vez, haviam tido forte impacto nas nossas sociedades e Estados – inclusive no Brasil.

A criatividade do Lula esteve, antes de tudo, em incorporar o consenso da estabilidade monetária, sem centrar sua política nesse aspecto. Lula tirou as consequências do fracasso do governo FHC, deslocando a centralidade para as políticas sociais. A prioridade do social foi o fio condutor entre as propostas históricas do PT e o governo Lula.

Lula teve que buscar as condições de imposição dessa prioridade sem ter maioria parlamentar, em um contexto externo – regional e mundial – dominado pelo neoliberalismo e em uma sociedade e um Estado impactados pelos efeitos de uma década neoliberal.

O governo Lula se caracterizou pelos passos na superação do neoliberalismo, no marco do contexto de hegemonia neoliberal e de predominância das forças conservadoras no âmbito partidário. A obra política maior do Lula foi a arquitetura que permitiu um governo que privilegiou as políticas sociais de caráter redistributivo, as alianças Sul-Sul e de integração regional e o resgate do papel do Estado como indutor do crescimento econômico e garantia da universalização dos direitos sociais.

Daí seu caráter ambíguo e contraditório, “conciliador”. Apoiando-se na correlação de forças que herdou, Lula construiu as condições de um governo que aponta para a superação do neoliberalismo. De governos que promoveram processos de exclusão social, de subordinação da soberania nacional, de subordinação radical do Estado ao mercado, Lula soube construir um governo que foi capaz de promover a centralidade das políticas de inclusão social, uma política externa soberana e o resgate do Estado do ponto de vista econômico e social.

Não por acaso, então, o fator Lula é a variável determinante da política brasileira e dos destinos futuros do país. De forma natural, Dilma disse que o Lula nunca saiu. Porque as orientações fundamentais do seu governo permanecem. E a oposição chega a argumentar contra a proposta de um plebiscito, pelo medo do espaço midiático que o Lula assumiria.

O discurso do Lula no Foro de São Paulo demonstra como ele se recicla, incorpora os novos dados da realidade, está antenado com os novos movimentos da realidade, sem perder de vista a perspectiva política estratégica que orienta sua ação. Aproximando-se de completar 40 anos de carreira política, o Lula se afirma como o grande dirigente estratégico, que revela os avanços, assim como os nós que o projeto iniciado por seu governo ainda não desatou.

Tags: Política




22 Comentários Insira o seu Coméntario !

nilccemar - 14/08/2013
José Carlos de Almeida ao que eu saiba, clientelismo é uma prática tradicional da cultura política nacional, local, de cada região, principalmente rural, a partir das relações entre populações pobres/carentes e "coronéis", ou manda-chuvas locais que as designam frequentemente como "zé povinho". São relações PERSONALIZADAS, nada tendo a ver com favorecimentos propiciados por políticas institucionais, de Estado, onde as relações entre beneficiante e beneficiado são IMPESSOAIS. Sendo impessoais, as políticas de favorecimento do Estado não implicam em retribuição alguma, como ocorre nas práticas clientelistas. Ou seja, quem recebe o benefício Bolsa Família, por exemplo, não vai deixar de recebê-lo se não votar nos políticos que conceberam o projeto. Por isso é que não vejo onde há clientelismo nas políticas empreendidas, não porque não sei o que é clientelismo.


Jose Carlos de Almeida - 14/08/2013
Nilccemar, em nenhum momento comparei politicas assistenciais do Estado - especificamente o BF - a clientelismo.

Antes da ascencao do PT ao poder, a critica que este fazia ao regime politido do " e' dando que se recebe " onde interesses pessoais DOS POLITICOS tem precedencia sobre a representacao popular. As firulas orcamentarias, emendas de encomenda, verdadeiro balcao de negocios do Congresso, que suscitou a expressao "300 picaretas", lembra? Aquela era a expressao do clientelismo. E ainda e'. Nada mudou. Tudo se faz na base da troca. Um ministerio aqui, um carguinho ali, um votinho acola'.

Contra esse estado de coisas o PT se insurgia e criticava. Mas, optou por adotar as mesmas praticas.

Espero que tenha ficado claro, agora.


José Carlos de Almeida - 13/08/2013
Nilccemar, cada um é livre para ver e interpretar os fatos como lhe convém. Eu não tenho interesse pessoal nenhum no Mensalão, apenas que tenha efeito didático para os políticos. Ao invés de lhe apresentar o que seja clientelismo sugiro que leia, pesquise (Google, p. ex). Depois, aplique o resultado da pesquisa em nossa história política recente. Não haverá escassez de exemplos.


nilccemar - 11/08/2013
José Carlos de Almeida para quem olha objetivamente os fatos, o tão propalado e oportuno ( para a oposição ) mensalão não passou mesmo de um uso de caixa 2 na campanha presidencial. Muito barulho por quase nada. Quem acompanhou o julgamento da AP 470 pode facilmente constatar isso. Não é fanatismo algum, são fatos. Engana-se quem imagina que não se pode opinar sem ser um expert na área jurídica. Não. Basta ser portador de lógica, bom senso e capacidade de discernimento. Acompanhe agora o julgamento dos embargos, mas não pelos meios de comunicação e sim pela TV Justiça, nada como ver-se com os próprios olhos. Quanto às alianças espúrias, devem ter sido feitas após muita experimentação da cultura política nacional, que levou à conclusão de que eram imprescindíveis; nenhum governante governa só com seu partido, ou com seu partido e seu fiel aliado, no caso o PCdoB. Prefiro, e acho que muitos preferem como eu, que Lula tenha dado esse passo, que, embora decepcionante, era o único caminho de chegada ao poder, e valeu. Ele teve coragem de fazer o que tinha de ser feito, desagradando inclusive a nós petistas históricos. É mais inteligente que nós. Agora, clientelismo, não sei ao que se refere. E lembremos sempre que não se faz a História sobrepondo às condições existentes nossa própria formulação teórica, ao contrário faz-se a História a partir das condições dadas, e as transformações culturais levam tempo, não são instantâneas como a temporalidade do mundo virtual, "just in time".



Alexandre Silva - 11/08/2013
Focadas apenas em desgastar o governo Dilma, direita e ultraesquerda acabaram atirando no próprio pé, pois incitaram a juventude que não se deixou conduzir, e foi só a Dilma falar em plebiscito que todos - mídia e direita, principalmente - ficaram mansinhos.

Finalmente a telona começa a sucumbir às novas telinhas.

Viva a modernidade minha gente!!! (...e Lula ainda é O Cara.)


José Carlos de Almeida - 10/08/2013
Emir e colegas, de fato o governo Lula não acabou em 2005. Foi em frente e fez até mesmo a sucessora. Mas, para a Història, o que fica é o Mensalão, as alianças às quais torcia o nariz, os expurgos do PT, as práticas clientelistas.

Em síntese: no contexto "ganhar eleições", ótimo, 100%. Mas a metamorfose que se operou não se pode negar. O "fator" a que voce se refere, nada mais é que um controle férreo sobre a máquina partidária, como todas, viciada no clientelismo regado a verbas públicas.

Tudo aquilo que o "fator" Lula denunciou por 25 anos


Jacinto Pereira Sousa Júnior - 10/08/2013
Caro Emir,

Analisar o mito Lula é reconhecer sua faceta dinâmica e sua extraordinária capacidade pragmática. Pois, o Brasil já se constitui num Estado-nação graças a implantação de um projeto macroeconomico levando em consideração a justiça e a equidade social caracterizada pela redistribuição renda; corrigindo, dessa forma, as históricas e graves distorções promovidas pelas elites conservadoras.

Lula é isso: capacidade de analise conjuntural, ministra com habilidade as crises endemicas do neoliberalismo, permanece isento das acusações das elites privilegiadas que, na última década sentiram a perda de benefícios do capital especulativo e, por outro lado, os menos favorecidos tiveram um ganho real consideráveis. Por tudo isso, a mídia conservadora e a extrema direita destilam um profundo ódio ao fenômeno Lula, o filho do Brasil!


nina - 09/08/2013
A direita sem rumo fechou o país em copas. Espertamente. Só o que se comenta é política local, completamente abstraída do contexto histórico. Só assim foi que puderam ter sucesso as manifestações de protesto querendo mais. Se soubessem o que se está tendo lá fora agradeceriam este governo. Há crise também dentre os que se dizem "esquerda" em função da mesma visão parcial. O PSOL, para mim, já não pode sequer assim se chamar: é um aliado constante dos tucanos, ou, de quem for contra o PT, e não tem projeto político próprio alternativo. Espero que, pelo menos, o PSTU mantenha uma visão mais ampla já que é um partido internacional. Na realidade, as esquerdas teriam que estar alinhadas com o PT, é pelo fato de não o estarem que a base do governo tem que se dar por afinidades pontuais, superficiais. Tanto a direita como a esquerda estão em crise. Salva-se o PT por Lula, que, inexplicavelmente consegue ter uma visão política bem além da tradição do debate político de esquerda que, em não estar conseguindo entender nada trabalha para as forças políticas mais reacionárias da vida política nacional. A visão de certas esquerdas vai até aonde ía a de seus gurus, e, nenhum teórico socialista/comunista previu a era atual, a não ser o próprio Karl Marx, que previu sim esse confronto dentro do capitalismo. Mas, certamente eles pensam que Marx está superado.


Cecilia - 08/08/2013
Toda manhã corro em agonia atraz de Saul e Emir.Eles sedam,explicam com uma lógica cristalina.


Luiz Eduardo - 08/08/2013
Brilhante texto, professor Emir.

Parabéns!

Lula é o maior político e estadista da história do Brasil.





Mauro. - 08/08/2013
A mídia não precisaria nem ser de esquerda, bastaria que fosse isenta, para que o Lula tivesse o reconhecimento que merece.


Nelson Brito - 08/08/2013
Excelente análise, parabéns! Todos da ultra esquerda precisam ler.

Precisam aprender com Lula o que é política. Quem sabe, não superam a doença infantil que padecem a tanto tempo.


Joatan carvalho - 08/08/2013
Tenho certeza que é o maior e mais completo político do Brasil.Às vezes me pergunto,será que para ter este título de maior Estadista de todos os tempos,Lula precisaria ter tido mais oportunidade intelectual ou a vinda dele da pobreza lhe deu bagagem para dinamizar e mudar a política burguesa,monocrática,coronelista,elitista e ditatorial do Brasil.


Cibele - 07/08/2013
Sou admiradora de suas análises de conjuntura. Excelente artigo!


Murilo Almeida - 07/08/2013
Perfeita a análise, professor. O que a elite queria mesmo era manter o velho modelo de concentração de renda e exclusão social, fazendo com que as classes menos favorecidas cada vez menos tivessem acesso ao bolo do crescimento econômico do Brasil. Com Lula e Dilma o país pela primeira vez fez a opção política de crescer com distribuição de renda. Isso a mídia conservadora, os partidos de direita e as elites não aceitam. Mas estão tendo que engolir....



emirado - 07/08/2013
O que mais admiro no grande Lula é sua capacidade de se superar. Depois de deixar a presidência, encontrou seu lugar como representante das grandes empresas multinacionais brasileiras de olho nas terras férteis e nos minerais africanos. É o ápice da diplomacia sul-sul, exportando o capitalismo à la brasileira para regiões carentes de desenvolvimento. Parabéns, Lula! É de fato uma marca de independência e soberania brasileira nas relações internacionais.


keyloser - 07/08/2013
Sr. Emirado as "multinacionais" brasileiras não precisam do Lula para conquistar os mercados africanos. Outro dia li um absurdo sobre Lula, que estaria milionário pois um de seus filhos tem uma fazenda de 100 milhões; A direita queria um Lula radical e não esquecemos que partidos que se dizem de "esquerda" como PSOL ao fazerem oposição incondicional a Lula, estão ajudando a direita a sabotar os do PT. Parecem que esse pessoal nunca leu Lenin, Marx não querem entender(ou não conseguem por estreiteza mental) e aí vem com ironias idiotas tais como a do emirado, tentando colocar em Lula o badge(rótulo) de conservador, direitista e por aí. Gostaria sinceramente que esse pessoal da dita "ultra esquerda" ganhasse as eleições presidenciais só prá eu assistir de camarote as imensas burradas(eu preferia outra palavra, porém, impublicável aqui) que fariam no governo. É muito mais fácil ser pedra do que vidraça.


ricardo silveira - 07/08/2013
Não tem muita explicação não reconhecer a grandeza política de Lula, a não ser por preconceito, cegueira, inveja, incapacidade mínima para perceber o óbvio. Além das qualidades inerentes às grandes lideranças, Lula passa a ideia de que Política se faz com soma, pois a divisão enfraquece o poder.


Bianca - 07/08/2013
Emir, você fez uma síntese perfeita do que penso sobre o fenômeno Lula! Muito bom!


carlos ascencao de andrade - 06/08/2013
Professor Emir, uma ótima análise, aliás, bem de sua característica. A direita brasileira não gosta de quem lhe puxa a orelha, e é isso que o Lula tem feito sempre. Daí o ódio a ele. Parabéns, uma vez mais, por essa aula.


ritadecassiamotasantos - 06/08/2013
Considero LULA um estadista por isso o ódio das elites dominantes.


Pedro - 06/08/2013
Lula é a história viva.