08/05/2012 - Copyleft

Que morra de sede o capital especulativo

por Emir Sader em 08/05/2012 às 16:08



Emir Sader

Originalmente o capital financeiro era um apoio do capital produtivo. Os agricultores tomavam dinheiro emprestado para a colheita, depois devolviam uma parte dos seus ganhos para os emprestadores.

O neoliberalismo teve como sua bandeira central a desregulamentação, a partir do diagnóstico de que a economia tinha deixado de crescer porque haveria excessiva quantidade de normas, que dificultariam os investimentos. Por isso o programa neoliberal pode ser resumido em: desregulamentação, liberalização, para a livre circulação dos capitais. Supostamente os capitais investiriam mais e todos terminariam ganhando, com mais produção, mais emprego, etc.

Não foi o que aconteceu. Porque o capital não é feito para produzir, mas para acumular riqueza. A desregulamentação promoveu uma gigantesca transferência de capitais do setor produtivo ao setor especulativo, onde os capitais ganham muito mais, pagando menos impostos e com liquidez quase total. Esse fenômeno se deu em escala mundial, a ponto de que atualmente mais de 90% dos intercâmbios econômicos não são de produção de bens, mas de compra e venda de papeis, de especulação, que não produz nem bens, nem empregos.

O neoliberalismo promoveu assim a hegemonia do capital financeiro, sob sua forma especulativa. Não a de financiar investimentos produtivos ou pesquisas ou consumo, mas de viver e lucrar da venda e compra de papeis, em detrimento da produção e da geração de empregos.

O poder do capital financeiro, diante de Estados fragilizados pelas aberturas econômicas dos mercados internos, pela financeirizacao das economias, pela desregulamentação econômica, faz com que ele seja o agente fundamental das crises econômicas, que são detonadas como crises financeiras.

Em 2008, a crise atual começou como crise dos bancos. Estes foram salvos pelos Estados. Mas, ao invés de salvarem os países, eles se salvaram a si mesmos. No novo ciclo da mesma crise, iniciado em 2011, os bancos foram agentes da crise e desta vez quebram Estados.

No Brasil, a taxa de juros mais alta do mundo é um obstáculo fundamental para dar continuidade ao ciclo de expansão econômica, com as políticas sociais intrinsecamente vinculadas a ela. Ela atrai o capital especulativo internacional e nacional, com todas as consequências desestabilizadoras sobre nossa economia.

O governo brasileiro está comprometido com que os juros no Brasil cheguem ao nível internacional, deixando de atrair o pior capital para cá. Mas isso não basta, é preciso taxar de forma mais forte a circulação do capital financeiro.

Esse é um enfrentamento antineoliberal central: quebrar a hegemonia do capital especulativo no Brasil. Fazer com que o capital especulativo morra de sede.

Tags: Economia




15 Comentários Insira o seu Coméntario !

Idalvo Toscano - 13/05/2012
Falamos da voracidade do capital financeiro, mas esquecemos de que os bancos prostituem a confiança que a sociedade deposita em suas instituições (a MOEDA, no caso) e que permite com que o sistema financeiro "crie" moedas a partir desta confiança!

Atualmente temos que 60% dos meios de pagamentos é moeda fictícia, não emitida pela autoridade monetária e representada por dívidas.


Armando do Prado - 11/05/2012
Cavalo que não é burro toma água e com muito gosto.


Mazinho Vieira - 11/05/2012
O lucro dos banqueiros foi, e é uma grande "farra'' da nossa economia tupiniquim.

É o momento de taxar a especulação da ''ciranda financeira'' e ''diminuir'' os impostos dos alimentos, remédios, materiais de construção civil, energia elétrica, água, gás e combustíveis, para que haja sustenção de um desenvolvimento mais justo e durável.



ana - 10/05/2012
A relação sistema financeiro com os paises me faz lembra os aureos tempo do colonialismo. Quando os senhores do imperio surrupiavam todas as riquezas da colonia e em troca entregava bugingangas e espelhinhos aos nativos.


Rosana - 10/05/2012
A elite brasileira, por puro desespero de causa, já começou a atacar com notícias e editoriais plantados, pregando o terrorismo, o medo, usando munição de baixo calão. Índice de desemprego, prejuízo ao pequeno poupador, aumento dos inadimplentes. Sr Ives, o Brasil não retrocedeu no governo Dilma, como o sr disse. Saia da sua mansão e vá bater um papo com o sr José, o gari que coloca o arroz com feijão na mesa. Qto ao desemprego, como bem disse Lucas, não deve ser visto como coisa ruim e sim como libertação, porque com medo de ficarem sem dinheiro, elas ignoram seus valores.


Ruy Mauricio de Lima e Silva Neto - 09/05/2012
Sem dúvida, é fundamental taxar fortemente o capital especulativo nesta nova ordem de coisas que Dona Dilma aparenta estar edificando. A rigor, foram uns 35 anos de pesada especulação (desde as primeiras sondagens para a criação do Mercado Futuro, na Bolsa do Rio, e do Mercado de Opções, na Bolsa de S.Paulo) fazendo deste nosso País o Shangri-la dos rentistas e argentários ociosos. Portanto, devem estar todos eles muito mal-acostumados e com certeza virá reação forte da parte deles, caso estas medidas de correção de rumo sejam levadas às últimas consequências.Acautelai-vos,pois, Dona Dilma.Remember João Goulart, que não contrariou interesses do mercado financeiro, que nem existia nesta atual dimensão, mas sem dúvida ia contrariando amplos segmentos da elite da época.


Armando do Prado - 09/05/2012
Se o cavalo não for burro tomará água até estufar...


Lucas - 09/05/2012
Juro alto atrai capital especulativo, sim. Portanto o juros deve cair e a movimentação de capital deve ser taxada.



Mas a origem da crise financeira de 2008 teve origem no fato de que os bancos podem CRIAR DINHEIRO DO NADA. Pouco gente acordou para esse fato.



Quanto ao comentário do Hildemes e sua solução, saiba que os avanços tecnológicos só irão aumentar e não adianta lutar contra isso. A participação do trabalho será cada vez menor na produção e isso NÃO É RUIM. Pense bem, estamos produzindo mais trabalhando menos. A sua verdadeira preocupação é com o salário, certo? Nesse caso, você deve focar suas atenções em programas VERDADEIROS de transferência de renda, como a RENDA BÁSICA DE CIDADANIA. O desemprego não deveria ser visto como algo ruim. A grande luta do século será em desvincular o TRABALHO da RENDA.


Joca do Ipiranga - 09/05/2012
Os bancos apoiaram os governos Lula e Dilma pois vem ganhando rios de dinheiro no Brasil.

Vamos ver agora o que acontecerá.

É essencial que os partidos populares promovam manifestações em apoio ao final da agiotagem absurda que ocorre no país.

Basta!!!

Os bancos devem ser públicos!!!


luiz antonio corona - 09/05/2012
Sugiro que os brasileiros passem a negociar com BB e CAIXA, deixando de lado e morrendo de sede os banqueiros privados que não estão interessados no Brasil!


ze - 09/05/2012
caro sr. Emir, estou enviando artigos deste jornal para o grupo da família ( de Raymundo de Oliveira que o sr. conhece, deputado da época da ditadura ) mas não estão chegando. o site do grupo é familiaoliveirabrasil@groups.live.com . Há algo que se possa fazer ? a divulgação dos artigos deste jornal 'cartamaior' é fundamental. valeu. felicidades.


Hildermes José Medeiros - 09/05/2012
Não que mereça reparo, que não teria condições de fazer no texto do mestre, mas nessas análises feitas envolvendo os sistemas produtivo e financeiro, embora expressando a verdade, deixam de fora uma razão a meu ver determinante. À parte essa questão da especulação no Brasil, que também se liga às fragilidades de nossa economia, como carência de capitais, juros elevados, ainda com alta inflação e câmbio apreciado, a meu ver deixa-se de fora o principal: a mudança das técnicas de produção em todas as áreas produtivas, devidos principalmente aos recursos computacionais, as técnicas digitais, que estão desequilibrando pela maior produtividade que dão ao capital, aumentando mais do que proporcionalmente os rendimentos desse fator, mantidos os rendimentos do trabalho e as horas trabalhadas nos níveis não muito diferentes do de sempre e até menores pelo desemprego e subemprego que está acontecendo. A produção tem que ser refreada, para ficar mais próxima dos rendimentos que a irão adquiri-la, sobrando enormes recursos que só tem uma via de aplicação que é o sistema financeiro, que para dar conta e girar o montante, parte para a financeirização de tudo, inclusive mercadorias e a especular. É o resultado da globalização. Ao que parece, a hora da verdade se aproxima. Só não dá para acreditar que farão omelete sem quebrar os ovos. Vai ser pau puro, espero que mais com escaramuças, até que se perceba que não vale a pena ir adiante e o bom senso se estabeleça. Alguém vai ter que abrir mão de muita coisa e este alguém dificilmente será o trabalhador desempregado e mesmo o empregado, tudo para que um relativo equilíbrio social retorne e permita a roda da economia continuar a girar.


Fabio Passos - 08/05/2012
Esta é a grande luta para romper de uma vez com a terra arrasada neoliberal.



Dilma: Tasca taxa no capital vagabundo!


Edilberto Paludeto - 08/05/2012
Esta mais que na hora de darmos um basta às pessoas que vivem sem trabalhar, porque exploram/vivem do trabalho de outros; e para que isso tenha um bom início devemos começar combatendo o capital especulativo, o pior dos piores.


José Osivan Barbosa de Lima - 01/06/2012
O projeto neoliberal é o que existe de mais cruel e explorador na face da terra.