06/08/2012 - Copyleft

O vício rentista do grande empresariado

por Emir Sader em 06/08/2012 às 22:15



O governo criou as melhores condições possíveis, no marco atual de pressões recessivas internacionais, para que aumentem os investimentos – diminuição significativa da taxa de juros, desvalorização do real, retirada de impostos -, mas a reação do grande empresariado é quase nenhuma. Antes criticavam o governo quando a taxa de juros era mantida, quando o dólar estava muito desvalorizado. Quando o governo atende a essas reivindicações, as entidades empresariais simplesmente se calam e se somam ao coro aziago da diminuição do crescimento economico.

É um grande empresariado acostumado ao modelo anterior, baseado na exportação, no consumo de luxo e na especulação. Acostumado com a super-exploracao do trabalho, com modelos econômicos voltados para atender as necessidades de um terço da população.

O modelo neoliberal promoveu a hegemonia do capital financeiro, sob sua forma especulativa. Não a que financia a produção, o consumo, a pesquisa, mas a que vive da compra e venda de papeis, a que não cria nem bens, nem empregos.

Quando desregulamentou a economia, ao invés de ser retomado um ciclo expansivo da produção, houve uma brutal transferência, em escala mundial, de capitais do setor produtivo para o especulativo. Porque o capital nao está feito para produzir, mas para acumular. A desregulamentação deixou o capital livre para buscar os maiores lucros possíveis. Encontrou na especulação financeira, onde ganha mais, com menos impostos e liquidez total, o destino privilegiado dos seus investimentos.

Não existem os empresários produtivos e os especulativos. Todo grande grupo economico tem um ramo especulativo que, atualmente, via de regra, é o que gera mais lucros.

Quem garante o financiamento aos programas sociais do governo são os bancos públicos. Quem injeta dinheiro na economia, de diferentes maneiras, é o governo.

Temos uma burguesia rentista, que vive da especulação, que resiste à reconversão do modelo de hegemonia do capital financeiro a um modelo produtivo. O governo tem que agir cada vez mais na direção do condicionamento dos créditos, das isenções, de toda forma de favorecimento do capital privado, com contrapartidas estritas em termos de produção e de geração de empregos, com um peso cada vez maior do Estado, para não depender do ânimo e do espiríto especulativo de grandes setores do empresariado privado.

Tags: Internacional,  Economia




13 Comentários Insira o seu Coméntario !

Sergio Uliano - 21/08/2012
A partir da 1ª década do sec. XX o capitalismo financeiro tornou-se hegemônico ( Gramsi ) no intyerior do capitalismo.



Para a história não existe RETORNO.Superar o capitalismo especulativo,significa ir implantando o socialismo. Ou seja: Estado FORTE, indutor e regulador.


José Osivan Barbosa de Lima - 15/08/2012
As vezes os sindicalistas também cometem os seus erros quando por exemplo: forçam o governo a desonerar para deixar o dinheiro nas contas bancárias dos empresários, em vez do governo arrecadar esses recursos e investi-los em obras, programas sociais, recuperação do salário mínimo, etc.


ricardo silveira - 11/08/2012
Por que não taxar as grandes fortunas; por que não taxar o capital especulativo; por que não impedir o monopólio da mídia golpista para que a população seja corretamente informada do que se passa no país? Por que o governo não faz nada disso?


André Dantas - 09/08/2012
Não se trata de vício nenhum, mas sim da natureza do capitalismo. O capitalismo não visa produzir nada, visa o maior lucro. Se tiver que produzir alguma coisa para lucrar que seja, mas se não tiver que produzir nada, se não tiver que correr riscos, melhor ainda (para o capitalista, obviamente).

Já chega de tentarmos procurar alternativas para "humanizar" o capitalismo. Essa alternativa não existe e essa busca só ajuda a sustentar esse modelo de exploração.


darcio - 09/08/2012
" Porque o capital nao está feito para produzir, mas para acumular." ....sendo assim o capital busca o locus adequado para acumular, que há algum tempo é o setor rentista (fictício), é a lógica.....o setor produtivo sob a extração de mais-valia já não tem mais capacidade de revalorizar o capital


Índio Tupi - 08/08/2012
Aqui do Alto Xingu, os índios lembram que, segundo estudo da "tax justice network (TJN)" divulgado em julho, cerca de 10 milhões de pessoas detinham em 2010 entre US$ 21 trilhões e US$ 32 trilhões em mais de 80 paraísos fiscais, cifra equivalente aos PIBs dos Estados Unidos e do Japão somados e igual a 40% do PIB mundial, sendo que pessoas do Brasil mantinham nesses paraísos fiscais cerca de US$ 520 bilhões, valor equivalente a 1/4 do PIB do País, números esses considerados conservadores, pois se referem apenas a ativos financeiros, excluindo a massa de bens imóveis, iates e outros ativos não-financeiros.



Cerca de 100 mil pessoas em todo o mundo detinham US$ 9,8 trilhões em paraísos fiscais. Esses números demonstram que todos os estudos sobre a desigualdade até aqui elaborados falharam em dar conta adequadamente dessa riqueza escondida e evadida. Os estudos da TJN concluem que a desigualdade é bem pior do que imaginávamos. Os 50 maiores bancos do mundo administravam em 2010 mais de US$ 12,1 trilhões, em comparação com US$ 5,4 trilhões em 2005.



Se os valores mantidos em paraísos fiscais rendessem retorno de apenas 3% a.a. e fossem tributados em 30%, isso geraria uma receita entre US$ 190 bilhões e US$ 280 bilhões, duas vezes o montante gasto pelos 29 países da OCDE em assistência financeira ao desenvolvimento. Impostos sobre a herança, sobre ganhos de capital e de outros tipos poderiam aumentar esses valores significativamente.



Os 139 países de baixa renda média tinham, em 2010, dívida de US$ 4,1 trilhões, mas, se considerarmos suas reservas internacionais e a riqueza evadida, não registrada, mantida em paraísos fiscais, esses países, na verdade, seriam credores de algo entre US$ 10,1 trilhões e US$ 13,1 trilhões. Infelizmente, seus ativos são detidos por poucos indivíduos riquissímos, enquanto suas dívidas são partilhadas pelo povo através dos respectivos governos.



Esses recursos evadidos e mantidos em centros financeiros "offshore", mais conhecidos como paraísos fiscais, configuram o que hoje se considera como um verdadeiro buraco negro em expansão do sistema capitalista, construído ao longo dos últimos 50 anos pelos principais megabanksters e sua panóplia de instituições financeiras fora de controle e supervisão oficial, com a complacência dos organismos financeiros e instituições multilaterais de coordenação e controle internacionais e nacionais, no que se constitui o que é conhecido como "sistema bancário pirata", ora às voltas com a predação financeira de municipalidades, estados, províncias, regiões, países e continentes inteiros, cuja rapina, apenas nos últimos cinco anos, decorrente da crise global, obtida sob múltiplas formas de "operações de socorro", subsídios e garantias, é estimada por especialistas entre US$ 16 trilhões e US$ 20 trilhões.



Residentes de apenas 10 países respondem por 61% desses recursos evadidos e apenas os residentes de 20 países do topo respondem por 81% dos recursos totais evadidos.



Considerados os recursos evadidos, seus rendimentos ao londo do tempo desde os anos 1970, foram eles superiores a todos os investimentos diretos er os investimentos em carteira realizados nos 139 países de renda média baixa.


Mário Barroso - 08/08/2012
Emir, texto e reflexão de dar gosto, vou dividir com os leitores do meu blog. Obrigado por alimentar a minha indignação! Abraço!!!


Cleto José Vilar Maia - 08/08/2012
É verdade.E têm razão todos os que pregam a urgência,por parte do governo federal,na adoção de um rol de medidas no sistema nervoso central da economia brasileira, com o intuito de pôr termo a este ciclo destrutivo de práticas neoliberais que,a médio e longo prazos,comprometerão de forma crítica o desenvolvimento do País;inviabilizando,portanto,a conquista das nossas credenciais definitivas,interna e externamente,para ingressar no olimpo das grandes nações.Já que,é improvável que isso venha a ocorrer por intermédio da ganância predatória_fartamente demonstrada ao longo da nossa história_,de "nossas" melancólicas elites patrimonialistas.


Noir Dias Moreira - 07/08/2012
Perfeita a sua observação, Emir. Penso exatamente, assim.


ze - 07/08/2012
muito bom. o capital quer acumular, reter, concentrar, parece uma lei natural. as moedas valem o que dizem ?


Walter Souza - 07/08/2012
Keynes. Por isso a esquerda, encalacrada teoricamente, não sai do lugar, imersa em impasses, impotente. A crítica da esquerda tradicional atual não passa de keynisianismo recauchutado, mesmo na chamada extrema-esquerda leninista. Pior: ignora completamente a complexidade (nem tão complexa assim, pois qualquer manual atualizado registra os desenvolvimentos) dos processos produtivos internacionais, imbricados umbilicalmente, que galopam ininterruptamente contra a tendência de "emprego total". Daí as platitudes keynesianas, coloridas de um nacionalismo anticolonialista sem colônia, incapaz de determinar a verdadeira natureza do novo problema. A própria teoria da dependência, embora se perpetue, o faz sob diferentes formas, que é preciso definir teoricamente, à luz do avanço dos processos de produção e de reorganização do trabalho, cada vez mais alijador da força humana de trabalho. A reprodução dos velhos esquemas do professor apenas retarda a tarefa de elaboração de uma concepção exata e crítica dos novos problemas que assomam. Pra terminar, sugiro aos colegas que debatem neste espaço que leiam mais Marx (não apenas, mas sobretudo), a fim de saber como essa oposição entre "capital financeiro" especulativo e "capital produtivo" é, em última instância, uma aparência. Há mais de um século, esse mesmo Marx demonstrou como era uma ilusão opor essas duas esferas. Contra Marx, alguns de nossos marxistas reabilitam esquemas da economia burguesa clássica com sabores keynesianos. Nada contra criticar Marx (sem dogmatismo), quero apenas enfatizar que essa ideia, exposta no artigo, está fora dos limites de um pensamento marxista. Portanto, cabe ao professor assumir que trabalha numa linha teórica mais liberal, digamos assim - a verdadeira natureza dos governos chamados pósneoliberais (sem desmerecê-los). Um abraço.


Marivalton - 07/08/2012
O governo cortou 30% nos impostos dos carros (IPI), mas todas, eu disse TODAS as marcas nao estao dando mais do que míseros 10% de desconto. Pergunto eu pra onde foram parar esses 20%? Montadoras, mesmo lucrando, insistem em querer demitir milhares de empregados. "Que se lasquem seus dependentes, seus filhos e esposas, vamos demitir e pronto". O mesmo se dá bom os bancos privados, o Itau, mesmo batendo recordes de lucros, demitiram milhares de chefes de família. Todos estes fatos no servem para enxergar a dura realidade, as grandes empresas nao têm a minima preocupação com o bem estar social e com a vida dos tralhadores. O governo erra ao acreditar que cortar impostos e atender pedidos destes empresários, eles irão colaborar com o bem da nossa nação. O governo Dilma deveria dar um basta nesta politica de bolsa empresários e voltar a ser enérgica com eles. Se vão demitir, pois então que deixem o país, pois os brasileiros nao precisam de sanguessugas traidores. O brasileiro de hj tem dinheiro no bolso e pode comprar carro, o bom seria se existisse uma opção nacional, um carro nacional. O governo Dilma deveria dar atenção a esta possibilidade.


Rogério Pires da Cruz - 07/08/2012
Estimado Professor Sader: não tenho hábito de participar deste tipo de atividade/debate. Mas, por ter gostado do que foi escrito, e ter algumas dúvidas, me permiti a elaboração de alguns comentários que fiz em letra vermelha (e entre parenteses porque não sei se serão aqui reproduzidos).

De todo modo, minha admiração intelectual pelo seu texto.

At.

Rogério Cruz. Natal (RN)







http://www.cartamaior.com.br/templates/postMostrar.cfm?blog_id=1&post_id=1050

06/08/2012

O vício (A prática) rentista do grande empresariado Emir Sader

O governo criou as melhores condições possíveis, no marco atual de pressões recessivas internacionais, para que aumentem os investimentos - diminuição significativa da taxa de juros, desvalorização do real, retirada de impostos -, mas a reação do grande empresariado é quase nenhuma. Antes criticavam o governo quando a taxa de juros era mantida, quando o dólar estava muito desvalorizado. Quando o governo atende a essas reivindicações, as entidades empresariais simplesmente se calam e se somam ao coro aziago da diminuição do crescimento econômico.

É um grande empresariado acostumado ao modelo anterior, baseado na exportação, no consumo de luxo e na especulação. Acostumado com a superexploração do trabalho, com modelos econômicos voltados para atender as necessidades de um terço da população. O modelo neoliberal promoveu (contribuiu para que houvesse) a hegemonia do capital financeiro, (e, nesse sentido, cresceu a especulação nessa esfera da economia) sob sua forma especulativa. (Desse modo, ao invés de crescer o financiamento à) Não a que financia a produção, o consumo, a pesquisa, (cresceram as apostas na) mas a que vive da compra e venda de papeis, (isto é aquela) a que não cria nem bens, nem empregos.

Quando desregulamentou a economia, ao invés de ser retomado um ciclo expansivo da produção, houve uma brutal transferência, em escala mundial, de capitais do setor produtivo para o especulativo. Porque o capital não está feito para (acumular privadamente, produzindo ou não). produzir, mas para acumular. A desregulamentação deixou o capital livre para buscar os maiores lucros possíveis. Encontrou na especulação financeira, onde ganha mais, com menos impostos e liquidez total, o destino privilegiado dos seus investimentos.

Não existem os empresários produtivos e os especulativos. Todo grande grupo econômico tem um ramo especulativo que, atualmente, via de regra, é o que gera mais lucros.

(Nesse contexto,) Quem garante o financiamento aos programas sociais do governo são os bancos públicos.( Que tomam dinheiro do governo). Quem injeta dinheiro na economia, de diferentes maneiras, é o governo.

Temos uma burguesia rentista, que vive da especulação, que resiste à reconversão do modelo de hegemonia do capital financeiro a um modelo produtivo. (Essa reconversão é possível? Em caso positivo, como?)

O governo tem que agir cada vez mais na direção do condicionamento dos créditos, das isenções, de toda forma de favorecimento do capital privado, com contrapartidas estritas em termos de produção e de geração de empregos, com um peso cada vez maior do Estado, para não depender do ânimo e do espirito especulativo de grandes setores do empresariado privado.

(Para não se limitar a fazer mais do mesmo, por que não TAXAR ganhos financeiros, de onde se comporiam créditos para tentar estimular a produção? Qual a relação de forças políticas que existe hoje entre esse grande empresariado e o Governo? Este teria condições para agir nesta direção, enfrentando o problema de frente?)