18/11/2013 - Copyleft

O segundo turno no Chile

A abstenção, maior que 50%, foi o fator fundamental que impediu a vitória da Bachelet no primeiro turno. Segundo turno será no dia 15 de dezembro.

por Emir Sader em 18/11/2013 às 08:59



Emir Sader


O Chile era o país mais politizado e de maior participação partidária na América Latina. Isso não resistiu aos 17 anos de ditadura do Pinochet, aos 20 anos dos governos moderados da aliança socialista-democrata cristão. E, alem disso,  um sistema eleitoral distrital, que distribui os parlamentares entre os dois maiores blocos, excluindo as outras forças.

As mobilizações estudantis levaram a que os partidos tradicionais considerassem a hipótese de uma reforma do sistema eleitoral, mas conforme as mobilizações amainaram, só introduziram a inscrição automática dos jovens, o que não altera nada, porque não há maior interesse. E, para piorar, se introduziu o voto não obrigatório, o que só elevou a abstenção.

A abstenção, maior que 50%, foi o fator fundamental que impediu a vitória da Bachelet no primeiro turno. No segundo turno, dia 15 de dezembro, resta saber que proporção de votos ela vai ter e qual será o nível de abstenção.

Quem olhasse a lista de candidatos a presidente do Chile não diria que o golpe militar de Pinochet se deu há 40 anos e seu regime terminou há 23 anos. Michele Bachelet é filha de ministro militar de Allende, morto de colapso cardíaco na prisão, depois de 6 meses de torturas. Michele estava com ele na prisão.

A candidata da direita, apoiada pelo neo-pinochetista Sebastien Pinera, é filha de um militar, membro da Junta Militar de Pinochet. Foi candidato também Marco Antonio Enriquez, filho de Miguel Enriquez, principal dirigente do MIR, ainda que agora Marco teve uma plataforma moderada.

Mas desde o golpe se passaram 17 anos de ditaduras, 20 anos de governos da aliança socialista-democrata cristã e 4 anos de governo da direita. No entanto, a plataforma de Bachelet reflete problemas herdados da ditadura.

Ela se propõe a convocar uma Assembleia Constituinte, porque o Chile vive ainda com a Constituição imposta por Pinochet, em pleno estado de sítio da ditadura, mesmo se a carta foi reformada, mas ainda exige uma maioria tão elevada de votos do Parlamento, que supõe sempre acordos entre os dois blocos para aprovar leis importantes.

Outro dos pontos chave do seu programa é a elevação de impostos  aos mais ricos, para fortalecer as políticas sociais. O Chile, que antes da ditadura de Pinochet, era um dos países menos desiguais do continente, se tornou um dos mais desiguais. Isso Bacheet quer combater com mais recursos tributários.

O terceiro tema também pertence à herança maldita deixada por Pinochet e não tocada, até aqui: a privatização das universidades chilenas, fator das enormes mobilizações estudantis, que  tiraram legitimidade de Sebastian Piñera. Bachelet apresentou um plano de recuperação do caráter público das universidades, de 5 anos, porque os recursos para isso não constavam mais do orçamento público.

Bachelet retorna à presidência em condições distintas das em que assumiu pela primeira vez. Seu último ano de governo foi o primeiro da crise internacional no centro do capitalismo. Naquele momento ela tomou medidas que protegiam os setores mais vulneráveis – como os idosos -, abandonados à sua sorte pela privatização da previdência, herdada da ditadura e nunca modificada pelos governos posteriores.

Desde então fortaleceu-se a capacidade de resposta às pressões recessivas produzidas pela crise no centro do capitalismo por parte dos governos que privilegiam os processos de integração regional e não aqueles que, como o chileno, assinaram Tratados de Livre Comércio com os EUA. Bachelet já manifestou sua vontade de baixar o perfil da participação do Chile na Aliança para o Pacífico e intensificar as relações com os países do Mercosul. 

Tags: Internacional




3 Comentários Insira o seu Coméntario !

Rennan Fields - 21/11/2013
Excelente comentário, André Dantas dos Santos.

E digo mais: Sabe o porquê do artigo não apresentar uma interpretação da sociedade chilena sobre sua realidade? O Chile é o país que mais sente essa "primavera mundial". O povo chileno está nas ruas muito mais tempo que o nosso cobrando, em geral, as mesmas pautas. Além disso, há também, a tão conhecida e debatida, pelo menos aos que convém, crise de representatividade somada ao esgotamento da esquerda tradicional em toda a América Latina.

Ninguém aguenta mais este discurso demagogo de contraposição ao neoliberalismo. Na prática todos sabem como esses governos tem funcionado: submissão total às intervenções americanas em nosso território. Essa esquerda não entende que não é o povo revoltado nas ruas que precisa dialogar com eles. Quem não dialoga é justamente essa esquerda, que, vide o artigo, já desmerece e cria conceitos sobre ações da população sem ao menos consulta-la. Continuam errando. Rotulam, no caso específico do artigo, dizendo que os 50% de abstenção foi o fator fundamental pelo 2º turno. Eles são prepotentes, não acreditam na emancipação do povo pela própria força. Para eles sempre haverá a necessidade dos super heróis. Continuem assim e vejam a história sendo escrita sem vocês.


Odorico Ribeiro - 19/11/2013
Oi Professor Emir, aí lhe envio - e a todos que participam do seu blog - o link onde a Professora Ana Elizabeth de Oliveira Lima (Beta) faz uma pequena apresentação sobre o problema da educação no Brasil. Esse evento se deu na Câmara dos Deputados em Brasília e só esse detalhe por si só já mostra o interesse que já está presente em todos, em avançar nesse terreno vital, tão necessitado de um impulso sólido e objetivo. http://www.youtube.com/watch?v=dcBetEHnMsA#t=333

Como se pode ver ali, é perfeitamente possível dar passos que darão resultados realmente espetaculares. É muito interessante que tomemos consciência que o Brasil tem verdadeiros craques nesse campo, que são de fazer inveja a qualquer país do mundo. É muitíssimo difícil, p'ra não dizer impossível, conseguir nomes como Paulo Freire, Lauro de Oloiveira Lima, Anisio Teixira entre varios outros, que deixaram uma base para desenvolver o sistema educacional, base essa que só podemos qualificá-la como invejável mesmo.

Ou seja, a solução está aqui, bem do nosso lado. E, sob todos os pontos de vista, essa é uma ação a ser tomada o mais breve que possamos. Mas para isso devemos empurrar o PT, devemos ajudá-lo e uma das pessoas que está mais capacitado em fazê-lo é o senhor, caro Professor. Sua ajuda é inestimável, pois conhecemos sua preocupação com a educação.

Obviamente existem várias experiências positivas (como a do MST, mencionada pelo senhor há alguns anos atrás). Enfim, se conseguirmos esse avanço, estaremos abrindo as portas do Brasil inteligente, do Brasil justo, do Brasil humano, serio, inclusivo e tudo o mais que uma sociedade inteligente pode construir. Claro está que tudo isso trará consequências positivas não só ao Brasil mas a todo o mundo.

Dentro dessas breves reflexões sugiro ao senhor também ler o relativo ao III Manifesto pela Educaçao http://elypaschoalickeosprofessores.blogspot.com/2013/10/iii-manifesto-pela-educacao-mudar.html

Para terminar, lhe peço desculpas por esse atrevimento, pois tenho certeza que toda essa reflexão faz parte das suas preocupações diarias, coisa que lhe agradecemos todos, Professor. E muito. Um fraterno abraço, Odorico Ribeiro



André Dantas dos Santos - 19/11/2013
Só não entendi por que razão se conclui que os 50% de abstenção foram fundamentais para que houvesse 2º turno. No texto não consta qual a interpretação da realidade chilena que demonstre que os que não votaram tenderiam mais a votar em Bachelet do que os que votaram.

Teria que haver (ou há) alguma razão, que o texto não traz, para mais simpatizantes de Bachelet resolverem ficar em casa que os simpatizantes de seus adversários.

Sem mais informações, o que a abstenção deixa patente é o descrédito da sociedade no sistema político do Chile, bem como da falta de esperanças nas opções que se apresentam.

Bachelet não é nenhuma novidade, muito pelo contrário, e, pela experiência anterior, espera-se melhoras em relação ao atual Presidente, mas nada que venha a atacar a fundo os graves problemas estruturais do Chile.

Não se espera de Michelet, assim como de Dilma, que venha confrontar decididamente a elite conservadora dominante em quase toda a América Latina, mas que, também como Dilma, tente com os grandes capitalistas nacionais e internacionais, acordos que venham a colocar água na fervura da tempestuosa sociedade chilena nesse momento.

Nada de novo no fronte. Não será do Chile (nem do Brasil de Dilma), pelo menos não com Bachelet, que virá a esperada libertação dos povos latinoamericanos. Seguimos no jogo do "policial bom" versus o "policial mal" na disputa pela gerência do capitalismo.