13/06/2014 - Copyleft

O sentimento nacional

A operação anti-brasileira em curso atualmente, aqui dentro e desde fora do país, tem o objetivo de destruir a imagem do Brasil do Lula.

por Emir Sader em 13/06/2014 às 07:00



Emir Sader


O Brasil só começou a se pensar como pais, como nação, como povo, a partir da chegada do Getúlio ao poder. Antes, vivíamos para fora e desde fora. Economia exportadora e importadora, sem produção nacional, sem mercado interno importante.

Se pensar como país é concomitante a ter sentimento nacional, ter auto estima. Não foi por acaso que Fernando Collor e FHC atentaram fortemente contra a nossa autoestima, para poder implementar o modelo econômico mais antinacional e antipopular: o modelo neoliberal, que escancarava o país para a exploração externa.


Collor atacou os servidores públicos como “marajás” e os carros produzidos aqui – como metáfora de toda a indústria – como “carroças”. FHC atacou os servidores públicos e os aposentados como “preguiçosos”. Para isso, FHC disse que ia “virar a página do getulismo”, porque queria liquidar o sentimento nacional e as conquistas dos trabalhadores.

   
A vitória do Lula e o sucesso do seu governo foram o maior incentivo à autoestima dos brasileiros, a que nos repensemos como país no mundo, como tipo de sociedade que queremos e podemos construir. Ter orgulho de novo de ser brasileiro é a alavanca para todos os outros avanços do país.

Todos os grandes movimentos populares de transformação do mundo tiveram um componente indispensável no sentimento nacional. A Revolução Russa se fez, também, como reação ao avassalamento do país, derrotado na guerra contra o Japão e tornado servil aos interesses das grandes potencias imperialistas, a Inglaterra e a França.

Posteriormente, a resistência soviética à invasão alemã, a derrota do exército nazista e o  avanço para derrubar o regime do Hitler – o que mudou o curso da segunda guerra e da própria historia -, se fez em nome da Grande Guerra Patriótica, como resistência do povo contra a invasão alemã.

A Revolução Chinesa foi possível como desdobramento da expulsão da invasão japonesa e da norte-americana, com um profundo sentimento nacional e orgulho de serem chineses, que hoje eles voltam a exibir. A Revolução Vietnamita foi uma revolução profundamente nacional nas suas origens, para expulsar os norte-americanos e derrotar o regime fantoche que eles tinham instalado no sul do país.

A Revolução Cubana foi, antes de tudo, uma revolução democrática e nacional, contra a ditadura pró norte-americana do Batista. Da mesma forma que a nicaraguense, contra a ditadura dos Somoza.

Esse componente nacional é chave na disputa política e ideológica. O que provavelmente mais dói na direita brasileira e nos seus aliados internacionais, foi a capacidade do Lula de levantar bem alto o orgulho de sermos brasileiros, a possibilidade de que o país dê certo, de que podemos e devemos seguir nosso próprio caminho, aliado aos países da região e do Sul do mundo, sem nos subordinarmos aos EUA.

A operação antibrasileira em curso atualmente, aqui dentro e desde fora do país – tem o objetivo de destruir a imagem do Brasil do Lula. Do país que mais luta contra a fome no mundo, que mais diminui a desigualdade, que cresce distribuindo renda, que se afirma como país soberano. Para isso tem que difundir esse clima de pessimismo, veiculado pelo monopólio antidemocratico da mídia.

Que o governo é incompetente, corrupto, que tudo que é comandado desde o Estado não dá certo. Que o país trilhou um caminho errado distanciando-se dos EUA e dos modelos centrados no mercado. Que os salários são os responsáveis pela diminuição do ritmo de crescimento e não a especulação financeira.

Em suma, precisam voltar a derrubar a autoestima dos brasileiros, voltando ao fatalismo de que não teríamos jeito. Quem contribui para isso, conscientemente ou não, pela direita ou pela ultraesquerda – queimando bandeiras do Brasil, torcendo contra a seleção, não valorizando todos os avanços na situação do povo – faz o jogo da direita, dos retrocessos. Que somente são possíveis com um povo desmoralizado, derrotado, sem auto estima, sem sentimento nacional.

Tags: Política




16 Comentários Insira o seu Coméntario !

wendel Anastacio - 16/06/2014
Emir como sempre, na mosca!!!

É sempre um privilégio ler artigos assim, pois fica patente que nosso sentimento para com o Brasil, se justifica cada vez mais!!!

Avante construtores, o Brasil merece!!!!!!


Vicenzo Pugliese - 16/06/2014
Caro Sr.Emir, peço desculpas, jamais simpatizei com o collor, que a indústria nacional(montadoras)fabricam autênticas "carroças", fato consumado, somente a partir deste ano que existe a obrigatoriedade de air bags e abs, nos países desenvolvidos, estes equips.de segurança são utilizado há de 25 anos...


Hernan - 15/06/2014
Temos um país onde a maioria dos cidadãos tem uma característica em comum o "fura olho". Não, não é uma "coisa" que nasce nas favelas e roças não, é um projeto cuidadosamente medido para minar a nossa coexistência herdada. Temos que pensar sempre numa segunda opção para qualquer verdade propalada por qualquer mídia, procurar informações principalmente nas que não estão na onda, como mecanismos de busca de outros países e outros meios de "mídias sociais" - antigamente se usava o rádio Transglobe. A alguns anos atrás diziam q eu era meio paranoico em relação a certas informações q as pessoas colocavam na então incipiente internet. Agora no período pós-NSA, ficou claro a intenção da rede nascida de um centro de desenvolvimento bélico norte-americano. E a estratégia de ação é vista, mesmo filtrada, nas nações onde o "interesse" prevaleceu, que vai desde a desqualificação daqueles q não são interessantes, até a eliminação "cirúrgica" dos desafetos, medidas é claro pelo grau de importância do "alvo".......... Aqui não é diferente e este tipo de operação em um país que é e será o futuro das necessidades mundiais, e de quem quer se manter a todo o custo na "crista da onda", é esperado, mesmo porque o rastro de destruição e ódio que deixaram para trás, não os permitirá retornar como "solução" ....... Sobra nós; e qualquer mudança no rumo da nau (na rota pré-definida deles) mesmo por um grau, os preocupa. É este o quadro desenhado com a ajuda daqueles movidos pelo arquétipo do "objeto de desejo", que os nossos mandatários enfrentam. Temos sim que promover nosso espírito pacífico e não entrar na "onda" daqueles que querem transformar o país no caos. Exigir sim mas com objetivos, impedir sim mas com sensatez. Os meios usados para a desetabilização social são claros: A segregação clara com UPPs e correlatos; greves provocadas pelos Sindicatos Patronais (só no Brasil isto acontece e é permitido); desrespeito as autoridades efetivamente constituidas (experimente chingar Obama na NBA); banalização de informações irrelevantes nas mídias. O objetivo é a destruição de valores familiares, de sociedade e de nação.


marco antonio lahr moura - 15/06/2014
Não consigo entender o seguinte: todos os comentário neste blog são contra a mídia golpista,porem não dão solução para enfraquecer com o PIG.Gostaria de saber qual a dívida dos principais canais de tv aberta? Qual o valor das inserções de propaganda do governo e de estatais,talvez podemos enfraquecer essa mídia vendida. Aguardo


jardel lopes - 14/06/2014
Sempre vale a pena refletir nos ensinamentos do Emir Sáder.

Este fato que ele levanta etá sendo sentido no dia-a-dia. É de fato uma questão ideológica globalizada. Ultrapassa as questões de nossas disputas eleitorais de 2 em 2 anos. O Lula conseguiu mostrar ao mundo a diferença do que existe debaixo da linha do Equador. E tem conseguido mostrar ao mundo que tudo é possível sem o uso desta guerra maluca bancada pelos xerifões do norte onde o mercado comanda tudo, inclusive o grande comércio das armas.

E a auto-estima dos brasileiros é algo muito forte. O sentimento de brasilidade se confunde com solidariedade. Já foi mostrado em diversas vezes. Mais recente a campanha pela fome do Betinho. Se alastrou sem nenhum Partido político.

E os adversários do Brasil grande solidário nao aceitam esta tese. Ela derruba a política do "mercado" e sem guerra. Então para tanto, tem que derrubar esta auto-estima. Isto dá muita raiva, ódio à esta elite covarde que acha que tudo tem preço. Não aceitam sob hipótese alguma, ter que dividir os lugares nos aviões com o pobres, com os negros. Isto provoca um ódio indescritível. Então, a presença dos pobres nas Universidades, é uma situação inaceitável. Porque não permitiram a constituiçao de novas universidades públicas neste país até 2002! E o Lula simplesmente escancarou esta tese que pobre não pode fazer universidade. E agora vem a Dilma e começa a colocar o dedo na ferida aumentando substancialmente a "grana" para a educação com o repasse de um percentual do pré-sal. Isto não pode continuar. Então, elles tudo farão para impedir a continuidade desta política. E nesta Copa, tudo que puderem fazer prá atrapalhar nossa imagem, será feito por elles. Com certeza. E não podemos permitir.


Juca Ramos - 14/06/2014
Bom artigo no começo e no fim. Mas a semelhança a Getúlio atribuída ao Lula não vai muito longe, visto que GV era tanto um nacionalista quanto um homem eminentemente de poder, instrumento que nunca vacilou em usar para seu beneficio político. Lula ao contrário, busca o diálogo e a negociação para a solução de dos problemas, conflituosos ou não.



Cada um tem suas simpatias e ídolos, mas acho contraproducente a sugestão de que, em nossos esforços para construir uma sociedade mais justa, igualitária e feliz, busquemos inspiração em revoluções de cunho totalitário.



As sociedades precisam de criar meios para que cada um de seus membros possa exercer uma cidadania robusta, com plenos direitos sociais, econômicos e políticos, mas delegando ao Estado apenas os poderes de que este efetivamente precise para bem servi-lo, não para tiranizá-lo.



Enfim, o indispensável é o exercício da soberania popular em maior grau possível, com os representantes e agentes públicos sempre agindo em sintonia fina com a vontade do cidadão, não sobrepondo-se a ela.


Victor Emanuel Giglio Ferreira - 14/06/2014
Excelente análise do Sader. Realmente o componente nacional e, portanto anti-imperialista, foi e continua sendo muito importante na grande maioria dos avanços revolucionários observados em inúmeros países através da história dos últimos dois séculos. E, também verdade, no Brasil não foi diferente, tanto com a ascensão do Getulismo - fortemente nacionalista, como do Lulismo, ambos com inúmeras semelhanças. Mas, as garras do imperialismo - o capitalismo financeiro ocidental - ainda se encontram parcialmente cravadas em nosso país, tendo como principais baluartes, hoje, os grandes bancos privados, nacionais e estrangeiros e os grandes meios de comunicação privados, especialmente televisivos, comandados por eles e demais setores da oligarquia nacional, como os ruralistas. A grande tarefa do momento, das forças populares, democráticas e nacionalistas, no país, é quebrar essas principais fontes de poder do grande capital financeiro, mediante a ESTATIZAÇÂO INTEGRAL de todos os principais meios de comunicação televisivos e aumentando cada vez mais a participação e domínio dos bancos públicos estatais no mercado financeiro nacional, implantando cada vez mais o Socialismo de Mercado (como no modelo de socialismo chinês, indiano, russo atual, vietnamita, etc.) assim promovendo o crescimento econômico-social e o fim dos instrumentos de poder político da oligarquia burguesa financeira e entreguista.


Henrique de Paula - 14/06/2014
Ser realista não é ser antipatrióta. Reconhecer seus erros faz com que vc cresça e faça melhor no futuro. Quando o mundo e os fatos mostram que fomos campeões de atrasos, ficando atrás até África do Sul, entregamos cerca de 30% das obras de mobilidade urbana prometidas para a Copa, recebemos diversos chutes no traseiro do Sr. Valcke, entregamos estádios com goteiras e tapumes com obras inacabadas, não basta a Dilma ir a TV e falar que essa é "Copa das Copas" que vamos comprar essa idéia.


Rui - 14/06/2014
Obrigado, Sader, foi perfeito. Só uma dúvida, acho que quem mais diminuiu a desigualdade foi o Chavez, mas também isso não importa, já que esse é outro ícone alvo da direita. Recomendo a todos, não deixem de assistir o vídeo da Telesur "De Zurda", da muito orgulho de ser latino americano.


Evaldo José Guerreiro Filho - 13/06/2014
É impressionante como sentimos isso no dia-a-dia, na rotina, como a nossa crença de fazermos um mundo melhor é determinante no resultado de nossas ações, como nosso orgulho é determinante no resultado.


Jerdeson Soares da Silva - 13/06/2014
Olha rpofessor é incrível como vocês insistem em reafirmar que o PT é partido de esquerda.

O PT no meu ponto de vista é direita populista. Não é possível que vocês não estão percebendo a administração Haddad em SP. Dilma privatizou o pré-sal e colocou o exército na rua para impedir aqueles que votaram nela chegassem no local do leilão de Libra. Vocês precisam de alto crítica.


Franklin de Paula Jr. - 13/06/2014
A esperança venceu o medo e, eleitoralmente, a mídia. O senso de justiça retirou milhões da miséria, valorizou o salário mínimo, atingiu o pleno emprego (quem diria?!), enfrentou a crise mundial com políticas anticíclicas (aquecendo o mercado interno e multilateralizando o comércio internacional). Os onze anos do projeto democrático, popular e nacional resgataram a auto estima e turbinaram o orgulho de ser brasileiro que a coalização oligárquica tenta destruir com o arsenal midiático e a judicialização (politicídio). Agora, urge amplificar a disputa simbólica, robustecer o imaginário, incrementar a narrativa (estabelecer sinergia) e instrumentalizar o orgulho nacional com a reforma do sistema político (por meio de uma constituinte exclusiva, banindo o financiamento privado-empresarial de campanhas eleitorais e desmercantilizando a política), democratizar os meios de comunicação, e empreender uma inflexão no modelo, por um lado, diminuindo a influência deletéria do mercado financeiro, das monoculturas, dos agrotóxicos, dos construtores de ruínas sociais, da imobilidade urbana, das mega-corporações, e, por outro, aumentando a inclusão das minorias, reparando históricas dívidas sociais (especialmente com indígenas e quilombolas), desanistiando os torturadores de ontem e hoje, e aumentando o pluralismo e a participação social nos processos decisórios da vida nacional.


Jorge Morgan - 13/06/2014
Sader, as pessoas do povo, sobretudo, aqueles que percebem e sentem o futuro do Brasil como pais grandioso (e que estao nas mais diferentes classes) começam a tomar consciencia da tetantiva de manipulação por parte da midia golpista. O futebol e todas a s crenças que ele levanta (como num enredo pos-moderno) ira ajudar a enterrar o pessimismo negativista.


Carlos Salgado - 13/06/2014
É isso Sader. Se o Brasil já esteve bem pior, nossa luta também era bem mais difícil. Vamos a luta, combater o bom combate!!!.


luiza martins - 13/06/2014
Gostaria de parabenizá-lo por este belo texto. Sentimos hoje sim um grande orgulho do Brasil e isso realmente se deve ao governo do PT.


apolinario pereira - 13/06/2014
mais uma vez venho parabenizar a analise perfeita do almir e que continue assim, vale a pena se le e apreciar suas palavras justas e corretas, valeu!