Colunista
19/10/2004 - Copyleft

A NOTA DO EXÉRCITO
Os tigres de bengala





Há algo de muito assustador na divulgação de fotos acreditadas como sendo de Vladimir Herzog no DOI-CODI, logo antes de seu assassinato, e nas reações subseqüentes.
É impossível escapar de uma relação entre estas fotos e as divulgadas sobre a tortura de prisioneiros pelos invasores no Iraque. Em ambos os casos há algo de maligno incrustado nas fotos: uma deliberada vontade de registrar a humilhação da vítima.


As reações levantam questões muito graves. A primeira é a de que houve uma certa hesitação por parte da imprensa em repercutir o acontecimento. As fotos foram divulgadas no Correio Braziliense durante o fim de semana. Apenas O Globo repercutiu a matéria imediatamente.
A segunda é a de que a nota do Exército reergue os argumentos da ¿tigrada¿, nome que era dado aos administradores e executores dos porões da ditadura de 64: os atos [leia-se: crimes] cometidos se justificavam porque eram uma resposta à agressão revolucionária contra ¿o governo legalmente constituído¿ (sic).


Prossegue a nota dizendo que para combater o inimigo certas instituições (como a das fotos, o DOI-CODI) foram criadas, mas que elas se tornaram ¿obsoletas¿, e nada há que herde suas funções ou seus propósitos hoje. Além disso, a nota reergue argumentos completamente superados pelas evidências históricas sobre supostas conquistas republicanas e sociais da ditadura de 64.


Aparentemente, estaríamos diante de uma manifestação dos ¿tigres de bengala¿, isto é, múmias da nossa história que se sentiram atacadas em sua imagem. Mas não pode ser só isso.
Uma nota dessa natureza desautoriza não só um ministro, o da Defesa, ou o próprio presidente da República. Uma nota dessas afronta a natureza mesma das instituições republicanas.
Não há ¿combate¿, se é que assim se pode chamar a perseguição, tortura e assassinato de supostos conspiradores, que justifique as práticas que as fotos evocam. Elas são anti-republicanas por sua própria natureza, e sua justificativa agride a sociedade brasileira passada, presente e futura. Agride a memória dos mortos e a lembrança dos vivos.


Não se pode tergiversar quanto a isto, senão estaremos criando o precedente de que qualquer nova sociedade que se queira construir poderá se tornar herdeira de tais práticas. E temos a experiência histórica de que muitas se tornaram.


Uma das coisas mais horrendas que presenciei na referida ¿instituição¿ evocada nas fotos foi o discurso de um dos interrogadores me dizendo que ¿eles¿ agora faziam ¿aquilo¿ ¿conosco¿, mas que, se um dia ¿chegássemos lá¿, eles fariam ¿aquilo¿ para ¿nós¿: ¿podíamos contar com eles¿.


Mas o pior ainda está por vir. Acho que de fato aquele ¿tempo da tigrada¿ passou. Hoje é história. Mas assim como os tigres de bengala estão por aí, ciosos na defesa de sua imagem perante a história, o episódio demonstra que pode haver uma nova cachorrada à espreita. Afinal, deve causar espécie ainda que andem por aí antigos prisioneiros, exilados, cassados por aquilo que deveria ser a ¿Revolução Redentora¿, a ¿Irreversível¿, a que chegou a decretar em dito publicitário que ¿o Brasil era o país do futuro, mas agora o futuro chegou¿, e o futuro era ¿aquilo¿.


No Brasil a república ainda é uma criança frágil.