Colunista
30/10/2013 - Copyleft

Direita e Esquerda: razões e confusões (1)

Algum motivo forte ainda persiste para que continuemos a usar a topografia criada pelos revolucionários da Assembleia Nacional francesa em 1789.



Esquerda e direita: isso ainda existe? E para que serve?

Esquerda e direita são distinções polares, o que torna tudo ao mesmo tempo relativamente claro, diante do antagonismo entre ambas, e nebuloso, pois as linhas divisórias nem sempre são facilmente identificáveis.

Por mais que sejam conceitos antigos e gastos pelo uso, permanecem firmes e fortes. Enquanto o mundo for mundo e houver um polo para chamar de Norte, outro para chamar de Sul, haverá razões para se falar em esquerda e direita.

Não se quer, com isso, dizer que a maioria das pessoas viva no Polo Norte ou no Polo Sul. Pelo contrário. A maioria habita e transita pelo centro ou permanece indecisa, razão pela qual apenas sob circunstâncias bastante específicas, como nas revoluções, o embate se torna mais polarizado, e as diferenças entre esquerda e direita ficam mais evidentes.

Nos regimes democráticos representativos e em tempos de calmaria, a disputa pelo centro e pelos indecisos é o grande ímã que faz com que esquerda e direita moderem suas posições para conquistar um espectro mais amplo de eleitores.

A analogia topográfica é útil para entendermos as vantagens e desvantagens de ainda usarmos a dicotomia. Esquerda, direita (não vamos nos esquecer de algo fundamental que fica entre ambas, o centro) servem ao debate político exatamente para isso: termos um referencial, adotarmos um rumo, identificarmos por que caminhos nos levam cada uma dessas posições e, ao fim e ao cabo, podermos nos orientar diante de um mundo que gira o tempo todo.

Sob o signo da Revolução

A separação entre esquerda, centro e direita nasceu exatamente da topografia revolucionária da Assembleia Nacional francesa, em 1789. Os representantes das classes convocadas à Assembleia não apenas estavam posicionados em lados diferentes, mas em alturas distintas. Os jacobinos ficavam à esquerda e também na parte mais alta do plenário, sendo por isso chamados de “montanheses”; a turma do centro, moderada e constitucionalista, era “a planície”; à direita, os aristocratas.

O mundo mudou extraordinariamente, desde então - esquerda e direita, idem.
Como disse Emir Sader, ambos foram mudando de roupagem ao longo da história. Ao mesmo tempo, essa origem datada dos termos traz um legado difícil de ser abandonado, pois ainda nos dá seus pontos cardeais.

O que diferencia a esquerda da direita sempre foi e continua sendo sua posição frente ao “status quo”, “ao que aí está”. A esquerda questiona e fustiga o “status quo” - alguns de modo mais radical, até revolucionário; outros, de forma mais moderada, reformista. Desde que incomodem o “status quo”, são esquerda.

Todos os que partem do princípio de que “um outro mundo é possível”, como se diz no Fórum Social Mundial, são esquerda. Ou, como lembrou o Flávio Aguiar, “esquerdas”. Para fazer jus ao nome, as esquerdas precisam dar consequência ao seu pensamento irrequieto e ao inconformismo em relação ao que está aí semeando e fazendo brotar um outro Estado, uma outra forma de vida material e imaterial (cultural) e novas relações sociais. É algo completamente diferente de destruir caixas eletrônicos de bancos, amassar carros em concessionárias de veículos e espancar coronéis da Polícia Militar.

A direita, ao contrário, é defensora do “status quo”, mesmo que, para isso, precise, paradoxalmente, destruir o mundo que a rodeia.

O fim da esquerda e da direita: um discurso de direita

Nos anos 1990, época por excelência das reformas neoliberais, se propagou a ideia de que a esquerda não era mais a mesma e estaria ameaçada de extinção. A nova direita se arvorava a grande reformista, em contraposição à defensora-mor de se manter as coisas como estavam: a velha esquerda.

Naquele momento, as disputas eram para abalar os alicerces do chamado Estado de bem-estar social - os direitos sociais, principalmente a proteção trabalhista e previdenciária.

A cortina de fumaça mostra que o critério que herdamos dos revolucionários franceses continua útil e prático. Os reformistas neoliberais da nova direita não ameaçavam o “status quo” de maneira alguma. Ao contrário, estavam dando de comer aos mais ricos e puxando o tapete dos mais pobres e da classe média.
 
Estavam engordando uma classe já empanturrada, a ela oferecendo, em banquete à orgia do capital, a cabeça dos trabalhadores e a costela dos serviços públicos. O canibalismo do Estado de bem-estar social corroeu o que era o grande orgulho europeu, base de sua coesão social e estabilidade política.

A tentativa de borrar as diferenças entre esquerda e direita foi bastante ajudada pela social-democracia europeia, que já não fazia a mínima questão de ser associada ao rótulo de “esquerda”. Isso contribuiu para disseminar a confusão.
Surge a “terceira via”, e a nova esquerda passa a disputar com a nova direita o posto de gestora mais eficiente e impiedosa das crises do capitalismo.

Abolir as diferenças e empurrar um suposto consenso goela abaixo de todos sempre foi importante para a direita. Era uma maneira de pavimentar seu programa antissocial sem temer os efeitos colaterais mais agressivos: a eclosão de revoltas, a popularização de partidos com propostas radicais, a desmoralização da política de conluio com os grandes grupos monopolistas.

A estratégia foi insistentemente martelada pela direita, décadas a fio. De tempos em tempos, aparece um profeta do apocalipse que decreta o fim do mundo e, com ele, dos conceitos de esquerda e direita. O cientista político norte-americano Daniel Bell decretou o fim das ideologias (“The End of Ideology”, 1962), sendo desmentido em sua vizinhança pela Revolução Cubana. Francis Fukuyama, 30 anos depois, viria com sua pregação sobre o fim da história (“The End of History and the Last Man”, 1992), mas morderia a língua com os atentados de 11 de setembro, com os movimentos de protesto como “Occupy Wall Street” e com a ascensão meteórica e colossal da China.

As bandeiras da esquerda e da direita

A insígnia da Revolução Francesa, “liberdade, igualdade e fraternidade”, também é reveladora do quanto a distinção se assenta em princípios ideológicos que ainda são capazes de fornecer bons critérios à dicotomia.

A liberdade era a bandeira empunhada por todos os que queriam uma sociedade livre de amarras. Naquela época, o “laissez faire, laissez passer” (deixar fazer, deixar passar) era um ideal revolucionário. Hoje, também pode sê-lo, se pensarmos que os imigrantes pobres que tentam furar os bloqueios à imigração querem, simplemente, “laissez faire, laissez passer”. A palavra de ordem pode ser a mesma; o contexto é que mudou.

A bandeira da igualdade buscou abolir as distinções nas relações pessoais e os privilégios que as classes aristocráticas detinham na organização do Estado. Hoje, a bandeira da igualdade é empunhada pelas mulheres, por homossexuais, por grupos religiosos que querem manter suas tradições ou, ao contrário, por uma nova geração que quer se livrar de costumes antiquados. Muitos já usufruem de liberdade, mas querem igualdade de tratamento perante a lei e, principalmente, perante a sociedade.

A fraternidade servia ao propósito de lembrar que todos são irmãos. A Declaração de Direitos, não por outra razão, era “do Homem e do Cidadão”. Ou seja, era endereçada a toda e qualquer pessoa pertencente ao gênero humano. O cidadão era, especificamente, o francês.

O espírito de solidariedade, comunhão e ajuda mútua foi fundamental nos primórdios do movimento sindical, animou as internacionais socialistas e ainda hoje revela uma diferença diametral entre direita e esquerda. Também à fraternidade, tanto quanto ao princípio da igualdade, se deve atribuir a construção das políticas sociais. Elas nasceram com as associações civis de ajuda mútua, sendo depois absorvidas pela luta sindical e, finalmente, pelas mãos dos partidos operários, seriam incorporadas como obrigação do Estado.

Para Norberto Bobbio (“Esquerda e direita: razões e significados de uma distinção”, 1994), a maior desavença entre esquerda e direita se dá em torno dos princípios da igualdade e da liberdade. A esquerda seria mais igualitária. A direita, mais propensa a defender a liberdade, travando batalhas insistentes sobre os riscos do igualitarismo.

De novo, o medo à igualdade remonta à velha e sangrenta revolução de 1789. O grande historiador da revolução francesa, Albert Soboul, mostrou, em sua vasta obra, como uma parte significativa da atuação dos líderes revolucionários era dedicada não a fazer, mas a conter a revolução. Eles queriam evitar que ela fugisse do controle de uns poucos e passasse a ser comandada pela multidão.

O medo da igualdade, da multidão e da revolução passaria a ser o grande pesadelo da direita. Depois do jacobinismo, que, afinal, era uma vertente radical do liberalismo, a palavra “liberalismo” nunca mais estaria associada a movimentos radicais (Hobsbwam nos fala a respeito em “A Era das Revoluções”, de 1962).

O “slogan” utilizado na campanha de Lula, em 2002, “a esperança vai vencer o medo”, lembra o que disse Simone de Beauvoir, para quem o medo é a grande ideologia da direita.

Com o radicalismo jacobino, o liberalismo transformaria o igualitarismo em um fantasma a ser combatido, e a liberdade em um fim supremo, posto em um pedestal acima de tudo e de todos. A liberdade estaria reduzida cada vez mais ao individualismo. Mesmo a democracia – outro palavrão para os liberais do século XIX – acabaria aceita, mas entendida não como o governo da maioria. Seria o governo que permitiria avanços, mas sob a condição de preservar os direitos, os interesses e a propriedade da minoria.

Os governos representativos estão aprisionados a uma lógica bastante intrincada, na qual tomar uma decisão, por mais acertada e benéfica que seja para a grande maioria das pessoas, exige um grau elevadíssimo de acordo. Pequenos grupos, ricos e poderosos, assim preservam um grande poder de veto.

A recente crise dos Estados Unidos sobre o problema conhecido como “abismo fiscal” mostra bem o que alguns críticos identificaram  como “a maldição da supermaioria”. Não importa o que pense a maioria dos cidadãos e nem que haja maioria simples no Congresso: é preciso uma supermaioria próxima de dois terços dos políticos, ou nada relevante é aprovado.

Para obter maioria, os partidos precisam fazer acordos, moderando suas posições. Para conseguir algumas coisas, precisam abdicar de muitas coisas. Caminham a passos lentos, pois a direita apavora a todos com a vertigem de grandes mudanças.

E os que mudam de lugar?

Nada impede que alguém nascido abaixo da linha do Equador se mude para o hemisfério Norte. Da mesma forma, nada impede que alguém de esquerda migre para a direita, e vice-versa.

Norberto Bobbio ainda considera uma outra possibilidade, que chama de “tranversais”: são aqueles para quem os critérios essenciais que distinguem direita e esquerda não necessariamente importam às suas convicções e conveniências. Ele cita como exemplo os verdes europeus.

Os partidos verdes construíram, em torno de seu rígido ideário, uma maneira bastante pragmática de agir. Diante de seu programa ambiental, se aliaram ora à direita, ora à esquerda, sem qualquer cerimônia. E deram as costas para outras questões - como direitos sociais.

Em suma

Esquerda e direita, assim como paralelos e meridianos, são formas de esquadrinhar o espectro político e posicionar atores e organizações conforme sua orientação em relação ao mundo. O que nos falta, muitas vezes, é ajustar nossas convenções e os critérios que permitam localizar no mapa tais referências.

Nem todos os atores e organizações necessariamente estão no campo da esquerda ou da direita. Em geral, aliás, esquerda e direita são minoritários. Além dos que estão no centro do espectro político e dos transversais, há uma imensa multidão que simplesmente não tem posição política definida. São contingentes sob disputa, muitas vezes ausentes do debate e alheios à política.

Os textos de Carta Maior citados neste artigo são:

De Emir Sader, "Ser de esquerda na era neoliberal".
De Flávio Aguiar, "O que é, como e para que ser de esquerda (I)".
 
(*) Doutor em Ciência Política pela Universidade de Brasília