Colunista
10/03/2012 - Copyleft

A educação e os rinocerontes que rondam a história do Brasil



A insistência dos políticos, dirigentes industriais, intelectuais, mas principalmente os trabalhadores de que a melhor solução para um país é a educação, apesar da urgência quase gritada, parece um lugar comum inclusive histórico. Euclides da Cunha achava que um professor faria pelo Brasil muito mais que o maior exército que se pudesse reunir. Coelho Neto, contemporâneo do autor de "Os Sertões" juntava as duas coisas. Insistia em que aos brasileiros fosse obrigatório o alistamento militar, pois, com isso, à parte o ter de aprender a marchar, atirar de fuzil, ele aprenderia a ler. Não uma era visão equivocada: se a guerra e a violência parecem cada vez mais refratárias à idéia de ser homem - ser alfabetizado ensaia - pelo menos hoje em dia - o mais próximo do ideal para a condição humana.

Que Cristo sabia ler, dizem os Evangelhos no episódio em que, ainda menino, Jesus teria espantado os sábios de uma sinagoga com algumas opiniões sobre os livros sagrados. Ele os teria surpreendido por suas reflexões, incompatíveis com um garoto de sua idade. Muitos pintores renascentistas imaginaram a cena. Tudo bem, conforme a tradição - o jovem, que, para os rabinos, não passava do filho de um humilde carpinteiro, -espantosamente, não era analfabeto. Mas nada garante que o primeiro filósofo considerado que tal que foi Sócrates - tivesse o menor interesse em ler ou escrever. O único que se sabe da sua filosofia nos foi legado por dois de seus maiores discípulos, Platão e Aristóteles. Ou seja, se Sócrates tivesse alinhavado qualquer coisa - seus escritos seriam necessariamente citados por seus também amigos. É explicável. Na época, ser alfabetizado era uma especialização, não propriamente de intelectuais, mas de escribas, principalmente peritos contadores: os primeiros escritos que se têm dos egípcios, não são poesias ou textos literários, mas levantamento econômicos. No começo, em suma, não foi o verbo, mas os números.

No entanto, impossível imaginar-se um país a crescer, sem o fim da analfabetismo. Por tal constatação ou insistência, um dos participantes de um programa de TV, chamado "Manhattan Connection", sugeriu que, em Paulo Freyre, o educador brasileiro já falecido, respeitado no mundo inteiro por sua luta contra o analfabetismo, fosse cravada uma estaca no peito. A um morto "chato", perseguidor pertinaz da alfabetização em massa, o jornalista só via uma maneira de eliminá-lo do imaginário brasileiro - da mesma forma que se matam vampiros. Um vampiro a favor da alfabetização, digamos.

Grosserias à parte há, de fato, quem, abomine temas que nos alertam o quanto estamos longe de uma civilização. E então, homens como Paulo Freyre são mal vindos. Foi o que pensou a ditadura militar: ela o cassou, enxotando-o para fora do Brasil. Não é de se imaginar que os militares, que deram o golpe, pensassem diferentemente do tal jornalista. Apesar disso, durante a ditadura militar brasileira, um dos temas que mais mobilizaram generais, jornalistas e intelectuais de direita, como Gustavo Corção foi justamente o analfabetismo. A discussão da época era se analfabeto tinha direito a voto. Ou seja, a mesma estrutura política e social que não incentivava qualquer programa de alfabetização, apegava-se à idéia de que o analfabeto - por não saber ler - não tinha como dirimir entre o bem e o mal. Ou entre o que lhe convinha e o que não o afetava.

A partir desse raciocínio, admira que, com a nova constituição, depois da ditadura, com a extensão do voto aos analfabetos, não tivessem se sucedido grandes surpresas. Verdade que muitos políticos hoje, em Brasília, não nos elogiam como nação - mas na eleição resolutamente alfabetizada de antes do golpe de 64, São Paulo sufragou um rinoceronte do Zoológico. Cacareco, este o nome do bicho, foi eleito deputado federal, com mais de 100 mil votos. Conjeturar que muitos eleitores alfabetizados, em São Paulo, ansiavam, já em 1959, pelo golpe de cinco anos depois, não parece uma ilação disparatada

Na verdade, afigura-se não haver porque jurar pela inteligência ou pelo bom senso das pessoas, apesar do domínio da escrita. Adolf Hitler, um dos maiores - senão o maior facínora da história - foi legalmente eleito por um dos povos mais cultos - e alfabetizados- da história. Não houve concorrentes comunistas ou socialistas de esquerda - proibidos pelo regime antes das eleições, isso é verdade. Mas muito dificilmente a esquerda alteraria o resultado que deu franco direito aos alemães, com todos os seus letrados, de votarem num homem que prometia mundos e fundos - mas principalmente a proeminência da nação alemã sobre os outros povos, para não mencionar o pior : um anti-semitismo escancarado e todo o resto de que se sabe o fim.

O problema da educação é que ela não induz necessariamente ao bem ou às melhores escolhas. Existem muitos assassinos semi-alfabetizados ou totalmente analfabetos, mas sobre advogados, juízes, médicos, professores e jornalistas francamente aliados à criminalidade e à bandidagem, o noticiário dos jornais, dos rádios e das televisões nos alertam diariamente.

Não se culpe a educação por isso, evidentemente. Mas há um desleixo pela escolaridade e tudo o que lhe diz respeito, que raia ao absurdo, Desde que se leve a sério a estatística de que mais de 60 por cento dos integrantes das escolas publicas saem de seus cursos, sem conhecerem matemática, como se revelou numa pesquisa feita em São Paulo, se não é propriamente um atentado à educação ou à almejada alfabetização, deveria alertar para a falácia escolar, a começar pelo Estado mais importante do País. Se em São Paulo é assim - o quanto é diferente ou igual em outros Estados?

Machado de Assis aprendeu a ler os clássicos quase que por acaso: o trabalho, numa gráfica de um jornal, obrigou-o a entender melhor as letrinhas que se acumulavam numa caixa baixa e outra alta ( daí as expressões, "caixa baixa"para as letras minúsculas e "caixa alta" para as maiúsculas). Joseph Conrad, um dos maiores estilistas ingleses de todos os tempos, aprendeu inglês quando se engajou na marinha mercante britânica, na qualidade de emigrante polonês. Karl Marx teve uma educação regular - mas nunca freqüentou aulas de economia em qualquer faculdade . São exceções, é verdade. Villa-Lobos brincava que tinha estudado, com Pixinguinha que era mais jovem do que ele; gostava do som do nome de seu amigo, o que dificultava a sua pronúncia pelos franceses e americanos. E os poucos meses que dedicou a um curso normal na Escola Nacional de Música, fizeram-no recuar de buscar uma educação formal. Mas um país não se fazem por exceções notáveis, por mais que nos animem o engenho e a arte inatas de muitas delas.

Que falem, enfim, os educadores, os políticos e - por que não - a população. O bordão de que o sujeito irá vencer, "apesar de ser professor, colocado em carros anos atrás, pode ser engraçado: supõe-se que mestres", "professores, seja paradoxalmente os mais preparados para a vida. E os analfabetos sabem o que isso significa - mas, mais que todos, os semi-alfabetizados é que estão em questão: eles têm em seu currículo algumas centenas - ou milhares, sabe-se lá - de aulas na vida; muitos suportaram o diabo nas salas de aula mal iluminadas, quentes, empilhados lado a lado com outros colegas. Seria muito atentar que são eles o problema do futuro? Podem não ser tudo - já que o Brasil está importando muita mão de obra do exterior. Mas dizem o quanto estamos longe de sermos uma grande nação. E o problema não é de agora, convenhamos. Talvez o melhor mesmo seja uma estaca no peito dos analfabetizadores - mas daí seremos acusados de atentarmos contra a liberdade de imprensa, de nos postarmos inutilmente contra a indústria cultural e tudo mais. E aí "são outros quinhentos " , como se dizia nos tempos em que o Cacareco foi consagrado pelas urnas de São Paulo. - o mesmo estado, a propósito, que ostenta agora o vergonhoso índice recentemente apurado.