Colunista
19/06/2014 - Copyleft

A contraditória Igreja Católica nos anos de chumbo: apoio e profecia

A Igreja Católica chegou dividida ao golpe de 1964. De um lado, os movimentos da Ação Católica. Do outro, as Marchas da Família, com Deus, pela Liberdade.




A Igreja Católica chegou dividida ao golpe de 1964, há meio século. De um lado, os movimentos da Ação Católica especializada, comprometidos com o testemunho evangélico na transformação da sociedade. Cristãos estiveram presentes na cultura popular, como no Movimento de Educação de Base (MEB), no Movimento Popular de Cultura (MPC) do Recife, na Campanha de Educação Popular (CEPLAR) da Paraíba, entre outros. A experiência alfabetizadora de Paulo Freire, também com forte presença de cristãos, espalhou-se pelo país. Em 30 de abril de 1963, a Comissão Central da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), pedira reformas urgentes na sociedade: “nossa ordem é, ainda, viciada pela pesada carga de uma tradição capitalista ... na qual o poder econômico, o dinheiro, ainda detêm a última instância das decisões econômicas, políticas e sociais”. E retomava as sugestões de “reformas de base”, lançadas pelo governo.

 Do outro lado, vieram as Marchas da Família, com Deus, pela Liberdade. Em São Paulo, dia 19 de março de 1964, quinhentas mil pessoas desfilaram preparando o golpe, entre as quais um bom número de cristãos e cristãs (as marchadeiras). Ali falou o senador Padre Calazans: ”Hoje é o dia de São José, padroeiro da família ... Fidel Castro é o padroeiro de Brizola”. E o deputado Padre Pedro Vidigal anunciara meses antes, que era preciso substituir o “amai-vos uns aos outros”, por “armai-vos uns aos outros” (Élio Gaspari, A ditadura escancarada, p. 236-238). Logo depois, em 2 de abril, no Rio, vitorioso o golpe, realizou-se a Marcha da Vitória, com o apoio do Cardeal Jayme de Barros Câmara. 

Um primeiro momento, de 64 a 68, foi o que o dominicano francês Charles Antoine chamou: “a Igreja na corda bamba”. Dia 13 de abril, na posse de D. Hélder Câmara como arcebispo de Olinda e Recife, este declarou que, não se podia confundir a ordem, “com contrafações suas, responsáveis pela manutenção de estruturas que todos reconhecem não poder ser mantidas”. E bispos ali presentes denunciaram as primeiras arbitrariedades. Entretanto, em direção oposta, um surpreendente comunicado da CNBB, de 27 de maio, agradecia “aos militares, que, com grave risco de suas vidas (sic) se levantaram e... concorreram para  libertarem (a nação) do abismo iminente”. No mesmo momento, pela operação “arrastão”, cerca de 300 leigos e clérigos, estavam na prisão (Thomas Bruneau). Chegaram os tempos valentes do leigo Alceu Amoroso Lima, em artigos memoráveis, como Terrorismo cultural, de 7 de maio, criticando demissões de brasileiros ilustres  e prisões entre as quais a minha. Mereceu um telefonema do próprio presidente Castello Branco, que o declarou mal informado! Mas vieram logo outros valentes textos, como aquele que denunciava um “Primarismo cultural”.

Pior ainda, lideranças populares foram mortas logo depois do golpe, como Pedro Fazendeiro, saudoso paraibano que me introduziu, em 1963, na Liga Camponesa de Sapé, em Miriri, jogado vivo num forno aceso depois de bárbaras torturas. E os mandantes e executores do crime, certamente se declaravam defensores da civilização cristã, a defender-se de um perigoso comunista.

Um segundo momento, vai de 1968 - ano, ao mesmo tempo, do AI-5 no Brasil e da reunião dos bispos latino-americanos em Medellín -, até 1979 - ano da anistia conquistada entre nós e da reunião episcopal de Puebla, com a opção preferencial pelos pobres. Sociedade em cativeiro e forte dinamismo eclesial. Em meio a ditaduras, foram anos gloriosos em parte significativa da Igreja Católica na América Latina, que passou a ser a “voz dos sem voz”. Surgiu, no Brasil, em 1972, o Conselho Indigenista Missionário (CIMI) e, em 1975, a Comissão da Pastoral da Terra (CPT), importantes espaços de compromisso. Cresceram pelo país as Comunidades Eclesiais de Base (as CEBs). Era o tempo fecundo das pastorais sociais operária, da juventude...). Já em 1968, o bispo D. Cândido Padin denunciara a doutrina da segurança nacional dos militares como antievangélica.
Chegaram terríveis anos de perseguições, assassinatos como do Pe. Henrique Pereira Neto no Recife, Pe. Josimo Tavares em Emperatriz, Pe. João Bosco Bournier em Ribeirão Bonito, os leigos Santos Dias em São Paulo, Margarida Alves na Paraíba.  Vários frades dominicanos foram presos e alguns terrivelmente torturados. Um deles, Frei Tito de Alencar, introjetou de tal maneira a terrível figura do delegado Fleury, que se matou, em 1974, na França.

Além de D. Hélder e de vários bispos valentes, como D. Tomás Balduíno, que acaba de partir, foi marcante a presença de D. Paulo Evaristo Arns que, desassombrado, denunciou prisões e torturas. Em contrapartida, D. Sigaud, bispo de Diamantina, declarou, durante o Concílio, com terrível tranquilidade: “se há violência é só durante os interrogatórios”. Ele, aliás, dissera, sem pestanejar: “confissões não se conseguem com bombons” (Della Cava, A Igreja em flagrante, 1964-1980, p. 149). O Cardeal Agnelo Rossi, em Roma, negava que houvesse torturas. Mas era o tempo das Comissões Justiça e Paz da Igreja desocultarem o arbítrio absurdo.

Um terceiro momento vai de 1979, com a lei da anistia e de uma lenta abertura no país. Mas aqui se dá uma inversão. Distensão na sociedade, rigidez na cúpula do mundo eclesiástico internacional, no que o saudoso Padre João Batista Libânio chamou: “inverno na Igreja: os anos oitenta”. Foram publicadas duas Instruções do cardeal Ratzinger, críticas à Teologia da Libertação (1984 e 1986) e foi imposto o silêncio obsequioso a Leonardo Boff (1985) e a Ivone Gebara (1990). O teólogo jesuíta uruguaio, Juan Luís Segundo, assinalava, num livro-resposta ao cardeal Ratzinger, futuro Bento XVI, que a primeira Instrução fora “conduzida por uma grande dose de ressentimento ... por uma teologia dependente de uma política sem esperança”. Porém, nas igrejas locais, seguia o compromisso evangélico.  E a CNBB, com os primos Aloísio Lorcheider (1971-1978) e Ivo Lorscheiter (1975-1986) e, depois, Luciano Mendes de Almeida (1979-1995), na linha de Medellín e de Puebla, publicou documentos marcantes como “Exigências cristãs de uma ordem política” (1977) e outro, em 1979, em que denunciava que “os ricos ficam cada vez mais ricos, à custa dos pobres que ficam cada vez mais pobres”. A Igreja brasileira, nas suas bases, vivia tempos de testemunho e de ousadia.

Uma nota contrastante nos tempos atuais. Essa Igreja que, na esfera eclesiástica, fora valente na tribulação, nos últimos anos, no Brasil, ao contrário de alguns episcopados, não parece muito visível para refletir com coragem sobre transformações internas (fim do celibato obrigatório, ordenação de homens casados e mulheres) e abrir caminhos de libertação em áreas como da ética sexual e das novas dimensões da família e do matrimônio, estes últimos temas, aliás, do próximo sínodo da Igreja Católica em outubro.  Há um preocupante silêncio e boa dose de vôos rasteiros. Onde está aquela Igreja dos grandes padres latino-americanos, que assinalara o teólogo belga Joseph Comblin? É verdade que o bispo Erwin Krautler levantou algum desses temas diante de Francisco. E temos ainda entre nós Pedro Casaldáliga ou José Maria Pires. Alguns teólogos, ligados ao poder clerical, se encerram em medrosa autocensura. Mas outros, pelo mundo, como o indu Michael Amaladoss, o alemão Hans Küng ou o italiano Vito Mancuso, arrostam as fúrias da Congregação da Doutrina da Fé, ex-Santo Ofício, que ainda teima em sobreviver.  A omissão é tanto mais grave quando, nos tempos de Francisco, bispo de Roma, uma nova primavera parece, aos poucos, permitir e exigir posições fortes e proféticas.


(*) Diretor do Programa de Estudos Avançados em Ciência e Religião, Universidade Candido Mendes.







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