09/07/2015 - Copyleft

Washington Luís ou Getúlio?

9 de julho de 1932: as elites paulistas tentaram conter e reverter as transformações que Getúlio começava a implementar no Brasil.

por Emir Sader em 09/07/2015 às 06:56



Emir Sader

Hoje é o dia que as elites paulistas usam para comemorar a memória de um dos seus ícones fundamentais – o outro é Borba Gato e os bandeirantes. Porque em um dia como hoje as elites paulistas tentaram conter e reverter as transformações que Getúlio começava a implementar no Brasil.
 
Washington Luís, político de origem carioca, cooptado pelas elites paulistas – exatamente como o FHC -, se havia notabilizado por, além de dar continuidade ao domínio das elites primário-exportadoras, por duas de suas afirmações: “A questão social é questão de polícia” e “Governar é construir estradas” – para facilitar as exportações.
 
Nada mais contrastante do que o governo que o Getúlio iniciava, com a reivindicação pelo Estado dos direitos sociais dos trabalhadores e pela interpelação dos brasileiros como “Trabalhadores do Brasil”.
 
Até hoje a elite paulista – do Estadão aos tucanos -, não digeriu aquela derrota. Continua a fazer a apologia de Washington Luís, colocando seu nome em tudo quanto é lugar público – de estradas a avenidas. Enquanto que o Getúlio, o maior estadista brasileiro do século XX, não tem nenhum lugar público com seu nome em São Paulo. Lula constatou isso, ao inaugurar um auditório no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, com o nome do Getúlio.  
 
O paradoxo não poderia ser maior: FHC, ao instaurar seu programa neoliberal de governo, disse: “Vou virar a pagina do getulismo”.  Ele sabia que a centralidade do mercado que seu governo buscava, só poderia ser feita contra o Estado construído por Getúlio, que afirmava os direitos sociais, fazia do Estado uma alavanca para o crescimento econômico, incentivava a industrialização, reconhecia o direito à sindicalização dos trabalhadores, lançava as bases do nacionalismo e do Estado nacional.
 
Até hoje se pode dizer que essa é uma linha demarcatória das forcas políticas e das ideologias no pais: quem está pela continuidade do ideário getulista se situa à esquerda; quem está contra ele, é a direita brasileira.  



Tags: História,  Política




12 Comentários Insira o seu Coméntario !

Orlando de Almeida Calado - 16/07/2015
Washington Luiz foi um político fluminense, nascido em Macaé, hoje a capital do petróleo no Brasil. Ele nunca foi carioca.


Carlos Norberto osilieri - 16/07/2015
Moro no Rio de Janeiro, mas nasci no interior de São Paulo, Jaú, uma cidade altamente conservadora. Morei um ano na capital e já estou aqui no Rio de Janeiro ha 50 anos. Logo consigo visualizar isso muito bem. Para eles o 9 de Julho é mais importante que o 7 de setembro.


Hermes Sanchez - 16/07/2015
É impressionante a ignorância ou mendacidade, ou ambos, com que parte da esquerda se refere ao maior movimento revolucionário da história do país, que envolveu milhares de voluntários, que teve, pela primeira vez no Brasil, intensa participação na vida pública das mulheres, até então alijadas de qualquer papel. Eram elite os jovens MMDCA que tombaram diante das armas da ditadura? Era elite o herói caboclo Paulo Virgínio, martirizado e covardemente assassinado pelos federalistas? Eram elite os estudantes que aderiram em massa ao movimento? Os ideais revolucionários eram compartilhados por Minas e Rio G do Sul, que embora recuassem do campo militar na última hora ainda assim referendaram apoio, através de Arthur Bernardes, Baptista Luzardo, Borges de Medeiros, Paulo Pilla. E vale lembrar que um dos estopins do levante foi o empastelamento do Diário Carioca a mando do Catete, e que no Rio houve refregas esporádicas, bem como no Sul e, não por acaso, dois dos comandantes da revolta eram o carioca Gal Euclides Figueiredo e o gaucho Mal Isidoro Dias Lopes. O dia 9 de julho é guardado em memória das centenas de civis e militares que morreram, e daqueles que foram perseguidos e exilados pelo ditador.


José de Oliveira Luiz - 15/07/2015
Briga entre capitalistas ingleses e norte americanos fazem de gaúchos e paulistas, buchas para canhão. Miguel Reale disse e tinha razão.


Roberto Gervitz - 14/07/2015
O artigo é muito interessante pois estabelece uma continuidade no voto conservador paulista. No entanto, a meu ver, idealuza Getulio que também foi um ditador que presidiu um estado sanguinário e aliado, por um tempo, dos países do eixo. Getulio é um grande personagem de nossa Republica? Sim, mas é umpersonagem ambíguo, o que também está de acordo com a tradição brasileira.


Clovis Deitos - 14/07/2015
Só não concordo com uma coisa neste artigo: dizer que tudo no Estado de S Paulo tem o nome do carioca Washington Luiz, quando, na verdade, aqui tudo tem o nome dos tucanos que morreram de 1994 para cá. Todo hospital, terminal, praça, trevo, viaduto, aeroporto tem o nome desses tranqueiras.


roberto danunzio - 13/07/2015
Não fale por mim, meu amigo. Não sou getulista e me considero muito mais à esquerda do que Lula, Dilma, Mercadante, Falcão, Dirceu, Cardozo e produtos similares. Getúlio perseguiu os comunistas, viu, meu caro leitor, vá se informar a respeito, não confie em quem quer iludi-lo, manipulá-lo com informações falsas. Não confunda, leitor, Getulista com esquerdista. Não tem nada a ver. Estamos pagando duramente por esse erro de perspectiva, fruto da manipulação, fruto da desinformação. Informe-se, leia bons livros de história, e entenderá as posturas necessárias para alguém se tornar um esquerdista combativo, ou seja, um esquerdista.


Nelson Antônio Fazenda - 11/07/2015
Como disse o saudoso Aloysio Biondi, "FHC destruiu a alma nacional". E foi isto mesmo. Uma das principais ações do governo FHC foi procurar convencer os brasileiros de que todo o esforço de construção nacional impulsionado por Getúlio e que fez crescer enormemente o orgulho pátrio no povo, não havia valido a pena. Para FHC, era necessário, portanto, apagar da memória a Era Vargas. Infelizmente, graças ao gigantesco aparato de propaganda de que dispunha, FHC teve significativo êxito em sua empreitada. De cabeça feita pela propaganda e já desdenhando do que havia construído, o povo aceitou que ele entregasse à iniciativa privada quase 70% do que pertencia a este mesmo povo.


Edilberto Paludeto - 10/07/2015
Sem dúvida alguma prof. Emir. A elite sempre será elite, cabe a nós outros contrapô-la.


daniel correia teixeira de lima - 09/07/2015
A CLT foi importantíssima para o trabalhador brasileiro, mas precisamos continuar avançando nesses direitos. Ela já é uma senhora de mais de 72 anos, e lamentavelmente o que vemos é a violação ininterrupta dos direitos trabalhistas. Parece que é regra entre o empresariado não respeitar essas regras. Eles contam com falta de fiscalização, com a leniência da justiça, com inércia social dos trabalhadores etc. Trabalhadores do Brasil uni-vos!!


Gerson Alvim Pessoa - 09/07/2015
Emir, pela primeira vez vejo um paulista (você é paulista, não é?), falando do conservadorismo deste estado. Sempre achei isto e algumas vezes fui ridicularizado por pessoas que me diziam ser eu xenófobo e ante-São Paulo, só porquê eu dizia que São Paulo é de um conservadorismo irritante, e que este conservadorismo era irradiado para todo o país através da sua mídia. Estava vendo na TV, em algum jornal, as manifestações realizadas aí no dia de hoje, aliás, somente em São Paulo elas são feitas, o resto do país continua como se nada tivesse ocorrido, ainda bem. Parece que fizeram uma exposição sobre o 9 de julho de 32. Então, vi algumas pessoas, todas da elite paulistana, alguns rapazes com músculos explodindo pelo corpo, trazendo bonés militares à cabeça, indo ver a tal exposição. Pareceu-me a nata da nata da elitizinha golpista e paneleira da sua São Paulo, esta que transmite os seus valores golpistas para as elites do resto do Brasil. Fiquei pensando: O que faz esta gente se tornar tão medíocre e analfabeta em política? Por que são assim? Isto tem a ver com a alta sociedade paulistana da época do café ou também tem a ver com o excesso de migração desde o final do século XIX? Não sei, é só uma pergunta. Será que estas pessoas têm o Brasil verdadeiramente dentro de si, ou para eles tanto importa termos um país moderno e não subalterno ao jugo internacional? Veja bem, muitos deles são os mesmos que pedem a intervenção norte-americana no país, quando saem para as ruas pedindo o impeachment do governo. Foram eles que deram início, com suas passeatas, ao golpe de 64, tá lembrado? Quem são estas pessoas?


Marcia Eloy - 09/07/2015
Que os paulistas são conservadores, isto é público e notório. Mas o que espanta é o norte, nordeste e parte do sudeste não reagirem,