Colunista
29/05/2008 - Copyleft

1968: Debord e o Vaticano em transe



Se, como muitos enfatizam, Debord foi o autor que melhor traduziu o inconformismo das barricadas de 1968, seu pensamento, passados 40 anos, não cessa de se atualizar, posto que a sociedade capitalista se reproduz como espetáculo incessante.

Um momento emblemático, ocorrido há exatos três anos, não pode ser esquecido se queremos criticar a sociedade regida pela lei do valor e uma ideologia difusa que, se definindo como pós-moderna, quer negar sentido à história, definindo-a como fragmentos que não se encontram ligados. Algo que se esgota em um presente sem devir, sem possibilidade de ser transcendido pela práxis humana.

Em 2005, com o falecimento de João Paulo II, o Vaticano produziria uma das maiores superproduções do que o autor francês, se vivo estivesse, classificaria como "negação visível da vida".

"Santo subito!", gritava o coro de 300 mil pessoas ao fim da encenação do calvário. Estima-se que o clamor tenha sido ouvido por um bilhão de ouvintes e telespectadores nos cinco continentes. Até o corpo do papa João Paulo II sumir na escuridão da basílica, a Praça de São Pedro produziu a primeira teofania midiática da modernidade. Centenas de emissoras transmitiram para 90 países o mais impressionante espetáculo de massa de que se tem notícia. Tão fantástico em plasticidade e emoção que não deve ser rotulado apressadamente de espetáculo. É certo que o foi, mas sua magnitude requer algumas observações.

Karol Wojtyla era, antes de tudo, um atualizador das teses dos vaticanistas mais retrógrados. Em termos políticos e eclesiásticos representou a derrocada das conquistas do aggionarmento produzido por João 23, no Concílio Vaticano II. Seu pontificado de 26 anos foi marcado pelo fechamento ao diálogo com valores da modernidade. Reiterou, com ferocidade mariana, o tradicionalismo católico em questões morais, como sexualidade e uso de preservativos. Se avançou, ao estabelecer pontes com outras confissões religiosas, chegou às raias do reacionarismo quando se confrontou com as contribuições da esquerda no seio da Igreja. A Teologia da Libertação foi massacrada pela hierarquia da instituição.

Dotado de grande capacidade de comunicação, utilizou muito bem a mídia, conspirou e foi um dos protagonistas da queda dos regimes do Leste europeu. Como destaca o teólogo Eduardo Hoornaert, "ao operar com o presidente americano Reagan a desestabilização do comunismo, o papa não teria avaliado os efeitos do freio socialista". De fato, o sumo pontífice subestimou o efeito do capitalismo sem contrapartida, e quando atacou a globalização neoliberal lhe faltaram aliados. Os sócios de antes se encontravam na mira de sua crítica. A firme oposição à guerra de Kosovo e à invasão do Iraque mostraram o desconforto papal com um mundo unipolar que, sem sua colaboração, não teria existido.

No campo dos costumes, sua incapacidade de formular orientações que fossem seguidas pelos fiéis contribuiu para a diminuição do número de católicos. Às vitórias políticas não se sucederam conquistas simbólicas. Não logrou construir um lugar em que se reconhecessem os valores aceitos pela maioria dos que professavam a sua religião. João Paulo II não tinha seguidores fervorosos. Dispunha de um invejável exército de fãs. Era uma celebridade à disposição de um universo sagrado que se reinventa ao longo de 2.000 anos. Definido por Castoriadis como "criação incessante e essencialmente indeterminada (social-histórica e psíquica) de figuras, formas e imagens a partir das quais somente é possível falar-se de alguma coisa", o imaginário cristão é zelosamente trabalhado pela aliança criada entre Igreja e mídia. Duas épocas, dois aparelhos, uma identidade híbrida.

O espetáculo não atropela temporalidades distintas. A folhetinização do sofrimento de João Paulo II foi veiculada pela imprensa, mas edição e roteiro permaneceram nas mãos dos autores milenares. Para eles, protagonistas de um tempo em que o único poder possível era a corporificação, a presença do corpo agonizante na janela reitera o ethos histórico da instituição. Cumpre a função do rito; de agir sobre a percepção que as pessoas têm da realidade. Morto, o papa restitui sentido à esfera que o definiu como autoridade. Sujeita-se a quem o constituiu como sujeito. Morre celebridade, ressuscita carisma.

Vive como revelação espetacular e, ao morrer, transmuta-se, historicamente, naquilo que, segundo Weber, é conseqüência paradoxal do desencantamento do mundo: o líder carismático que surge para suprir a ausência de magia num lugar tomado por racionalidade crescente.

Póstumo, adquire qualidade, "que passa por extraordinária de uma personalidade possuidora (...) de forças sobrenaturais, sobre-humanas". A inevitabilidade da morte é, enfim, num mundo guiado pela lógica do lucro, garantia da infalibilidade papal. Santo subito!

Duas horas e meia de uma missa de exéquias, celebrada em latim, não são compatíveis com informações fragmentadas e flashes. O espetáculo, segundo Debord, consiste na multiplicação de ícones e imagens que transmitem uma sensação permanente de plenitude daquilo que falta à vida real do homem comum. Pode ser executado por ritos religiosos, políticos e meios de comunicação de massa. Impõe uma sensação transcendente onde impera a imanência e o fetiche da mercadoria. Restitui, de forma ilusória, integridade e sentido a uma sociedade esfacelada em suas contradições.

Instituição feudal, a igreja vem de um "mundo mítico, inacabado que tinha a perfeição fora de si" (Sociedade do Espetáculo, capítulo V). Sua liturgia requer coro, cântico, salmos e o luto vermelho dos bispos. Sua mensagem redefine o meio. Sabe usá-lo, mas com ele não se confunde. Como soldar épocas e ethos tão distintos? O que possibilita a conciliação espetacular entre capital e sagrado? A resposta pode estar nesse trecho de Debord:

"A sociedade da mercadoria, descobrindo então que devia reconstruir a passividade que lhe tinha sido necessário abalar, fundamentalmente para estabelecer o seu próprio reino puro, 'encontra no cristianismo com o seu culto do homem abstrato¿ o complemento religioso mais adequado' (O capital).

A burguesia concluiu, então, com esta religião, um compromisso que se exprime também na apresentação do tempo: o seu próprio calendário abandonado, o seu tempo irreversível voltou a moldar-se na era cristã, de que ele continua a sucessão".


Numa noite de sexta-feira de 2005, contrito, William Bonner relatava no Jornal Nacional, da TV Globo:

"O papa, amigo de todas as religiões, foi homenageado pelos mulçumanos, como o rei Hussein, da Jordânia. Orientais, africanos, o secretário-geral das Nações Unidas. Quase uma assembléia-geral da ONU no adeus no Vaticano. O clima de boa vontade rendeu uma oportunidade histórica. Apesar de as câmeras não terem registrado o momento exato, os presidentes da Síria, Bachar al-Assad, e do Irã, Mohammad Khatami, trocaram apertos de mão com o presidente de Israel, Moshé Kastav. Foi como um presente póstumo do papa, que sempre falou contra a guerra."
Ressuscitados, Kant e sua pax juntaram-se ao coro da Praça de São Pedro: Santo subito!