21/11/2013 - Copyleft

Rafael Correa e a mudança de época

Assim que foi eleito, em 2007, Rafael Correa anunciou que o Equador se somava ao processo de saída da longa noite de trevas do neoliberalismo.

por Emir Sader em 21/11/2013 às 09:59



Emir Sader

Assim que foi eleito, em 2007, Rafael Correa anunciou que o Equador se somava ao processo de saída da longa noite de trevas do neoliberalismo e que não se tratava apenas de um uma época de mudanças, mas de uma mudança de época.  Depois de ter 5 presidentes derrubados sucessivamente por mobilizações populares, o Equador escolhia um jovem economista para dirigir o país, apoiado em imensas mobilizações populares.

“Políticas que puderam manter-se na base de enganos e de atitudes antidemocráticas por parte de seus beneficiários, com apoio total de organismos multilaterais, que disfarçaram de ciência a uma simples ideologia”- assim Correa caracterizava as políticas neoliberais que haviam predominado por tres décadas em todo o continente. O que caracterizava efetivamente a essas políticas era que “beneficiavam ao grande capital e sobretudo ao capital financeiro”.

No Equador, depois de uma grave crise que viveu o país, em 1999, produto das políticas de desregulamentação da circulação do capital, houve uma grave crise financeira, que destruiu a moeda nacional e a conclusão do neoliberalismo era de que o problema era ter uma moeda nacional. E em 2000 o Equador eliminou sua moeda nacional, substituída pelo dólar.

Paralelamente se satanizava o Estado e a política, substituídos pelo mercado e por técnicos, supostamente neutros. “E assim se elevou a sumos sacerdotes aos economistas, a tecnocratas, e esse é um dos mais graves erros que se podem cometer, as decisões tem que se tomadas por homens políticos, com uma visão integral: em outras palavras, não deem muita importância aos economistas, que temos só uma visão parcial das coisas.”

Burocratas, do país e de fora, se reuniam três dias em algum hotel de cinco estrelas e decidiam o que era bom e o que era ruim para nossos países, “faziam o diagnóstico” davam soluções, “porque nós éramos tontos e eles, sim, eram iluminados”. Fracassavam e organizavam um novo seminário, no mesmo hotel de cinco estrelas, durante três dias, para ver porque tinham fracassado e tentar de novo. “No final de contas, não eram eles que pagavam as consequências dos seus erros, nós é que pagávamos.”

Correa afirma que está convencido de que “as decisões de política pública devem ser tomadas por mulheres e homens políticos, com uma visão integral e com legitimidade democrática, plenamente responsáveis por seus atos; à luz do dia e não nos suntuosos escritórios dos organismos multilaterais”.

Coincidem os anos em que começaram as recessões e as depressões que afetaram a países como oa EUA, a Grã Bretanha e a França, entre outros, para ver que são os momentos m que maior rentabilidade tem o capital especulativo. Suas previsões de que o livre comercio acelera o crescimento econômico foram desmentidos frontalmente pela realidade concreta.

A América Latina e todos os países do Sul do mundo sentiram os efeitos dessas políticas na conta comercial pela redução da demanda de bens primários e pela remessa, sem contrapartida de lucros para o Norte. Na conta de capitais, pela repatriação dos astronômicos recursos requeridos pelos planos de salvamento propostos pelos governos do Norte.

Mas a diferença política é que “a esquerda hoje não está em minoria” na América Latina. Muitas vezes parece que “a esquerda se acostuma a estar na oposição e não entende que no poder, desde o executivo, temos que governar e temos que gerar mãos para governar e muitas vezes nossos próprios companheiros de esquerda parecem ser nossos principais opositores, continuam mantendo essa dinâmica de quando, insisto, éramos minoria, tínhamos governos neoliberais, governos entreguistas”.

“Este é um ponto importante de reflexão: o pragmatismo que deve acompanhar a nova esquerda”, ressalta Correa. “Como dizia Pepe Mujica, esse querido amigo Presidente do Uruguai:  ‘essa esquerda do tudo ou nada é a melhor aliada do status quo’, porque se queremos o tudo ou nada, vai dar no nada, podem estar seguros...”

Ganhar as eleições na América Latina, como em quase todas as partes do mundo, até mesmo nos Estados Unidos, não é ganhar o poder, é ganhar uma parte do poder. Os poderes reais continuam vivos: os poderes econômicos, os poderes sociais, o poder informativo, “esse terrível adversário que tem os governos progressistas da América Latina: empresas de comunicação que tomam o lugar dos partidos de direita em decadência, fazem política descaradamente e tratam de desestabilizar e conspirar diariamente”. Esse poder está muito vivo, junto a poderes religiosos e às ingerências internacionais.

Mas há um ressurgimento da esquerda na nossa região, que representa ao mesmo tempo um ressurgimento e o despertar dos nossos povos. “Mas devemos ser uma nova esquerda, uma esquerda que não repita os erros da esquerda tradicional, que é preciso reconhecê-los, temos que ser autocríticos. Se satanizou no passado a palavra  “revisionista”, mas temos que revisar-nos dia a dia, inventar-nos dia a dia. Isso é  o que busca o socialismo do século XXI, o socialismo do bom viver que praticamos no Equador”.

Tags: Internacional




3 Comentários Insira o seu Coméntario !

Pedro Carlos Strikis - 24/11/2013
O papa Paco jamais foi de esquerda, O R. Correa fez um chamamento para a verdadeira esquerda, neste momento propício, se unir e reescrever a história da América Latina de modo a criarmos em uma sociedade justa e igualitária.


josé fonseca - 23/11/2013
o papa Francisco é de esquerda . a esquerda junto com os teólogos da libertação fica maior e mais popular.


augusta rios - 21/11/2013
esperei algum comentário em relacao 'a ameaca de primeira página do sr correa há algumas semanas de se demitir se se avancava em relacao 'a despenalizacao do aborto...esquerda que cada vez é mais carola e reacionária...