27/03/2012 - Copyleft

O golpe no Brasil e a doutrina de segurança nacional

por Emir Sader em 27/03/2012 às 14:02



Emir Sader

O golpe e a ditadura militar no Brasil foram aplicação direta da Doutrina de Segurança Nacional. Esta foi a doutrina elaborada pelos EUA e que comandou suas ações durante a guerra fria.

Seu conteúdo totalitário vem das concepções positivistas, que buscam transferir modelos da biologia para as sociedades contemporâneas. O modelo de funcionamento de um corpo humano saudável daria o critério para o funcionamento harmônico das sociedades, com seu critério finalista, em que cada parte contribui para o bom funcionamento do todo. Como consequência, qualquer segmento que não esteja nessa lógica, estaria sabotando o funcionamento harmônico da totalidade e deveria ser extirpado.

Essa lógica deu numa proposta totalitária, que não comporta o conflito, a divergência, a diversidade. A Doutrina de Segurança Nacional recolheu essa concepção e lhe deu um caráter militar, em que as FFAA de cada país – e as dos EUA no plano internacional – seriam os responsáveis pelo funcionamento harmônico das sociedades.

Inserida na lógica da guerra fria, significava que qualquer divergência faria o jogo dos que queriam destruir o corpo social, sua ação deveria ser atribuída a uma inserção de vírus de fora para dentro do organismo social, deverá ser combatida com toda a força e ser extirpada.

A harmonia interna estava identificada com economias de mercado e com os valores da ideologia liberal. As ameaças, aos perigos do comunismo internacional, a que deveriam ser associadas todas as ações, organizações e pessoas que objetivamente estivessem obstaculizando o livre funcionamento do mercado e das instituições liberais.

Na sua aplicação concreta no Brasil, os opositores eram catalogados como agentes da subversão internacional, patrocinada pela URSS, pela China e por Cuba. Os editoriais do Estadão usavam a expressão de governo “petebo-castro-comunista” para catalogar o governo do Jango. Os outros órgãos da mídia seguiam a mesma linha, consideravam que a democracia estava em risco e pregavam uma ação militar para resgatar a liberdade. As marchas que todos apoiavam se auto intitulavam “Marchas da família com Deus pela propriedade” e organizavam rezas domésticas com o lema “Família que reza unida, permanece unida”. Estariam em perigo os valores mais tradicionais do país: a família (as crianças poderiam ser mandadas para a Rússia e Cuba), a religião (que seria perseguida e proibidas as escolas religiosas) e a propriedade (que seria abolida e expropriada pelo Estado).

A concepção funcionalista desembocou no lema da ditadura: Brasil, ame-o ou deixe-o”, com plásticos em carros dos adeptos do Brasil apropriado pelos militares. O Estado foi militarizado e transformado no quartel general das FFAA, desde onde controlavam o país através do SNI – Sistema Nacional de Informaçoes –, buscando transformar o país numa caserna sob controle dos militares.

Foi em nome dessa concepção totalitária que a ditadura militar buscou expurgar os que considerava riscos para seu controle militar do país. Prendia arbitrariamente, interrogava com os mais brutais métodos de tortura, fuzilava e fazia desaparecer os corpos dos que considerava opositores.

Essa mesma doutrina comandou a golpe e a ditadura na Guatemala, desde 1954, fazendo do país o mais massacrado de todo o continente. Valeu para as ditaduras militares no Chile, no Uruguai, na Argentina e orientou a ação da direita por todo o continente.

Tags: História,  Política




7 Comentários Insira o seu Coméntario !

Marcos Antônio - 30/03/2012
A campanha do candidato Serra me fez lembrar desses tempos sombrios da ditadura!


Ana Cruzzeli - 28/03/2012
É Emir essa distancia da Guatemala a Cuba assustava o tio Sam

http://geology.gsapubs.org/content/32/1/17/F1.large.jpg



Todos os paises proximo da ilha de Fidel foram os que mais sofreram nas mãos ianques. Cuba sem duvida alguma tem uma importancia historica para todos os latino-americanos. Sofreram horrores e sobreviveram.

Cada dia que se conhece a historia dessa ilha mais nos apaixonamos por ela.

Com relação ao Brasil...

Todo o apoio a COMISSÃO DA VERDADE. Todos, absolutamente todos que atentaram contra a democracia, apoiando a ditadura, queremos saber. Tenho um interesse especial pelos veiculos de comunicação e pelos falsos comunistas como o José Serra e sua turma e logicamente os padres que viraram bispos reacionários como o de Guarulhos que ajudam ainda ajudam nos pequenos golpes.


Darci Amaral Cunha - 28/03/2012
Parabens Emir Sader tenho recebido indiretamente , suas matérias publicadas, mas é a primeira vez que entro em Carta Maior.e me surpreendeu a s analises profundas e pertinentes que encontrei aqui. Continue com esse jornalismo digno e resgatante do jornalismo brasileiro, que nos envergonha.


Pedro Castro - 27/03/2012
Caro Emir,

Em meus comentários esqueci de citar dois detalhes

relevantes que acrescento agora, um deles relacionado ao da doutrina da segurança nacional no Brasil e em

outros paises da America Latina;

1) Entre os lideres civis do golpe de Estado no Brasil

em 1964 esteve também o Sr. Lincoln Gordon, cidadão norteamericano;

2) O General Golbery do Couto e Silva, contra parte

em nosso pais da doutrina de segurança nacional que

você destaca no artigo de hoje, em fevereiro de 1961 foi nomeado Chefe de Gabinete da Secretaria Geral do Conselho de Segurança Nacional, onde permaneceu até setembro daquele ano, transferiu-se para a reserva e

retomou suas atividades preparatorias do golpe e

logo da ditadura, através do ILPES, do SNI e da ESG.


Luiz Antônio Laner - 27/03/2012
O golpe militar de 64, seria perpetrado de qualquer forma, no contexto da guerra fria, os interesses nacionais ficaram em segundo plano. Getúlio Vargas impediu p golpe 10 anos antes, ao cometer suicídio. Leiam a Carta testamento de Getúlio. Aliás, o positivismo de Augusto Conte, produziu Getúlio Vargas, seguidor do Positivista Júlio de Castilhos no Rio Grande do Sul. Porém, gostaria de abordar o que entendo como a face mais terrível do pós-ditadura de 64. Para legitimar o exercício do poder, os militares não usaram da força, do assassinato e tortura. Usaram da corrupção. Leia-se ARENA, partido político destinado a albergar a sociedade civil merecedora das benesses do poder, em troca de apoio político. Adiante, com uma abertura unilateral, transferiu-se o poder aos civis remanescentes da ditadura, que garantiram a eficácia da lei de anistia que se pretende rever tardiamente. Assim não temos renovação de lideranças, pois além de tornar uma geração acéfala através da perseguição de alguns, corrompeu-se a outra parte. O resultado é esta sopa de letrinhas em que se transformaram os partidos políticos. Lula, não se enganem, cresceu no vácuo deixado pelos militares. E agora, quando fecha-se o ciclo( 30 anos) da abertura, teremos democracia? Teremos alternância de poder? ou vamos mergulhar no populismo? Lula em 64 impediria a revolução? Piada!



wesley - 27/03/2012
Num mundo bipolarizado da guerra fria, qualquer ação social mais efetiva, que buscava a realização dos direitos dos hipossuficientes, era rotulada como doutrina socialista. Esta, por sua vez, estava vinculada, de forma cartesiana, à ditadura, ao totalitarismo, ao ateísmo e, principalmente, à subversão à ordem estabelecida. Dessa maneira, surgiu a denominada doutrina da Segurança Nacional a fim de legitimar a "Contra Revolução Democrática de 1964" pregada pelos militares, tendo como base de apoio a classe média e a mídia. Logo, diante da percepção da "iminente ditadura socialista", intensificada pela visita de João Goulart à China e pela anistia dada por ele aos fuzileiros que se amotinaram em 64, estourou o golpe preventivo. Sob o pretexto de salvar a Nação das mãos totalitárias do Marxismo, implantou-se -pasmem!- uma ditadura capitalista, como se o regime totalitário capitalista fosse um mal menor diante do mesmo regime socialista. Ledo engano, pois ditadura, independente do sistema econômico vigente, será sempre um atentado as liberdades individuais.

Agora, fico realizando um exercício de pura imaginação: como será que reagiriam os que realizaram o golpe de 64 se soubessem como os bancos tanto lucraram com a política de ajuda aos hipossuficientes, adotado pelo Lula por meio da política de transferência de renda e do aumento real do salário mínimo? Será que faltou ao Jango a habilidade política que sobrou ao Lula? Enfim, são apenas indagações que me fazem crer que se existisse um LULA a época de 64, talvez - e só talvez - a ditadura militar seria implantada, PORÉM sem o apoio popular que proporcionou aos generais se perpetuarem por tantos anos no poder.